O Fio da Lealdade: José Dirceu e as pontes sobre o precipício

Em uma conversa marcada por memórias e projeções, José Dirceu revisitou sua própria travessia política e traçou um diagnóstico duro sobre o Brasil, da captura da renda do petróleo ao desafio histórico de 2026, defendendo que só há lealdade verdadeira quando ela se alinha à coerência de um projeto de país

José Dirceu durante exposição: “Nós vivemos uma situação em que o tempo que nós temos é muito curto para o Brasil resolver seus problemas. Precisa fazer uma revolução no Brasil. Essa revolução tem que ser pelo voto”, afirmou o ex-ministro ao defender mudança radical na composição do Congresso Nacional (Foto: Vítor Peruch/Sindipetro Unificado)

Por Vítor Peruch

Existe uma cena que José Dirceu gosta de usar como metáfora: aquelas pontes suspensas nos desfiladeiros da China, onde cada passo é um ato de fé sobre o vazio. Para ele, a lealdade é isso. Um fio tenso entre dois abismos, uma travessia que nunca termina.

No Sindipetro Unificado, em mais uma tarde chuvosa de nove de dezembro que antecede um ano eleitoral decisivo, o homem que já foi chamado de “ministro-chefe” da era Lula, que já foi preso, processado e testado de todas as formas possíveis, fala com a clareza de quem atravessou muitos precipícios. Aos 79 anos, José Dirceu não carrega mais o peso do poder, mas ainda carrega o peso da memória e claro, da coerência.

O Comandante que Não Manda

“Eu não mando em nada. Eu comando. É bastante diferente”, afirma Dirceu antes da entrevista começar. Ao ser questionado sobre esta diferença, ele explica: “Mandar é no exército. Comandar é na política”, e nessa distinção aparentemente simples está toda uma filosofia de poder, que segundo ele, não se trata de mera semântica: “A política você sempre está buscando ou consensos ou maiorias, porque você administra conflito. É ilusão você achar que o locus da política não é o conflito. Por isso que é uma ilusão você partir da ideia que governar é só ter bônus. Governar é ter muito ônus. E nem sempre você pode resolver os conflitos a favor da maioria. Às vezes a minoria se impõe no conflito, como acontece no nosso Brasil, onde uma maioria parlamentar se impõe por um governo que representa uma maioria de votos”.

Sem o peso do cargo mas ainda com o peso da história, ele revisita sua caminhada com a nitidez: “Talvez eu tenha sido a pessoa que mais fui submetida a testes de coerência, de lealdade”, diz ele, sem falsa modéstia, porque é um fato. Poucos dirigentes políticos brasileiros foram tão expostos, tão atacados, tão questionados. E poucos permaneceram tão firmes no projeto.

Quando José Dirceu fala sobre os estados que o PT já governou, não está fazendo uma lista de troféus. É um mapa estratégico, um inventário de experiências acumuladas: “Espírito Santo, Minas Gerais, nove meses no Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Bahia pela quinta vez, Ceará, Piauí, Pará, Mato Grosso do Sul, Acre, Amapá, Sergipe. Falta Pernambuco. E falta, principalmente, São Paulo”.

“São Paulo passa a ser um estado fundamental para a nossa estratégia nos próximos 20 anos”, ele projeta. Não são 20 anos quaisquer. De 2002 a 2026 já se passaram 24 anos. Segundo ele, os próximos 24 anos definirão se o Brasil será uma nação soberana ou uma fazenda produtora de energia, alimentos e minerais, uma “subcolônia dos Estados Unidos”, nas suas palavras.

O Brasil que pode ser

José Dirceu tem números na cabeça. “O Brasil investe 16, 17% em formação bruta de capital fixo quando precisaria de 23, 25%. O país desperdiça 10% do PIB pagando juros da dívida pública enquanto nenhum país do mundo paga mais que 2%. São 700, 800 bilhões de reais todo ano transferidos para uma minoria, talvez um milhão de pessoas, na verdade grupos de fundos, fechamentos, bancos”.

“O principal custo hoje no Brasil é o custo do dinheiro, é o capital”, ele martela. “Não é o custo trabalhista, não é a produtividade, não são as disputas judiciais. É o capital. O spread bancário de 28%, o imposto consignado que cobra 30% quando a inflação é de 4,5%”.

Mas o discurso de Dirceu é também de possibilidade. “O Brasil tem território, população, tamanho econômico, recursos naturais. Pode produzir um terço a mais de cereais, proteínas, minerais, óleo e gás. Tem água, terra, sol. Tem um mercado interno de 200 milhões de pessoas e outros 200 milhões ao lado, na América do Sul”, afirma.

“O Brasil poderia ser um país muito menos desigual”, ele diz, “mas foram acumulando esses problemas.”

A Petrobrás e o crime contra o futuro

Mas é quando chega ao tema da Petrobrás que Dirceu afia o tom. Ele não fala em metáforas, não suaviza, não relativiza. Ele chama de crime. Um crime contra o país, contra o futuro, contra a inteligência nacional: “um dos maiores crimes que se cometeram contra o Brasil foi quando eles desconstruíram a partir do fundo soberano, porque todos os países que descobriram uma riqueza como o petróleo procuraram se apropriar da renda do petróleo, o Estado-nação, e não os dividam as empresas. Porque com essa renda você em 10 anos pode fazer 100”. 

Ele lembra que Noruega e países do Golfo fizeram exatamente o contrário do que o Brasil fez: protegeram a renda do petróleo como patrimônio da coletividade. Aqui, segundo ele, desmontou-se a engenharia que poderia sustentar a soberania brasileira por décadas: “A renda do petróleo foi para acionistas nos Estados Unidos. Venderam partes da Petrobrás por um valor que o próprio lucro paga em cinco anos.” 

A frase não é apenas uma denúncia; é uma síntese brutal do que ele vê como captura do Estado por interesses privados. E ele reforça que isso não é teoria conspiratória, mas matemática: “houve, na verdade, como sempre no Brasil, uma captura de bens que a nação construiu, que todos os brasileiros e brasileiras construíram, com seus impostos em 30, 50 anos, para entregar para privados, a pretexto que eles prestam o melhor serviço”.

2026: O ano das encruzilhadas

Quando Dirceu começa a falar de 2026, ele é categórico: “2026 não é só o ano da eleição. Tem uma série de conflitos que estão evoluindo no mundo e no Brasil que devem ter desdobramento”. 

Ele não fala como analista, mas como alguém que observa a história pelo lado de dentro, e que sabe que cada movimento internacional, cada oscilação de poder, cada gesto do Congresso pode dobrar o destino do país.

Ele começa pelo mundo, como quem abre o plano geral antes de pousar no detalhe: “As negociações da Ucrânia, o fim, se é que é possível falar assim, do genocídio que nós assistimos na Palestina por parte do Estado de Israel. O trumpismo. Tem eleições em novembro nos Estados Unidos. O trumpismo vai ser derrotado?” A pergunta fica no ar como uma linha de instabilidade que atravessa fronteiras.

Só depois disso ele aterrissa no Brasil. O risco, para ele, não está em 2026 ser imprevisível; está em ser previsível demais. “Internamente no país nós temos o Congresso Nacional, o Banco Central que são fatores. O país precisa crescer, está crescendo. O Banco Central vai reduzir os juros? Nós vamos conseguir manter a taxa de crescimento que nós temos hoje?”

É nesse ponto que Dirceu abandona qualquer superfície eleitoral e vai direto à disputa estrutural: a forma como o país será arrastado ou impulsionado nos próximos anos. A direita, diz ele, ainda busca sua forma definitiva: “A direita vai se entender com a extrema direita, com o bolsonarismo? Serão duas candidaturas? Três? Ou será uma só?”

Mas é quando ele formula o que chama de “estruturante” que o sentido do seu argumento aparece por inteiro. O desafio não é ganhar. É governar um país travado por interesses que, segundo ele, bloqueiam qualquer possibilidade de desenvolvimento: “O mais grave é que o país despoupa 10% do PIB pagando 10% de juros da dívida pública. Nenhum país do mundo paga mais que 2%.”

Ele explica por que isso, para ele, é um mecanismo de transferência de renda às avessas: “Nós estamos fazendo uma transferência de renda brutal… essa transferência vem basicamente da massa salarial, pelos impostos e pelos juros.” 

E então ele faz a síntese que deixa claro por que, na visão dele, a eleição de 2026 ultrapassa qualquer contorno partidário: “A reforma política, a reforma tributária, são as condições para o país avançar. Mas para isso você precisa fazer uma maioria no país. Precisa mudar o Congresso Nacional.”

Só aí ele chega aos dois pontos que, segundo Dirceu, definem tudo: “Mudar o Congresso Nacional e reeleger o Lula são dois grandes desafios. Sem mudar o Congresso, as reformas não andam; sem as reformas, não há crescimento; sem crescimento, não há transição energética, reindustrialização, inovação, estado de bem-estar possível, e sem isso, o Brasil continua sendo um país que poderia ser, e não é”.

José e a Lealdade

Quando a conversa se encaminha para o fim, proponho a José Dirceu uma pergunta íntima, quase incômoda: o que é, afinal, lealdade? Ele sorri e se ajeita na cadeira, respira fundo, e antes de formular qualquer definição, admite que o próprio termo já carrega um risco. “Você sabe que essa expressão, lealdade, é uma fronteira perigosa”, diz, escolhendo devagar as palavras. Para ele, não é um valor simples; é “uma linha que você atravessa um precipício”, e remete a metáfora mencionada das pontes estreitas suspensas em desfiladeiros chineses. Algo que exige cuidado e sobretudo lucidez.

Só então ele arrisca uma resposta. “A lealdade é lealdade a princípios. Ou a sonhos. Ou a relações.” Mas rapidamente amplia o horizonte: não se trata apenas de vínculos pessoais ou de fidelidades íntimas. Para alguém cuja vida foi moldada por disputas políticas desde os 19 anos, lealdade é inseparável de projeto histórico. Ele enumera, na ordem que lhe parece natural: “Primeiro é o Brasil. Depois, a democracia. E depois, a classe trabalhadora. O povo brasileiro se apropriando das riquezas que cria. O que eu chamo de revolução social”.

Mas, ao mesmo tempo, ele desromantiza o conceito. Não transforma lealdade em mística, nem em dogma. Adverte que “todas essas lealdades podem ser rompidas”, por divergências, por diferenças reais. E volta à imagem da travessia perigosa: um fio que pode partir. A lealdade, diz ele, é sempre instável, exige passo cuidadoso, porque qualquer passo em falso abre o abismo.

É nesse ponto que Dirceu faz a inflexão mais inesperada. Ele próprio, que atravessou quase todos os testes possíveis, como a luta contra a ditadura, à prisão por um governo autoritário, o exílio, os cargos no poder, a perseguição midiática e novamente à prisão injusta, recusa a ideia de ter vivido pautado pela lealdade. “Na verdade, eu nunca me pautei pela lealdade”, afirma, sem hesitação. “Eu me pautei mais pela coerência política.” Para ele, a coerência, sim, é a âncora. A régua que sobrevive aos rompimentos, aos fracassos, às mudanças. Mudanças que ele admite ter vivido desde jovem, mas sempre dentro do mesmo arco.

Quando revisita esse trajeto – de trabalhador que estudava à noite, de militante que atravessou ditadura, governos, quedas e reconstruções – ele reafirma não a constância das relações, mas a constância do propósito. “Sempre procurei me pautar por um projeto político, por um sonho de país, de humanidade. Por isso que nós somos socialistas”.

Ao final, sua definição não é uma definição: é um alerta. A lealdade é frágil, não se sustenta sozinha. A coerência, essa sim, é o que resta depois de todos os testes. E ele fala como quem os enfrentou um por um, cruzando pontes estreitas sobre desfiladeiros profundos, sempre com o mesmo horizonte adiante.

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