Apesar da forte chuva, auditório do sindicato lotou para receber ex-ministro e discutir os desafios do Parlamento brasileiro e a necessidade de uma mudança radical na correlação de forças em 2026

Por Vítor Peruch
A forte chuva que caiu sobre Campinas na noite desta terça-feira, 9 de dezembro, não impediu que o auditório do Sindipetro Unificado atingisse sua capacidade máxima. Políticos, militantes, lideranças sociais e sindicais, estudantes e trabalhadores lotaram a sede do sindicato para participar da roda de conversa com José Dirceu sobre “Eleição 2026: a importância de disputar o Congresso Nacional”. O encontro, mediado por Silvio José Marques, petroleiro e coordenador do Núcleo dos Petroleiros, transformou-se em um importante espaço de reflexão sobre os rumos da democracia brasileira e a urgência de alterar a composição do Parlamento.
Organizada pelo Núcleo dos Petroleiros com apoio do Sindipetro Unificado, a atividade reuniu figuras históricas da política campineira e regional. Entre os presentes estavam Maria da Conceição Vieira, primeira presidenta mulher do PT (Partido dos Trabalhadores) de Campinas; Luciano Zica, ex-deputado federal e membro do Núcleo dos Petroleiros; Steve Austin, coordenador geral do Sindipetro Unificado; e Pedro Tourinho, presidente do PT Campinas.
Pedro Tourinho, presidente do PT de Campinas, abriu os trabalhos destacando a importância do momento político e o papel de José Dirceu como uma das raras lideranças do campo progressista que mantém simultaneamente perfil eleitoral e capacidade de formulação crítica.
“Como presidente do PT de Campinas, para nós é uma honra receber o Zé Dirceu aqui, principalmente por você estar se dispondo em um momento do PT que ele carece de lideranças que tenham o perfil eleitoral e disposição para fazer a disputa do espaço do parlamento e que ao mesmo tempo se dediquem a fazer uma reflexão e uma formulação crítica, estruturada sobre a realidade brasileira a partir de uma matriz que não perde como referência os nossos ideais, a nossa agenda de transformação”, afirmou Tourinho.

O presidente municipal do PT foi enfático ao defender que o partido não pode abrir mão de sua vocação transformadora, mesmo diante das adversidades: “A gente não pode permitir que as dificuldades que a gente sofre, os ataques, a correlação de forças desfavoráveis nos faça acomodar e perder essa vocação progressista e vanguardista que o PT sempre teve. O Zé Dirceu é quem faz esse debate e é um cara que se quisesse estar aposentado e curtindo a vida dele ninguém criticaria, mas diferente disso, você opta por fazer essa contribuição, de estar presente, de estar na vanguarda para lutar”.
Maria da Conceição Vieira, primeira presidenta mulher do PT de Campinas e figura histórica da construção do partido na região, emocionou-se ao tomar a palavra para homenagear José Dirceu. Conceição, que se tornou referência na luta política local e ajudou a estabelecer os padrões de militância petista em Campinas, fez questão de resgatar a memória das injustiças cometidas contra o ex-ministro e de destacar sua atuação concreta em defesa dos mais pobres.
“José Dirceu recebeu uma das campanhas negativas mais cruéis e de forma injusta que já vi. Foi muita energia nesse processo de construção punitiva. A geração precisa conhecer o que é militância engajada e a história deste homem. Então toda minha reverência, todo meu respeito, e toda minha gratidão. Zé, tem algumas coisas que o meu espírito para falar e compartilhar com todos vocês”, declarou Conceição, visivelmente emocionada.

A ex-presidenta do PT campineiro recordou ainda a passagem histórica do apoio de José Dirceu ao direito à habitação de mais de 70 favelas de Campinas, um episódio que marcou a luta por moradia na cidade e consolidou os laços entre as comunidades periféricas e o projeto político do PT. Para Conceição, esse exemplo concreto de atuação demonstra que a militância de Dirceu sempre esteve comprometida com as causas populares e com a transformação social efetiva.
O enfrentamento necessário no Parlamento
Luciano Zica, ex-deputado federal e hoje membro do Núcleo dos Petroleiros, contextualizou o encontro com os acontecimentos do dia no Congresso Nacional, onde a votação do projeto de anistia aos golpistas de 8 de janeiro evidenciou, segundo ele, a falência do Parlamento brasileiro.
“Nós estamos vivendo hoje, nesse dia especial, a demonstração da falência do Congresso Nacional. A votação da anistia, a antecipação da votação das emendas, absolutamente incondicional e descabida. Por isso eu agradeço a presença de todas e todos aqui e agradeço ao Zé Dirceu por estar fazendo esse debate fundamental que o país precisa”, declarou Zica.
O ex-deputado foi direto ao apontar o que espera da candidatura de José Dirceu: “Acho extremamente importante que tenhamos a capacidade de fazer uma disputa que você, eu tenho certeza, é o quadro mais qualificado para cumprir o papel no parlamento. Não quero ver o Zé de ministro, quero ver o Zé de deputado mais votado do Estado de São Paulo, para puxar mais gente e para poder construir lá naquele parlamento o enfrentamento que nós vamos fazer com esse centrão, com essa direita raivosa, com o atraso que hoje temos no Congresso”.
Trabalho de base e resgate histórico
Steve Austin, coordenador geral do Sindipetro Unificado, enfatizou a importância do trabalho de base que José Dirceu vem realizando pelo interior do país, percorrendo cidades e regiões para reorganizar o campo progressista. Para o sindicalista, essa militância territorializada é fundamental para reconquistar espaços que pareciam fechados.
“Esse trabalho é fundamental fazer, porque é um trabalho de rua, às vezes a gente estava apostando muito em rede social, mas se não tiver o fato da rua fica difícil”, afirmou Austin. O dirigente também agradeceu os que vieram antes: “Quero agradecer também a importância histórica desses militantes, que trouxeram uma legião de outros militantes. Se eu sou PT hoje, se eu sou militante de esquerda, teve gente assentando o tijolo lá embaixo”.

O coordenador do Sindipetro traçou um paralelo histórico, destacando a trajetória de José Dirceu como símbolo de resistência e reconstrução democrática: “A história de um militante que tiram do Brasil, expulsam do Brasil num golpe militar, que é uma expulsão violenta, e vem para reorganizar, cria um partido, com o qual estamos disputando desde 89 a eleição da presidência. Todo mundo que é um pouco militante e está nesse campo tem uma sementinha dessa luta lá da década de 70”.
Para Steve Austin, a presença de formuladores qualificados no Congresso Nacional é uma necessidade urgente do campo progressista: “A gente quer fazer isso, é trazer a semente do projeto nacional de novo, porque o que a gente está carente é de formuladores, inclusive do nosso campo. A gente precisa de gente no congresso que saiba fazer esse debate com o olhar da geopolítica. A gente precisa eleger o José Dirceu aqui, o Deyvid na Bahia, a gente precisa trazer gente que vai fazer esse debate frutífero”.
A análise de José Dirceu: parlamento como epicentro da crise
Recebido com palmas e o coro “Dirceu, guerreiro do povo brasileiro”, José Dirceu iniciou sua fala contextualizando o momento político que o país atravessa. O ex-ministro dedicou grande parte de sua análise à crise institucional materializada na votação do projeto de anistia aos golpistas e na composição do Congresso Nacional.

“Aprovar essa lei de anistia, só falta eles não caçarem a Zambelli e o Ramagem, e caçarem o Glauber, que não é impossível, e tirar o Glauber de lá à força. Esse é um dos principais problemas do Brasil: o parlamento. A força da extrema-direita e da direita no parlamento brasileiro. Porque a direita tem maioria sem o bolsonarismo e sem nós, sem a esquerda ou a centro-esquerda”, analisou.
José Dirceu traçou um histórico da repressão sofrida pelo campo progressista nos últimos anos, apontando as razões estruturais que fortalecem a direita no Brasil: “Nós somos reprimidos de 2013 a 2019. Nós chegamos a ser impedidos de sair às ruas com os nossos símbolos. Em segundo lugar, porque eles deram golpe de Estado, parlamentar e jurídico, mas foi um golpe de Estado. Em terceiro, porque eles instrumentalizaram a justiça para cassar o registro do PT e os mandatos dos parlamentares do PT”.
O ex-ministro relembrou o impacto do julgamento do mensalão na estrutura do PT e na desarticulação da esquerda no Parlamento: “No Mensalão, o PT perdeu o presidente José Dirceu, o secretário-geral Silvio Pereira e o tesoureiro Delúbio Soares. Perdemos o presidente da Câmara João Paulo, o líder do governo professor Luizinho e o líder do PT Paulo Rocha. Perdemos cinco ministros. Essa ascensão da extrema-direita é muito favorecida pelos anos de repressão que nós tivemos no país”.
O contexto internacional e a ascensão da extrema-direita
José Dirceu ampliou a análise para o cenário internacional, demonstrando que o fenômeno da extrema-direita não é exclusividade brasileira, mas parte de um movimento global articulado. O ex-ministro traçou paralelos históricos com o fascismo dos anos 1920 e 1930.
“O Trump está governando os Estados Unidos, o Milei na Argentina. Eles elegeram presidentes adeptos da extrema-direita no Equador. A disputa é mundial e a extrema-direita está articulada a nível mundial. Se nós lembrarmos da metade da Primeira Guerra de 1914 à Segunda Guerra de 1945, vamos ver que o fascismo surgiu e ascendeu nos anos 20 e 30”, alertou.
Para Dirceu, o capitalismo contemporâneo está em profunda crise e optou novamente pelo caminho da guerra como solução: “O capitalismo optou pela guerra de novo. O que está escrito na nossa Constituição? Que nós defendemos a autodeterminação dos povos, não intervenção nos assuntos externos, a paz, a solução dos conflitos internacionais pelas negociações. Toda vez que a classe trabalhadora começa a se construir um sujeito político, vem o golpe de Estado”.
Bolsonaro e o projeto de ditadura
O ex-ministro foi categórico ao afirmar que o governo Bolsonaro tinha como objetivo explícito a implantação de uma ditadura no Brasil, e que o golpe não começou em 8 de janeiro de 2023, mas foi um processo contínuo durante todo o mandato.
“Bolsonaro não deu um golpe dia 8 de janeiro. Ele governou para desconstruir as instituições e para implantar uma ditadura no Brasil. E a ditadura, é claro, é manter o sistema agrário e financeiro que domina o país, a dependência aos Estados Unidos, e impedir que o Brasil voe na chuva da OTAN”, declarou.
O potencial do Brasil e a consciência nacional
José Dirceu dedicou parte importante de sua fala a uma análise do potencial brasileiro, argumentando que a falta de desenvolvimento não decorre da ausência de recursos, mas da estrutura de concentração de renda e poder que impede o país de avançar.
“Nós não temos consciência que o Brasil é o quinto país em território do mundo. Nós temos 200 milhões de habitantes e somos uma das dez maiores economias do mundo. Quantos países do mundo têm mais de 200 milhões de habitantes, mais de 2 milhões de quilômetros quadrados e mais de 2 trilhões de PIB? De 10 a 14 países. E quantos têm as três coisas juntas? Só cinco”, destacou.
O ex-ministro citou declarações históricas da política externa norte-americana para demonstrar que o Brasil sempre foi visto como uma ameaça potencial aos interesses imperialistas: “Os Estados Unidos, na década de 80, quando perguntaram qual é a política dos Estados Unidos para a América Latina, disseram: não permitiremos outro Japão na América do Sul. Porque o Brasil é um país que tem condições em 10, 20 anos de virar um país desenvolvido. A pobreza e a miséria no Brasil não é por causa da falta de riqueza, é por causa da extrema concentração de renda”.
Concentração de renda como entrave ao desenvolvimento
José Dirceu apresentou dados contundentes sobre a desigualdade brasileira, apontando-a como o principal obstáculo ao crescimento sustentável do país: “63% da riqueza está na mão de 1% da população e 23% da renda está na mão de 1%. A concentração de renda impede que o país cresça, é o principal fator que impede que o Brasil cresça. Porque toda vez que nós distribuímos renda, o país cresce. E eles atacaram exatamente as alavancas para o crescimento: os bancos públicos e as empresas estatais.”

O caso da Petrobrás foi utilizado como exemplo paradigmático da entrega do patrimônio público aos interesses privados: “A Petrobrás pagou 250 bilhões de dividendos. Os países petroleiros que se transformaram em países desenvolvidos não pagaram dividendos, eles reinvestiram na infraestrutura e no desenvolvimento tecnológico do país. A Petrobrás não funciona mais como uma empresa pública estatal num projeto governamental. Ela está presa pelos fundos de investimento americanos”.
A urgência da mudança e a revolução pelo voto
Dirceu foi enfático ao defender que o Brasil vive um momento de urgência histórica e que a mudança necessária deve vir pelas urnas, através de uma alteração radical na composição do Congresso Nacional.
“Nós vivemos uma situação em que o tempo que nós temos é muito curto para o Brasil resolver seus problemas. Precisa fazer uma revolução no Brasil. Essa revolução tem que ser pelo voto. Se nós não mudarmos a relação de força do parlamento, nós não podemos aprofundar as reformas estruturais. Portanto, não podemos criar as condições para o Brasil crescer”, afirmou.
O ex-ministro detalhou os problemas estruturais da economia brasileira, destacando o papel dos juros altos na manutenção da desigualdade: “O problema do déficit público no Brasil não é de gasto pessoal, nem de custeio. O problema do déficit público no Brasil é a dívida pública, são os juros. Se você decompor a dívida pública dos últimos 30 anos, 80% é juros e 20% é déficit público. Como é que você paga 10% de juros se o mundo todo paga 1,5% e 2,5%?”.
Mudança no estado de espírito do país
Para José Dirceu, houve uma mudança significativa na consciência popular brasileira nos últimos meses, especialmente em relação à tributação e às condições de trabalho, o que abre janelas de oportunidade para o campo progressista.
“Quando a maioria dos brasileiros e brasileiras dizem que o principal problema do Brasil é que os ricos não pagam imposto, é uma derrota política histórica para a elite. Eles esconderam isso do país sempre. Que eles detêm a riqueza do país e não pagam imposto. E quando a juventude começa a apoiar uma mudança na escala de trabalho, é uma tomada de consciência fundamental”, analisou.
José Dirceu concluiu sua fala convocando o campo progressista a assumir a responsabilidade histórica de liderar a mudança que o país necessita, destacando a confiança que o povo depositou repetidamente no PT.
“O povo brasileiro, a classe trabalhadora, nos deu cinco vezes a presidência da República. Isso é raro no mundo todo. Com tudo que aconteceu, deram de novo em 2022 e provavelmente nos darão de novo. Mas se nós não mudarmos a condição do Congresso, nós ficamos prisioneiros dessa situação parlamentar e não entregamos o que nos comprometemos com nosso eleitor”, declarou.
O encerramento foi um chamado à ação concreta, aproveitando o momento de degradação institucional do Parlamento para mobilizar a sociedade em torno de uma mudança radical: “Nós temos que aproveitar essa degradação do parlamento brasileiro para ganhar a maioria do país e votar uma mudança radical. Eleger o Lula e fazer uma mudança radical na Câmara e no Senado. O Brasil precisa de uma revolução política, de uma reforma política, porque não pode continuar esse sistema político. Tem que ter fidelidade partidária, voto em lista ou distrital, e proporcionalidade por Estado”.
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