Trabalhadora relata falhas na apuração interna e questiona reclassificação do caso pela holding

Uma denúncia formal de assédio sexual registrada por uma trabalhadora da Transportadora Brasileira Gasoduto Bolívia-Brasil (TBG), subsidiária da Petrobrás, foi arquivada após mais de um ano de tramitação interna sem que todas as testemunhas indicadas fossem ouvidas, segundo relato e documentos aos quais a reportagem teve acesso. Após a publicação do caso na edição impressa do Jornal Petroleiros, no dia 8 de março, a holding voltou a reclassificar a manifestação no dia 13 de março, fazendo com que ela retornasse à condição de denúncia de assédio no sistema interno.
O caso ocorreu em junho de 2024, durante viagem de trabalho ao Rio de Janeiro. A trabalhadora, então com pouco mais de um mês na empresa, formalizou denúncia contra um supervisor por episódios que teriam ocorrido, durante cinco dias consecutivos, em ambientes coletivos, como restaurante de hotel, elevador e recepção. Dentre as situações descritas estão toques físicos não consentidos, comentários de cunho sexual e insistentes convites após negativa.
A denúncia foi inicialmente registrada no canal de compliance da TBG. De acordo com a trabalhadora, o processo levou mais de um ano para ser concluído e foi encerrado como “não caracterizado” ou “inconclusivo”. Posteriormente, o caso foi reencaminhado ao sistema da Ouvidoria da Petrobrás.
Documentos mostram que a manifestação foi reclassificada no sistema da holding, deixando de constar como denúncia de assédio e passando a tramitar como “reclamação”. A denunciante relata ter perdido acesso ao andamento do processo e às justificativas técnicas do encerramento.
Outro episódio citado ocorreu durante reunião interna sobre prevenção ao assédio. O supervisor investigado teria questionado, publicamente, como se proteger de “denúncias de má-fé”. A resposta da área de compliance, segundo gravação apresentada à reportagem, destacou que a melhor forma de proteção é manter conduta adequada e respeitosa.
A trabalhadora afirma que, neste momento, sua principal preocupação deixou de ser a punição individual e passou a ser a forma como a apuração foi conduzida. “Se isso aconteceu comigo, pode estar acontecendo com outras pessoas”, diz.
O caso também reacende o debate sobre assimetrias de poder no ambiente corporativo e como homens em posições hierárquicas elevadas, sobretudo em setores historicamente masculinizados, podem se beneficiar do controle sobre avaliações, promoções e contratos para constranger ou silenciar subordinadas. A combinação entre autoridade formal e cultura organizacional permissiva cria barreiras adicionais para quem decide denunciar.
Especialistas em governança corporativa destacam que canais de denúncia e políticas de compliance só cumprem sua função quando garantem apuração rigorosa, proteção às partes e transparência nos procedimentos. A confiança no sistema é elemento central a fim de que vítimas e testemunhas se sintam seguras para relatar irregularidades. Quando há percepção de falhas, demora excessiva ou ausência de escuta adequada, o efeito pode ser inverso: desencorajar novas denúncias e reforçar o silêncio em ambientes já marcados por hierarquias rígidas.
Procuradas pela reportagem, a Petrobrás e a TBG receberam questionamentos detalhados sobre o fluxo de apuração, os critérios adotados para o arquivamento e a eventual reclassificação da denúncia no sistema interno. Após a publicação no jornal impresso em 8 de março, a Petrobrás informou nova reclassificação do caso em 13 de março, retornando-o à categoria de denúncia de assédio. Até o fechamento desta edição, no entanto, as empresas não enviaram respostas adicionais aos demais questionamentos.
