Dirigente petroleira relata trajetória sindical, enfrenta machismo estrutural e defende que combater a violência passa por questionar a desigualdade de gênero

A atual dirigente sindical da categoria petro entrou na Petrobrás em 2002, aos 20 anos, ao mesmo tempo em que iniciava a graduação em Ciências Sociais. Sem trajetória prévia no movimento estudantil, foi no encontro entre a prática na empresa e a teoria na universidade que começou a construir sua formação política e sindical.
Única mulher da sua turma ao ingressar na Petrobrás, enfrentou desde o início situações explícitas de discriminação. Ao longo de mais de duas décadas, viu mudanças importantes na empresa e no movimento sindical, mas afirma que o machismo estrutural ainda molda comportamentos, relações de poder e episódios de assédio. Nesta entrevista, ela fala sobre trajetória, enfrentamentos e os desafios das mulheres na categoria.
Você entrou na Petrobrás em 2002, ao mesmo tempo em que iniciava a graduação. Como essa combinação entre prática e teoria influenciou sua formação política?
Entrei na Petrobrás em novembro de 2002 e comecei a faculdade no início de 2003. Eu não vinha de movimento estudantil, não tinha uma trajetória politizada. Na empresa tive contato com o sindicato; na universidade, com a teoria. Eram dois mundos que se complementavam. Muitas situações que eu via na prática eu tentava entender à luz do que estava estudando, e isso foi fundamental para minha formação.
Quando decidiu atuar diretamente no sindicato?
Depois de formada. Entrei no sindicato por volta de 2008 ou 2009. Já acompanhava e dialogava antes, mas a atuação direta veio nesse período.
Você foi a única mulher da sua turma ao ingressar na área de suprimentos. Como foi essa experiência inicial em um ambiente majoritariamente masculino?
Logo na ambientação já questionavam por que eu tinha escolhido aquela área. E eu nem tinha escolhido, era minha visão de concurseira da época. No setor, entrou um homem junto comigo. Para ele, o comprador mais antigo ensinava o processo inteiro. Para mim, queria que eu ficasse só passando fax de cotação. Eu disse que não faria apenas a parte que ele não queria fazer. Houve conflito, mas eu não abaixei a cabeça. Era evidente que o tratamento era diferente por eu ser mulher.
De 2002 para cá, o que mudou para as mulheres na categoria?
Mudou muita coisa, mas ainda está longe do ideal. O machismo continua sendo estrutural e os espaços de poder seguem organizados a partir de uma lógica masculina, que não considera as necessidades das mulheres. A grande mudança recente veio no pós-pandemia, quando o trabalho remoto e a reorganização da rotina fizeram com que muitos homens passassem a vivenciar mais diretamente as demandas da casa e da família. Isso deslocou o debate: temas como divisão de tarefas, cuidado com filhos e organização de agendas deixaram de ser vistos como “questão das mulheres” e passaram a ser percebidos como responsabilidade coletiva.
Quais são hoje as pautas mais urgentes das mulheres petroleiras?
A campanha contra a violência tem um peso grande porque tenta atingir a raiz do problema. Não é só a agressão física. É a concepção de que a mulher existe em função do homem, como auxiliar, como apoio. Essa visão sustenta o assédio moral, o assédio sexual e as desigualdades. Enquanto essa mentalidade não mudar, a violência continua.
Após a última greve, você foi alvo de ataques relacionados à sua aparência. Como analisa esse episódio?
Sempre que uma mulher ocupa um espaço de direção, a primeira coisa que fazem é olhar para a aparência. Comentam a roupa, o cabelo, o jeito de falar. Se fala mais firme, é chamada de mandona; se fala mais tranquila, dizem que não tem pulso. No meu caso, as críticas vieram muito nessa linha da roupa, mas não era só sobre estética — tinha um conteúdo claro de classe ali.
Existe uma ideia de que para ocupar determinados espaços você precisa ter uma determinada imagem, um padrão que é muito marcado por classe social. Quando a roupa não corresponde a esse padrão, quando não é a “roupa esperada” para quem está na direção, isso vira motivo de ataque. É como se dissessem: “esse não é o seu lugar”. Não é uma crítica neutra, é uma forma de deslegitimar.
A leitura que fazem é atravessada por preconceito de classe e por machismo. Em vez de debater o conteúdo da greve, as posições políticas, preferem desviar para a aparência. É uma tentativa de enfraquecer a liderança atingindo o que, historicamente, sempre foi usado para controlar as mulheres: o corpo e a imagem.
No fundo, o incômodo é com mulheres ocupando espaço de poder, especialmente em uma categoria que ainda é majoritariamente masculina. A crítica à roupa é só a superfície de algo muito mais profundo.
Qual foi um dos momentos mais marcantes da sua trajetória sindical?
Em uma mobilização no terminal de Guararema, após uma paralisação, três vigilantes terceirizados foram demitidos e a culpa foi colocada no sindicato. No dia seguinte, organizamos nova mobilização para denunciar a injustiça. As trabalhadoras da cozinha decidiram aderir ao atraso em solidariedade aos terceirizados. Disseram que só entrariam quando todos entrassem. Foi um gesto de unidade muito forte. Conseguimos reverter as demissões. Foi um momento que mostrou a força da solidariedade entre trabalhadores.
O Congresso da FUP deste ano elegerá a próxima gestão. Que sinalizações esse processo traz para o futuro da entidade?
Há um fortalecimento do papel das mulheres na direção, fruto de um processo construído ao longo dos anos, inclusive pelo coletivo de mulheres. Isso abre a possibilidade de termos, pela primeira vez, uma chapa encabeçada por mulher. É uma construção coletiva que reflete mudanças na categoria.
Hildes Pedro Gabriel
“A Cibele é inspiração: inteligente, dedicada, persistente, íntegra — qualidades importantes para a luta petroleira, mas sobretudo para uma mulher envolvida nessa luta. A luta como mulher e a luta como petroleira. E luta, enquanto substantivo feminino, não poderia ser melhor representada do que por uma mulher tão íntegra e comprometida. Como dizem por aí, ‘lute como uma mulher’ — e digo mais: lute como uma Cibele.”
Maju Wengher
“A Cibele é agridoce: é a mistura do piquete de greve com a mais alta capacidade de pensamento estratégico e diplomacia. É quem me dá a certeza, todos os dias, de que a categoria está em boas mãos.”
Davina
“Cibele é a amiga que faz nossos dias mais felizes e a vida mais bonita.
É uma mistura de Madalena com Clarice Lispector: ‘Eu sou mais forte do que eu’. Os açoites da vida a fortalecem. Ela questiona a realidade na Petrobrás para transformá-la, porque a luta pela justiça e pelo bem comum — que dura a vida toda — a torna mais do que necessária: a torna imprescindível.”
Cristiane Reis
“Cibele reúne força e sensibilidade de uma forma única, transformando essas qualidades em verdadeira inspiração. Sua presença e amizade são essenciais na construção da minha trajetória e na defesa incansável de toda a categoria petroleira.”
