Bronca do Peão: Unidade nova, problema velho

Novo unidade de produção de diesel da maior refinaria do país, a Replan, opera com riscos críticos de segurança

replan
Novo HDT de diesel opera há seis meses com padrões de segurança preocupantes

Bronca do Peão*

A partida da U5283, mais um HDT de diesel na maior refinaria do país – a Replan, compõe o enorme setor de hidrorrefino que contribui pesadamente para a produção de uma larga fatia do diesel consumido no país (aproximadamente 1/3 da produção vem da Replan). Unidade novinha, inaugurada em 2025, que permeada de velhas práticas corporativas apresenta já graves problemas.

O comissionamento foi terceirizado a Toyo Setal, certamente delegado por algum “jestor” que não ficaria com a unidade no colo depois de entregue (e a operação que se vire depois).

A operação recebeu a unidade cheia de ‘gatinhos’ que foram sendo descobertos ao longo da sua operação. Uma dessas situações que persistem e precisa urgentemente ser ressaltada é o problema com as válvulas de controle de nível do V5283002 – as LV006 A/B.

O conceito SIL (safefy integrity level) tem sua base filosófica no fato de que “as coisas falham”. Todo equipamento, sistema ou processo falha ou falhará. E esta ocorrerá de forma imprevisível caso não haja barreiras projetadas para lidar com isso.

Riscos são apenas reduzidos, nunca eliminados.

Não existe SIL para a LV006, pois ela é uma malha de controle. Mas o conceito é pertinente pois estamos falando de um ponto altamente crítico.  A válvula em si não é uma camada de proteção, isso é sabido. Mas ela é um elemento constituinte do SDCD, e este por sua vez corresponde a uma camada de proteção.

Portanto, há uma camada degradada. No local da válvula de controle há um carretel, e parte da ação para mitigar essa situação, e isso consta na análise de risco, é a restrição de bloqueios gaveta manualmente, no campo. Só para situar o tamanho do enrosco operacional que estamos falando, é justamente no ponto de quebra de pressão entre um vaso de 80kgf/cm2 para um vaso a jusante com 10.7 kgf/cm2. Se as janelas de tempo de resposta são suficientes para endereçar uma situação de descontrole de nível, não sabemos.  A análise das gerências é que o aumento do risco é tolerável, dadas as camadas de proteção que estão presentes no sistema. Ok, pode até ser. Mas durante todo esse período de tempo? Estamos falando de no mínimo 6 meses desse jeito.

O sistema em questão possui duas PSVs, válvulas redundantes, intertravamento com votação de 3 sinais. Algo que é projetado para ser robusto, pois o contexto operacional é crítico. Vamos relembrar que o dP aqui é de 80 kgf/cm2 para 10 kgf/cm2. Somado ao fato de que o fluído ali é HC pressurizado COM H2S, pois ainda não houve retificação.

Não é capricho de quem projetou ou avaliou no HAZOP (que por sinal não possui situação prevendo um descontrole de nível num vaso desse, sem a presença das duas controladoras). É perigoso. É crítico. É severo.

Considerar o operador como ferramenta de controle de uma situação dessa é, no mínimo, inadequado. E é necessário insistir neste ponto: a situação fica muito pior quando colocamos na equação o fator tempo. Ao menos 6 meses a unidade opera desta maneira.

Coloque aí nesse caldo o fato da refinaria estar num momento crucial de renovação dos trabalhadores, no qual muita mão de obra experiente está saindo e temos muitos ‘borrachos’ nas áreas. Na verdade, na maioria dos grupos de turno, a composição de operadores de área dos HDTs é quase que em sua totalidade de operadores novos.

As gerências jogam o abacaxi uma no colo da outra. E o peão segue exposto a uma condição de risco elevado. Lembrando que num cenário de perda de nível do vaso e falha das camadas de proteção, estamos olhando para um cenário potencialmente catastrófico. Algo numa escala menor, em níveis de pressão, foi o que deflagrou o fatídico acidente da U220A em agosto de 2018, no qual um tanque decolou, atravessou a rua e foi parar em outra unidade. Ali as pressões envolvidas eram de 17kgf/cm2 para 0,5 kgf/cm2. Aqui estamos falando de 80 para 10. O dP é severamente maior.

Novamente, é sabido que existem camadas de proteção, no entanto, ao adicionar o fator tempo, será que o risco é tão tolerável assim? Ou estamos brincando com fogo? Não são poucos os treinamentos da Petrobrás sobre segurança, que ilustram de maneira clara e cristalina que acidentes severos acontecem por um alinhamento de pequenos incidentes. E dar tempo ao tempo, certamente favorece o alinhamento desses pequenos furos.

Sabemos que esse tipo de situação se arrasta porque a produção não é severamente atingida. O problema principal aqui é a exposição aumentada ao risco e a degradação de camadas de segurança. O que parece ser tolerável numa lógica onde o que importam são apenas os índices, muitas vezes desconexos da realidade. É a famosa “gestão de índices”… Uma realidade comentada em corredores e copas de café que fica longe da gramática corporativa oficial.

Uma chefia vai ficar acompanhando a taxa de corrosão enquanto outra vai divulgar ocorrência não sei onde, outra vai enviar sugestão de revisão de norma e assim o léxico corporativo vai sendo exercitado de palavras ocas e na prática as coisas não se desenrolam. Nesse tempo todo, a operação segue expondo sua integridade física em intervenções que até agora não solucionaram o problema e que não deveriam ser recorrentes.  E neste momento as válvulas gavetas estão lá restringidas, corroendo. Fazendo quebra de pressão, algo que elas não foram feitas para fazer. E o fluxo sendo contido pelo furo de uma R.O.; um dispositivo completamente passivo no sistema.

Vamos aguardar os furos se alinharem? Porque o tempo está sendo fornecido.

*Texto escrito por um petroleiro que preferiu não se identificar.

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