Por que o destaque de mulheres causa tanto incômodo aos homens?

Episódios de desqualificação de homens contra mulheres, além de vergonha alheia, um ideal de masculinidade frágil

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São inúmeros os casos de retaliações de diversos tipos a mulheres que conseguem alcançar notoriedade em suas áreas profissionais (Imagem gerada por meio de inteligência artificial)

A greve nacional dos petroleiros chegava ao seu oitavo dia, no dia 23 de dezembro do ano passado, com dezenas de bases mobilizadas, milhares de trabalhadores paralisados e, finalmente, uma proposta apresentada pela direção da Petrobrás. Havia – e continua havendo – divergências sobre o encerramento ou continuidade da mobilização da categoria, como é de se esperar num contexto da democracia sindical. Mas o que “roubou” a cena foi a virulência de uma mensagem que atacava diretamente a aparência física da diretora da Federação Única dos Petroleiros (FUP) e linha de frente das negociações, Cibele Vieira:

Uma pessoa que não tem nem a capacidade de se vestir dignamente, se mostrar diante de ministros, presidente da República, diretoria executiva de forma decente… Se apresentar de uma forma que passe credibilidade… Vocês veem a forma que ela se expõe nas redes sociais, eu nem pegaria a ficha de emprego se eu visse ela vestida desse jeito. Independente da inteligência da pessoa, a aparência conta muito. 

Cerca de dois meses depois, no dia 21 de fevereiro, após o confronto válido pelas quartas de final do Campeonato Paulista de Futebol Masculino, entre Bragantino e São Paulo, o zagueiro da equipe do interior, Gustavo Marques, desferiu as seguintes palavras à árbitra da partida, Daiane Muniz, considerada pela crítica especializada como uma das melhores da competição:

Primeiramente, quero falar da arbitragem porque não adianta jogar contra São Paulo, Palmeiras, Corinthians e eles colocarem uma mulher para apitar um jogo desse tamanho. Era nosso sonho chegar à semifinal, ou até a final, mas ela acabou com nosso jogo. Acho que a Federação Paulista tem que olhar para os jogos desse tamanho e não colocar uma mulher. Todo respeito às mulheres do mundo, sou casado, tenho minha mãe, então desculpa se estou falando alguma coisa para as mulheres.

No dia seguinte, 22 de fevereiro, o presidente dos Estados Unidos conseguiu transformar uma façanha histórica em mais um dos seus ataques misóginos. Logo após o time de hóquei masculino vencer seu arquirrival Canadá e conquistar a medalha de ouro nas Olímpiadas de Inverno após 46 anos, Donald Trump fez uma chamada de vídeo com os atletas ainda no vestiário, por intermédio do diretor do FBI, Kash Patel, na qual os convidou ao Capitólio. Entretanto, fez questão de menosprezar a conquista de ouro do time de hóquei feminino, também sobre o Canadá, que havia acontecido no dia anterior:

– Tenho que dizer que precisaremos trazer a seleção feminina também. Vocês sabem disso. Elas provavelmente me destituiriam (caso não convidasse), certo?

Mas por que o sucesso das mulheres causa tanto incômodo aos homens? Não é um fenômeno novo. E não é casual. Quando as mulheres ganham destaque, a velha estrutura patriarcal se sente ameaçada, e os homens recusam a aceitar a perda de privilégios. Com isso, afloram os ataques às mulheres, que podem surgir como silenciamento e desclassificações, até violências físicas. 

Essa lógica, infelizmente, não está restrita a nenhum espectro político e, muitas vezes, é observada em espaços de esquerda, incluindo o meio sindical. Essa dinâmica é explicada pela jornalista, militante do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra e coordenadora do Boxe Sem Terra, Aline Antunes: 

A construção patriarcal da nossa sociedade faz com que os homens, inclusive aqueles que temos como aliados, sintam-se ameaçados com o desenvolvimento profissional, intelectual e financeiro das mulheres. O destaque das mulheres que ocupam lugares de destaque pode gerar desde reações mais comuns, como o silenciamento, mas muitas vezes escalona a casos de violência mais graves que, infelizmente, têm transbordado nos noticiários recentes. Importante reafirmar que o machismo não se elimina imediatamente apenas por nos colocarmos dentro de um espectro de esquerda ou progressista. Ainda dentro da política, do esporte, da educação e comunicação popular enfrentamos diariamente situações em que homens, homens aliados, tentam nos ensinar as funções para as quais estudamos e nos preparamos por anos.

Nesse contexto, um dos objetivos da luta feminista é mostrar aos homens que as mulheres não pretendem tomar os seus lugares, mas acessar espaços que antes lhes eram restritos. E, com isso, o foco não está no reconhecimento individual de uma mulher, de maneira personalista, mas no avanço da igualdade de gênero da sociedade – um dos pilares fundamentais de uma democracia real.

Essa é a opinião da coordenadora do Coletivo de Mulheres da Federação Única dos Petroleiros (FUP), vice-coordenadora do Sindipetro Espírito Santo (ES) e diretora da FUP, Patrícia de Jesus:

O sucesso das mulheres incomoda alguns homens porque eles cresceram acreditando que poder, reconhecimento e liderança eram territórios exclusivamente masculinos. Quando veem uma mulher avançando, muitos interpretam isso como ameaça, como se estivéssemos tentando ‘tomar o lugar’ deles. Mas não é sobre isso. Nós não queremos ocupar o lugar de ninguém — queremos apenas ocupar o nosso lugar, com liberdade, oportunidade e respeito. O incômodo não nasce do nosso sucesso, mas da quebra de um privilégio antigo. E é justamente por isso que continuamos avançando: para que a conquista de uma mulher não seja vista como perda para um homem, e sim como evolução para todos.

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