
Por Miriam Nobre*
Quatro mulheres foram assassinadas a cada dia no Brasil em 2025. O feminicídio não é um crime isolado: é a expressão mais extrema de um contínuo de violências que atravessa a vida de todas as mulheres, restringindo sua liberdade, impondo um estado permanente de alerta e transformando tanto as ruas quanto os lares em espaços de risco.
Diante desse quadro, a auto-organização das mulheres é uma ferramenta política indispensável. Quando mulheres se organizam coletivamente, criam espaços livres de violência dentro de suas próprias estruturas e constroem, na prática, relações pautadas por outros valores. Construir espaços livres de violência nas nossas organizações não se trata de um gesto simbólico. Essa é nossa forma de demonstrar, concretamente, que outras formas de convivência são possíveis e de fortalecer as mulheres como sujeitos coletivos.
Essa disputa é estrutural. Acabar com o feminicídio exige desmontar a ordem patriarcal, racista e capitalista que o alimenta. A impunidade é um dos seus pilares, mas a resposta não pode se reduzir ao endurecimento de penas. A Lei Maria da Penha já aponta um caminho mais abrangente, ao articular responsabilização, prevenção e assistência de forma integrada, com financiamento contínuo e coordenação entre diferentes esferas de governo. O problema é que esse modelo raramente se realiza por completo.
Na 5ª Conferência de Políticas para as Mulheres, realizada em 2025, a Marcha Mundial das Mulheres avançou nessa direção ao propor a criação de um sistema nacional de monitoramento das violências. A proposta prevê o cruzamento de dados por gênero, raça e etnia, orientação sexual, idade, deficiência e território, contemplando realidades urbanas, rurais, quilombolas e indígenas. Mais do que estatísticas melhores, essa ferramenta permitiria políticas públicas mais precisas e intervenções mais ágeis em situações concretas.
O debate sobre segurança pública também precisa ser enfrentado sem recuos. Feministas negras têm sido protagonistas nessa frente, articulando a crítica ao encarceramento em massa com o enfrentamento ao genocídio da juventude negra. Propostas como a descriminalização das drogas e uma nova abordagem aos crimes contra a propriedade, que respondem por 74,4% da população carcerária, apontam para um sistema de justiça capaz de concentrar seus recursos com mais eficiência nos crimes contra a pessoa, incluindo as violências de gênero. Debater formas alternativas de responsabilização não significa minimizar a violência contra as mulheres. Significa, ao contrário, levá-la a sério o suficiente para buscar respostas que funcionem.
No centro de tudo isso está a aposta na força coletiva. É nos movimentos feministas, nos coletivos e nas organizações de base que as mulheres sobreviventes encontram condições para reescrever suas histórias e se afirmar como sujeitos de suas próprias vidas. Junto com elas, exercitamos a liberdade como uma prática política permanente.
* Miriam Nobre é coordenadora da SOF Sempreviva Organização Feminista e militante da Marcha Mundial das Mulheres.
