Bronca do Peão: A impunidade que adoece: assédio segue impactando a saúde mental na Replan

Problemas de saúde mental são a maior causa de afastamento na Replan

Charge: Bira Dantas

Por Bronca do Peão*

Os dados recentes sobre afastamentos na Replan evidenciam um cenário preocupante: os problemas de saúde mental já são a principal causa de licenças entre os trabalhadores. A empresa tem adotado medidas de acolhimento e tratamento individualizado, o que é importante — inclusive para mitigar impactos humanos e prejuízos financeiros decorrentes dessas ausências.

No entanto, esse cuidado não vem sendo acompanhado de uma análise mais profunda das causas estruturais do adoecimento. Chama atenção a ausência de correlação entre os afastamentos por saúde mental e as recorrentes denúncias de assédio no ambiente de trabalho. Essa desconexão revela uma fragilidade — ou falta de interesse — em enfrentar a raiz do problema.

Mais grave é a falta de desdobramentos efetivos diante dessas denúncias. Relatos indicam que, mesmo quando há comprovação, não são adotadas medidas proporcionais à gravidade das condutas. Em diversos casos, a resposta institucional inverte a lógica da proteção, tratando o assediador como vítima.

Nesse contexto, assediadores seguem protegidos e, por vezes, são beneficiados com oportunidades de capacitação, cursos de progressão de carreira e designações para funções de liderança, inclusive em posições interinas de gerência. Em vez de serem afastados, acabam ganhando mais poder, o que amplia o potencial de agressão, perseguição e discriminação.

Há um coordenador, por exemplo, que mesmo após denúncias de assédio, continua tratando trabalhadores próprios e contratados aos gritos. A impunidade garante que truculência nem seja mais disfarçada. Enquanto se dirige aos superiores com palavras doces e vocabulário rebuscado fingindo alguma sofisticação, trata os trabalhadores sob sua liderança com desrespeito e hostilidade. E a refinaria continua “observando” enquanto os trabalhadores vão adoecendo.

Esse movimento pode ainda contribuir para a manutenção de indicadores artificiais, ao desestimular denúncias e favorecer a subnotificação de irregularidades, preservando, na aparência, os “bons resultados” da refinaria.

O cenário transmite uma mensagem clara: práticas de gestão marcadas por comportamentos agressivos, autoritários e desrespeitosos não apenas são toleradas, como podem ser funcionais dentro da lógica organizacional vigente.

A consequência é a perpetuação de um ciclo nocivo. A sensação de impunidade reforça condutas abusivas e mantém ambientes de trabalho adoecedores, enquanto a origem do problema permanece intocada.

Promover saúde mental no trabalho exige mais do que ações reativas e individuais. É necessário enfrentar, com seriedade e transparência, as práticas organizacionais que favorecem o adoecimento. Sem isso, qualquer iniciativa de cuidado será insuficiente — e, no limite, contraditória.

*Texto escrito por petroleiro da base que preferiu não se identificar.

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