Após denúncias de violência, greve na Replan ganha apoio de entidades e amplia pressão por negociação

Mobilização na maior refinaria do país denuncia violência, cobra negociação das empresas e reforça a unidade entre trabalhadores do setor privado e petroleiros

Cibele Vieira, coordenadora-geral interina da FUP, relacionou a greve à luta contra a precarização e a divisão entre trabalhadores: “Não deve existir segregação entre quem é concursado e quem é terceirizado. Todos entram na refinaria para produzir riqueza para a Petrobrás”, afirmou

Por Maria Julia Wegher e Vítor Peruch

Nem a chuva persistente que caiu sobre Paulínia na manhã desta quinta-feira (25) foi capaz de esfriar a mobilização dos trabalhadores do setor privado da Refinaria de Paulínia (Replan). No nono dia de greve, dezenas de trabalhadores voltaram a ocupar a entrada da refinaria para cobrar avanços nas negociações do dissídio coletivo, denunciar a violência registrada durante a mobilização do dia anterior e reafirmar a disposição de seguir na luta por melhores salários e condições de trabalho.

Ao lado da categoria estavam dirigentes do Sindipetro Unificado, da Federação Única dos Petroleiros (FUP), representantes de outras entidades sindicais, líderes de movimentos sociais, além de políticos da cidade de Campinas. A presença das organizações reforçou a solidariedade à greve e a defesa do direito constitucional de organização e manifestação dos trabalhadores.

A paralisação envolve trabalhadores da construção e montagem que atuam na refinaria por meio de empresas terceirizadas. Entre as reivindicações estão reajuste salarial de 9%, melhorias nos benefícios, aumento do vale-alimentação, do café da manhã, da Participação nos Lucros e Resultados (PLR) e da cesta natalina.

Apesar da determinação judicial que estabelece a manutenção de parte das atividades, os trabalhadores seguem mobilizados diante da falta de avanços nas negociações.

Solidariedade diante da violência

A mobilização desta quinta-feira foi marcada pela repercussão de um episódio ocorrido na quarta-feira (24), quando, segundo denúncias do sindicato da categoria, um trabalhador teria sido agredido durante a greve.

O caso levou o Sindipetro Unificado a antecipar uma atividade que estava programada para sexta-feira (26), transformando-a em um ato de solidariedade e defesa da livre organização sindical.

“Estamos aqui hoje na portaria norte da Replan dando apoio ao pessoal da construção civil, que está em greve já pelo nono dia. Nós tínhamos um ato marcado para amanhã e antecipamos para hoje porque ontem aconteceu um episódio de violência aqui na refinaria. Resolvemos fazer um ato conjunto em defesa da livre manifestação, da greve e da reivindicação dos direitos dos trabalhadores”, afirmou o diretor do Sindipetro Unificado, Rodrigo Zanetti.

O coordenador-geral do Sindipetro Unificado, Steve Austin, explicou que a decisão foi tomada para demonstrar que os petroleiros não aceitariam qualquer tentativa de intimidação contra os trabalhadores em greve.

“Nós já tínhamos um ato marcado para o dia 26, dentro da mobilização nacional dos petroleiros nas refinarias. Mas, pelo que aconteceu ontem aqui na Replan, decidimos antecipar e realizar a atividade hoje. Todo mundo que trabalha aqui trabalha para a Petrobrás e tudo o que acontece dentro desta refinaria também é responsabilidade da Petrobrás”, afirmou.

Segundo Steve, o conflito não pode ser tratado como um problema de segurança pública, mas como uma disputa trabalhista que exige negociação.

“Se existe conflito aqui, é um conflito entre trabalhadores e empresas. É luta de classes. Não existe luta de classes com violência. Se alguém está promovendo violência, são as empresas que não estão respeitando o direito de greve e a livre manifestação dos trabalhadores”, declarou.

O dirigente também cobrou uma postura mais ativa da Petrobrás para reduzir as tensões e contribuir para a construção de uma solução negociada. “A Petrobrás poderia distensionar essa situação facilmente. Quantas vezes os trabalhadores fizeram mobilizações aqui sem nenhum problema? O que não é admissível é criar obstáculos para a organização dos trabalhadores e transformar uma reivindicação legítima em caso de polícia”, criticou.

Steve Austin, coordenador-geral do Sindipetro Unificado, destacou a responsabilidade da empresa no conflito: “Todo mundo aqui trabalha para a Petrobras e tudo o que acontece aqui também é responsabilidade da Petrobrás” (Foto: Sindipetro Unificado)

Apoio petroleiro fortalece mobilização

A atividade desta quinta-feira também coincidiu com a mobilização dos petroleiros da Petrobrás em torno da discussão da Carta de Intenções apresentada pela empresa. A convergência das pautas fortaleceu a unidade entre trabalhadores próprios e do setor privado da refinaria.

“Hoje estamos aqui fazendo nosso movimento junto aos trabalhadores petroleiros. Os trabalhadores da rotina da refinaria estão de greve e nós estamos fazendo este ato junto com o sindicato dos petroleiros. Seguimos firmes na luta”, afirmou Amilton Mendes dos Santos, coordenador do Sindicato dos Trabalhadores da Construção e Montagem.

Historicamente, o Sindipetro Unificado tem denunciado a precarização das condições de trabalho imposta pela terceirização no Sistema Petrobrás. Para a entidade, a greve evidencia uma realidade enfrentada diariamente pelos trabalhadores contratados por empresas prestadoras de serviço, que muitas vezes recebem salários menores e possuem menos direitos que os trabalhadores próprios, mesmo atuando dentro da mesma unidade industrial.

Unidade da classe trabalhadora marca ato na refinaria

Além dos petroleiros e trabalhadores da construção civil, o ato reuniu representantes de outras categorias organizadas. A presença de dirigentes sindicais de diferentes ramos reforçou a percepção de que a greve na Replan ultrapassa uma pauta local e dialoga com desafios enfrentados por trabalhadores de diversos setores.

Representando o Sinergia-CUT, sindicato dos trabalhadores energéticos do Estado de São Paulo, Mario Macedo Netto destacou que a luta por melhores salários e condições de trabalho é uma reivindicação comum a toda a classe trabalhadora.

“É por isso que o movimento sindical está lutando e é por isso que todas e todos estão aqui agora de braço cruzado para fazer valer o seu direito. O Sinergia representa os eletricitários, categoria que está de braços dados com os companheiros da construção civil e de braços dados com os companheiros petroleiros para ajudar a trazer dignidade para nossas casas, para nossas vidas e para nossas famílias”, afirmou.

Macedo também criticou a atuação policial durante os episódios de tensão registrados nos acessos à refinaria.

“A truculência utilizada pelo capital, disfarçada em viaturas da polícia, tenta nos oprimir a cada momento. Mas os trabalhadores seguem mobilizados e firmes na defesa de seus direitos”, declarou.

O presidente do Partido dos Trabalhadores (PT) de Campinas, Pedro Tourinho, também esteve presente na mobilização e destacou a importância de garantir segurança aos trabalhadores que exercem seu direito de greve.

“Ontem tivemos uma situação violenta, com a agressão a um trabalhador. É muito importante garantir que os trabalhadores possam fazer sua manifestação com segurança, ter seu direito à greve garantido e poder lutar por melhores condições de trabalho. Estamos falando de trabalho decente, de direitos que foram conquistados com muita luta e que precisam ser respeitados”, declarou.

Greve expõe debate sobre negociação coletiva e terceirização

Durante o ato, a coordenadora-geral interina da FUP, Cibele Vieira, relacionou a greve dos trabalhadores da construção civil ao cenário mais amplo das relações de trabalho dentro do Sistema Petrobrás e à mobilização nacional dos petroleiros.

Ela lembrou que a categoria petroleira também está em luta para cobrar o cumprimento de compromissos assumidos pela Petrobrás após a greve realizada no ano passado: “Os petroleiros e petroleiras votaram uma semana de mobilização porque a Petrobrás está simplesmente ignorando compromissos assumidos no encerramento da greve. O compromisso era sentar na mesa para negociar temas como plano de cargos, previdência e participação nos lucros. Não estamos falando de concordar com tudo, mas de negociar”, afirmou.

Para Cibele, os episódios registrados na Replan revelam problemas estruturais que afetam tanto trabalhadores próprios quanto do setor privado: “Sempre defendemos que todos os trabalhadores utilizem a mesma portaria, o mesmo restaurante, os mesmos vestiários e os mesmos banheiros. Não deve existir segregação entre quem é concursado e quem é terceirizado. Afinal, todos entram na refinaria para produzir riqueza para a Petrobrás”, declarou.

A dirigente criticou ainda a utilização de estruturas da refinaria para enfraquecer o movimento grevista e classificou como inadmissíveis as denúncias envolvendo a atuação de seguranças privados armados: “No movimento legítimo de greve dos trabalhadores, utilizar uma portaria que normalmente não é destinada a eles para tentar furar o movimento já era grave. Quando recebemos a notícia de que havia segurança armada atuando para impedir a ação sindical, ficou claro que precisávamos estar aqui. Isso é inadmissível”, afirmou.

Ao manifestar apoio à greve, Cibele Vieira reforçou a importância da organização coletiva: “A reivindicação é justa e legítima. Juntos somos mais fortes. E se isso continuar, voltaremos quantas vezes forem necessárias” (Foto: Sindipetro Unificado)

Segundo ela, o episódio demonstra a importância da unidade dos trabalhadores diante das tentativas de enfraquecer a organização coletiva: “Já foi falado bastante aqui sobre o quanto somos mais fortes juntos. Se os trabalhadores não se unem, as empresas também ficam mais fortes juntas. Por isso estamos aqui hoje, lado a lado, em solidariedade aos trabalhadores da construção civil”, disse.

Ao encerrar sua fala, Cibele reforçou o compromisso da FUP e dos sindicatos petroleiros com a mobilização: “Estamos aqui para somar forças à campanha salarial dos trabalhadores da construção civil. A reivindicação deles é justa e legítima. Pode contar com a gente para auxiliar nas mediações e no que for necessário. E, se essa postura continuar, voltaremos quantas vezes forem necessárias. Juntos somos mais fortes.”

Luta continua enquanto não houver proposta digna

Após nove dias de paralisação, o impasse segue sem solução definitiva. Enquanto algumas empresas sinalizam disposição para avançar nas negociações, outras ainda mantêm propostas consideradas insuficientes pelos trabalhadores.

Diante da falta de acordo, a categoria permanece mobilizada e reafirma que continuará pressionando por uma proposta que contemple suas reivindicações.

Ao longo da manhã, sob chuva e frio, a cena em frente aos portões da Replan demonstrou que a disposição de luta permanece intacta. Entre palavras de ordem, bandeiras erguidas e manifestações de solidariedade, trabalhadores da construção civil, petroleiros, eletricitários e representantes de diversas organizações reforçaram uma mensagem comum: direitos não se conquistam sem organização, mobilização e unidade de classe.

No nono dia da greve, a principal demonstração de força não veio apenas da resistência dos trabalhadores que seguem de braços cruzados, mas da ampla rede de solidariedade construída em torno da mobilização. Uma união que reforça a legitimidade das reivindicações da categoria e amplia a pressão para que as empresas abandonem a intransigência e apresentem uma proposta capaz de encerrar o conflito com respeito aos trabalhadores que constroem, diariamente, a riqueza produzida dentro da maior refinaria do país.

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