Memórias: “Eu fiz de tudo, mas o meu auge foi na Petrobrás”, reconhece Zica

Nesta entrevista, além da carreira política como deputado federal, vereador e secretário nacional de Recursos Hídricos, Luciano Zica rememora um lado menos conhecido da sua vida – no qual trabalhou até mesmo em cemitérios

Memórias
Luciano Zica é um dos petroleiros mais destacados na política nacional

Por Guilherme Weimann

A madrugada do dia 7 de janeiro de 1951 foi marcada por um intenso foguetório no distrito de Biquinhas, pertencente até então ao município de Morada Nova de Minas, no estado de Minas Gerais. O resultado da eleição ocorrida no ano anterior demorou a chegar na cidade, que na época não dispunha de energia elétrica, e coincidiu com o nascimento do pequeno Eustáquio Luciano Zica. Não se deitam foguetes antes da hora, já dizia o dito popular.

Mal sabiam os entusiasmados conterrâneos que essa mesma cena se repetiria algumas vezes na vida do recém-nascido: resultados de eleições acompanhados de intensas comemorações. Mas o caminho foi longo até chegar ao plenário da Câmara dos Deputados, em Brasília. 

Zica ajudou o seu pai, pedreiro, a construir os túmulos do cemitério da comunidade: “Eu e meu irmão cavávamos as sepulturas, cavei muita sepultura”, recorda. E sua carreira foi tão longa como diversificada: professor, bancário e, finalmente, petroleiro. Ingressou por meio de concurso público na Petrobrás no dia 6 de setembro de 1971, pouco tempo antes da inauguração da Refinaria de Paulínia (Replan), a maior do país e onde construiria sua base – afetiva e política.

Confira abaixo o depoimento de Luciano Zica:

Nascimento

Eu sou Eustáquio Luciano Zica, nasci dia 7 de janeiro de 1951, às 5 horas da manhã. Nasci com um foguetório bem em cima de casa, em função do resultado de uma eleição que saiu justo na hora em que eu estava nascendo. Teve uma baita festa na cidade. Então nasci festejando.

Meu pai era pedreiro e minha mãe dona de casa, muito simples, teve nove filhos, eu sou o terceiro. Meu pai, além de ser o parteiro de oito dos nove filhos, era quem fazia o registro. Quando eu nasci, ele foi me registrar e no caminho do cartório recebeu a notícia de que tinha morrido um padre que tinha fama de fazer milagres, chamado Padre Eustáquio. Tem até um bairro em Belo Horizonte com o nome dele. Meu nome era para ser Luciano Amaral Zica, Luciano porque era o santo do dia. Mas como ele quis homenagear o Padre Eustáquio, tirou o Amaral e colocou Eustáquio Luciano Zica.

Infância

Nós tínhamos uma casinha dentro do sítio do meu avô materno. Tive uma infância muito legal. Meu avô tinha pomar no quintal, eu me lembro muito bem que eram casas sem forro, telhado direto, por isso chovia dentro da casa às vezes. Eu me lembro de alguns episódios marcantes da minha primeira infância. 

Entre a casinha que a gente morava e a sede do sítio do meu avô, tinha uma gruta enorme que a gente atravessava por meio de uma pinguela. Era sempre uma aventura, pra criança era maravilhoso. 

Meu avô plantava milho, arroz, feijão… Eu levava comida na roça para os trabalhadores, à cavalo, duas panelas de comida, uma de cada lado, os pratos em cima. Aquilo para mim era uma aventura deliciosa. 

Meu avô também tinha um vasto pomar no quintal, que só podia colher e chupar a laranja depois do dia 24 de junho, que era o dia de São João, que em tese era quando ela estaria no ponto de consumo. Mas a gente chupava mexerica escondido e chegava dentro de casa com aquele cheiro da mexerica indisfarçável. 

Eu vivi nessa cidadezinha, Biquinhas, até os seis, sete anos. Era uma cidade de povo muito pobre.

Atingido por barragem

A gente se mudou de lá para Paineiras, cidade a 18 quilômetros de distância, onde fui pra escola. Paineiras é uma cidade muito maior. Biquinhas, na época, tinha uns 4, 5 mil habitantes, Paineiras tinha uns 7, 8 mil. Atualmente, as duas encolheram: Biquinhas está com cerca de 2400 habitantes, e Paineiras tem entre 4500 e 5000. Muita gente saiu dessa região para procurar oportunidades, como eu. 

Em Paineiras, comecei a estudar no Grupo Escolar Celestino Nunes, uma escola pública, do Estado. Entrei na primeira série do ciclo básico. Tinha como professora a Dona Alda Soares Branco, foi quem me alfabetizou.

Foi lá que eu comecei a entender a geopolítica e o porquê da pobreza local. Nessa época começou a construção da primeira hidrelétrica do Rio São Francisco, a represa Três Marias

Ela atingiu a nossa região, que ficou ilhada. Eu achava na minha santa ignorância dos sete anos de idade, que o fim do mundo era ali, que depois do Rio São Francisco não existia mais nada. Eu enxergava o lago da represa, mal via o outro lado, e achava que ali era o fim do mundo.

A eletricidade gerada por aquela hidrelétrica eu só fui ver com 16 anos de idade, morando do lado de uma geradora de energia. 

Então esse é o problema que precisa ser considerado no momento em que você faz um empreendimento de geração de energia, ou qualquer coisa de infraestrutura: a inclusão dos afetados. Por isso eu entendo muito a luta de um movimento social fantástico, que eu tive oportunidade de conviver depois como sindicalista e como deputado, que é o MAB [Movimento dos Atingidos por Barragens].

Nós tínhamos ali uma população significativa de pessoas atingidas pela barragem e que não tinha os benefícios gerados por ela. Até a pesca, que era uma coisa muito legal nos rios, mudou de perfil com a chegada da barragem. 

Me lembro que no final de semana, eu e meu irmão saíamos para pescar com uma varinha e voltava com cinco quilos de peixe no embornal pescado ali em um córrego que passava do ladinho da nossa cidade. Peixes maravilhosos, pescando sem a menor estrutura. Isso acabou com o advento da barragem. 

Mudou todo o perfil da cidade sem que os antigos, os tradicionais da cidade, se beneficiassem daquilo. 

Trabalho e estudo

Eu terminei com 11 anos o curso primário, quarta série, fiquei sem estudar um ano e comecei a trabalhar com meu pai na construção civil. 

Eu e meu irmão trabalhávamos, participamos da construção da maior parte das casas de Paineiras e também é uma curiosidade que eu não tenho vergonha de lembrar que até contribuiu para minha formação, que era a parte fúnebre da coisa: meu pai fazia os túmulos para sepultar os mortos. 

E eu e meu irmão cavávamos as sepulturas, cavei muita sepultura. A gente arrancava esqueleto, porque tinha muita gente enterrada sem as gavetas, então você ia cavar uma sepultura, não tinha nada marcado, você cavava, de repente achava um esqueleto, para mim era um drama aquilo, um menino de 11, 12 anos, passava noites sem dormir imaginando aquelas imagens. 

Literatura e teatro

Li muita coisa do Machado de Assis. E li outros livros sofisticados também, tipo Lobo da Estepe, que é um livro de um autor alemão, clássico da literatura. Li Oscar Wilde. Meu pai, embora pedreiro, era um autodidata, nunca frequentou escola como aluno e era um intelectual brilhante. Escrevia muito, lia muito. Lia um livro por semana. Ele comprava edições de ouro, livros de bolso, comprava por correio, lia muito, com luz de lamparina, porque não tinha eletricidade. 

Desse ponto de vista, a formação escolar era muito boa, em todas as áreas, e a cultura do teatro e da leitura estimularam a participação coletiva da turma. Nós ousamos tanto que, liderados pelo meu irmão, construímos a Casa do Estudante em um terreno da prefeitura. Nós construímos uma biblioteca, um salão com palco de madeira, onde fazíamos apresentações, e também um palco que era móvel, que era desmontável e podia viajar conosco para a cidade vizinha para as apresentações das peças.

Quando a gente se formou, saímos da cidade para procurar emprego e estudar. Meu irmão já estava morando fora da cidade nessa época. Foi quando entrou um prefeito, que precisou arrumar um prédio para instalar uma delegacia de polícia. Imagina o que aconteceu? Desmontou a nossa biblioteca, nosso teatro e instalou lá a delegacia de polícia. Nas primeiras férias que voltamos à cidade, organizamos uma manifestação e pichamos a delegacia inteira. Eu nunca esqueço a frase que eu escrevi com a minha letra horrorosa: ‘A última gota de suor do estudante paineirense foi queimada pelo diretor ditador’. 

Só que na verdade foi uma injustiça muito grande a que eu cometi. Até hoje me relaciono com ele, mando livros para ele, adora ler, e eu não pedi desculpas. Porque a culpa não era dele, do diretor, era do prefeito. 

Quando voltei pra cidade, a escola estava com falta de dois professores, um de matemática e um de inglês. Eu tinha feito um curso de inglês lá em Belo Horizonte, precário pra caramba, só ‘the book is on the table’, e ele me chamou: ‘Eustáquio, eu queria conversar com você, apesar daquela manifestação que vocês fizeram, eu queria te pedir para assumir a vaga de professor de matemática e inglês aqui no ginásio neste ano’. Eu dei aulas por um ano, tinha 17 nessa época, e a maioria dos meus alunos eram mais velhos do que eu. 

Depois disso, eu acabei indo tentar a vida em Belo Horizonte.

Mudanças

Fiquei na casa de um amigo, o Severino, que era da Polícia Militar, um cara muito gente boa. Morei um tempo na casa dele, consegui emprego como cobrador de uma empresa que vendia livros, cobrava de casa em casa. Era muito difícil aquele trabalho, não ganhava nada, tomava uma refeição por dia andando a pé. Trabalhei lá até um dia que um mecânico tentou desatarraxar o meu umbigo porque ele já tinha pago a conta, a fatura que eu cheguei para cobrar, aí devolvi tudo e larguei o emprego. 

Aí conversando com um amigo de São Paulo sobre a dificuldade de estudar e trabalhar, ele me disse: ‘Eu acho que você deveria tentar em São Paulo, você é um cara inteligente, que tem uma boa base, você vai se dar bem em São Paulo”. 

Peguei minha malinha e vim com ele de ônibus para São Paulo, descemos na estação do Bom Retiro, ali perto da estação da Luz, e fomos para a casa dele na Vila Mariana. Me trataram super bem lá, mas eu tinha que ir até a casa da minha tia. Minha tia sabia de mim, mandava presente, aquelas coisas, mas não sabia que eu chegaria a sua casa parar morar. 

Entrei no trem e pensei: ‘Negócio aqui é muito estranho, como é que eu vou dar sinal para descer?’. E fiquei observando o pessoal. Quando eu vi a estação de São Caetano, desci com a minha malinha e cheguei na casa da minha tia já no comecinho da noite. Ela me recebeu super bem, me deu apoio, a tia Balbina, que era uma mulher à frente do seu tempo, extraordinária, cabeça maravilhosa. E me instalei na casa dela, em 1970. 

Tomada de consciência política

Em terras paulistas, trabalhei em um escritório de contabilidade, ali no Sacomã, na rua Gentil de Moura, em São Paulo. Trabalhava de manhã no Sacomã, em São Paulo, e à tarde em um banco que já não existe, em São Caetano, lá na rua Marechal Deodoro, número 589, perto da prefeitura de São Bernardo. Trabalhei no banco do final do ano de 1970 até agosto de 1971, quando eu pedi demissão para ir para a refinaria. 

Tem dois episódios importantes dessa época. O primeiro era que eu tinha um primo, que eu morei na casa dele em Belo Horizonte, que era estudante de Economia da UFMG, em 68, no auge dos movimentos contra a ditadura. Ele era uma liderança estudantil, acabou entrando em uma organização de esquerda, e continuou sua militância ali na região do ABC paulista.

Naquela época, não tinha ideia de política, das lutas políticas que se travavam no país. E ele me convidou para almoçar um dia ali na rua Gentil de Moura, perto do local em que eu trabalhava. Na hora do almoço, nós almoçamos e ele queria que eu fosse trabalhar na IAP junto com ele para ser cooptado para o movimento no qual ele era uma das lideranças.

Conversamos bastante, até que ele saiu para a sua rotina e eu fui para o trabalho no banco. Quando eu cheguei em casa, às 7 da noite, na minha tia, havia um tumulto violento. Estava o exército lá dentro, ele tinha sido preso e a referência era a casa da minha tia. 

Então eles invadiram a casa e a reviraram do avesso. Minha mala estava despejada e eles ficaram meses observando a casa enquanto meu primo estava preso. Eu fui visitá-lo algumas vezes. Ele foi torturado barbaramente, ficou dois anos na cadeia. Antônio Luís Bernardes, o nome dele. Foi ali que eu comecei a tomar consciência do que estava rolando no Brasil. 

E aí, a outra curiosidade, é que meu primo, depois de ser libertado, tornou-se secretário adjunto de finanças do governo Itamar Franco, lá em Minas, e é um cara com uma elaboração intelectual muito intensa, muito forte, uma liderança importante que eu gosto muito. 

Petrobrás

Em um domingo, um amigo de infância que trabalhava na Brastemp em São Bernardo foi almoçar comigo e com a minha tia. Nesse dia, depois do almoço, eu comecei a ler o jornal e vi o anúncio do concurso na Refinaria de Paulínia. O meu amigo, Benedito Lourenço, me falou: ‘Luciano, sinto muito, mas você não tem condição de passar nesse concurso, eu conheço um monte com mais formação do que você, que tentou e não conseguiu’. 

Aí eu fiz uma aposta com ele de brincadeira e fui fazer o concurso. Vim aqui em Campinas, peguei o trem na Estação da Luz, desci na Estação Central, e vim aqui perto da antiga rodoviária no escritório que fazia inscrição para o concurso. Fiz a inscrição e peguei a bibliografia do que precisava estudar. Abri mão do emprego que tinha no Sacomã, e comecei a ir de manhã para a Biblioteca Municipal de São Caetano estudar. Vim e passei super bem. Fui um dos primeiros colocados naquele concurso.

Luciano Zica
Luciano Zica, ao fundo de barba e camisa azul, junto com companheiros de trabalho na Replan

Eu era estrábico, meu olho esquerdo era totalmente zarolho mesmo. E eu usava óculos muito precários, então vim fazer o exame médico aqui na refinaria, peguei um ônibus, desci ali na estrada. Naquela época tinha três quilômetros a pé de estrada de terra para chegar no posto médico, porque a refinaria não estava pronta ainda. Quem fazia o exame era um enfermeiro, o Onofre! Ele fez o meu exame: ‘Olha, você não tem condição de trabalhar aqui. Você tem 10% de visão no olho esquerdo’.

Eu achei aquilo um absurdo e fui falar com o médico, que era o doutor Eudes Pacheco. Ele falou: ‘É o seguinte, hoje eu não poderia te aprovar, mas como você está persistindo, eu vou te dar uma carta, você vai fazer uma consulta com uma médica em Campinas e ela vai dizer se você tem condição ou não’. Então eu fui me consultar com a doutora Marta Holanda Lovar de Freitas, e ela falou: ‘De fato, não dá. Você não tem condições hoje, mas eu vou fazer o seguinte, vou atestar que você tem todas as condições e a gente já marca uma cirurgia para operar seu olho. Como você vai ter um período de treinamento, até começar seu trabalho efetivamente na refinaria seu olho já vai estar bom’. Fizemos isso e eu fui admitido. 

Refinaria de Paulínia

Entrei na refinaria no dia 8 de setembro de 1971, muito tempo antes da sua partida, da sua inauguração, que foi no dia 12 de maio do ano seguinte. Por oito meses a gente ficou estudando, fazendo curso dentro da refinaria, treinamento.

Eu fui morar ao lado do Mercado Municipal de Campinas, em uma pensão. O primeiro evento social que eu tive em Campinas foi o desfile de 7 de setembro, na avenida Glicério, no dia seguinte à minha chegada na cidade. No dia 8, que era uma segunda-feira, foi meu primeiro dia na refinaria. A gente passou por um período de treinamento integral, das 7h30 às 17h, com professores da UNICAMP, PUCC, e com engenheiros e profissionais da Petrobrás. 

Depois desse período de estudo e estágio, fomos para a partida da refinaria, no dia 12 de maio de 1972. Foi um dia de emoção muito grande, para todo mundo. Eu me lembro desse momento e da experiência de ver o petróleo se transformar em vários produtos… E a gente participando daquilo, foi fantástico! 

A refinaria tem uma participação enorme na minha formação como ser humano, essencialmente por causa do convívio coletivo que a gente tinha dentro do trabalho.

Despertar político

Na refinaria, era proibido ler jornal, mas todo mundo lia jornal, jogava xadrez, existia uma convivência extraordinária de troca de ideias no trabalho. Tinha as bobeiras, besteiradas, naturais de grupos, mas naquela época tinha muita curiosidade política também. 

Eu estive junto com o presidente Ernesto Geisel quando ele veio inaugurar um tubo gerador de energia na casa de força da refinaria, então a gente vivia ali um conflito naquele momento. Eu tinha parentes envolvidos na luta contra ditadura e, de outro lado, convivia com o governo militar que comandava a Petrobrás. 

Eu tinha um trauma da luta política partidária, achava que nunca me envolveria com partido. Na época que a gente vivia lá no interior de Minas, meu pai se envolvia muito com política e minha mãe tinha que se virar com a produção na horta para dar comida para um monte de filho. Por isso, eu tinha uma certa bronca dos partidos políticos e achava que nunca me meteria com isso.

Mas eu fui me envolvendo com as lutas que foram surgindo nos anos 70, como o movimento pela Lei da Anistia, dentro de um ensaio de abertura política e luta intensa contra a ditadura.

Sindicato

A origem do sindicato está relacionada à chegada do Jacó [Bittar], que trouxe de Cubatão uma experiência política e sindical. 

Nessa época, eu não tinha muita noção da diversidade de tendências e correntes políticas. Fundamos o sindicato, eu como militante de base. Acompanhava sempre as discussões, mas sem me envolver com a diretoria efetivamente nas primeiras gestões. 

Começamos então a fazer vigílias, protestos dentro da refinaria, e isso envolveu a todos, até que em 79 eu entrei para a diretoria do sindicato, sempre como diretor de base, nunca fui diretor liberado. Nunca fui uma liderança importante do sindicato. Mas eu tive dentro da categoria a minha formação política básica.

Começamos a fazer corte de turno, corte de rendição, segurar o pessoal lá dentro. Aí veio a política do governo Figueiredo de se submeter à orientação do FMI [Fundo Monetário Internacional], que mandava privatizar, enxugar a Petrobrás com vistas à privatização. Foi aí que começamos a preparar uma luta mais forte, por volta de 1982.

Só que eu fui convidado para me transferir para a refinaria de São José dos Campos, era uma boa oportunidade na carreira e eu assumi a transferência, fui a São José dos Campos escolher casa com a minha esposa, que era professora. E, por isso, não entrei para a diretoria do sindicato na renovação daquele ano. 

Só que eu desisti de ir para São José dos Campos, não era o que eu queria, e acabei participando efetivamente de tudo o que envolveu a luta sindical. Aí veio a greve de 83 contra essa política que o FMI impunha na época.

Greve de 1983

Comecei a participar como se fosse um diretor, apesar de não estar na chapa formalmente. Não avançaram as negociações e a gente acabou indo para a greve no dia 6 de julho, meu grupo era três. Eu estava no grupo três, na área de Cru que mandava o petróleo para as unidades e coube a mim desligar as bombas, parar a refinaria na greve de 83. A gente entrou no trabalho dia 5, às 16h, e a refinaria parou às 16h e pouco no dia 6. 

Nosso grupo que parou na refinaria. Foi aí que a direção da refinaria provocou uma queda de energia para parecer que a parada era por acidente. Mas a gente interligou as bombas e manteve a refinaria em pé. Aí tiveram que dar a ordem de parada e esvaziaram a refinaria. Saiu todo mundo, depois de 30 e tantas horas na refinaria, para o Centro de Convivência, onde estava concentrado o pessoal da greve. 

Luciano
Zica se tornou uma das referências políticas após a cassação da diretoria do Sindipetro em decorrência da greve de 1983

Foi uma experiência muito importante, para minha vida e para a minha formação. Nessa época, o PT já havia sido fundado, estava-se discutindo a fundação da CUT, e eu participei de tudo isso como base, nunca como liderança destacada. Mas em decorrência da minha participação, na época em que cassaram a diretoria de 83, eu assumi a coordenação do comando alternativo da greve. Eu que fiz a última negociação, no final da greve. Eu estava dentro da imunidade sindical, não podia ser demitido sem justa causa, então eles me afastaram para apuração.

Demitiram 153 pessoas da refinaria e quem estava com imunidade sindical foi afastado para apuração. No final da imunidade, fui demitido. A minha demissão saiu em outubro de 1984, após o período de imunidade.

Luta e organização

A gente organizou um esquema com a base, que contribuía financeiramente. Eu, felizmente, tinha construído uma alternativa e não dependia de ajuda, mas a gente criou um mecanismo para ajudar a sustentar as famílias com apoio social e econômico.

Nesse contexto, eu já tinha sido, em nome da categoria, indicado para ser da direção do PT de Campinas. Foi a partir daí que comecei a exercer um papel no executivo municipal do partido. Paralelamente, a gente tinha uma coordenação do sindicato que começou a articular a reintegração do nosso povo demitido. 

Quando a gente foi punido e demitido, a nossa fotografia saiu no jornal com identificação, como se a gente fosse bandido, terrorista e o escambau. E você ia procurar emprego, não tinha emprego. Ninguém conseguia emprego. A Petrobrás que a gente defendia como monopólio estatal do petróleo tinha o monopólio do nosso emprego.

Por isso, foi muito importante a solidariedade da categoria e do povo de Campinas em geral. Tivemos muito apoio de artistas e intelectuais para manter esse grupo unido. Da nossa parte, a gente organizou um movimento para tentar construir uma saída política para o retorno dos demitidos. E eu fiz parte do grupo executivo deste trabalho. O Spis e eu éramos os principais articuladores disso, da busca da reintegração dos demitidos.

Dentro dessa luta, ocorreu um show no ginásio do Taquaral de solidariedade aos demitidos e punidos da greve. O mundo caía no dia, uma chuva brutal. Mas nós fizemos mesmo assim um show com Gonzaguinha, Língua de Trapo, Jorge Mello, Jards Macalé, um monte de grupo grande de artistas. Eu tive a honra de apresentar o evento, que foi nomeado por nós como show “VemSer, petroleiros cantam a sua luta”.

Articulações

Depois disso, começamos a organizar a luta em Brasília. Em uma das assembleias dos demitidos, decidimos que iríamos conversar com os dois candidatos à Presidência da República pelo colégio eleitoral. Os dois candidatos eram: Tancredo Neves e Paulo Maluf. A gente sabia que o Maluf não tinha chance de ganhar, mas falamos que íamos conversar com os dois.

Aí eu coloquei no PT que a gente ia conversar com ambos, mas a executiva foi contra: ‘De jeito nenhum! Imagina! Colégio Eleitoral?’. Enfim, nós fomos conversar. 

O líder da bancada do PT na época era o deputado Airton Soares, que hoje é comentarista na TV Cultura. O Jacó era uma liderança importante no aspecto nacional e até internacional, e tinha relações com o Paulo Lustosa, que era um deputado lá do Ceará na época, e era o Ministro da Desburocratização no que virou o governo Tancredo depois. 

Mas aí a gente marcou uma audiência com o Tancredo Neves no dia 17 de outubro de 1984. Fomos: Moreira, Salvador, Santin, Spis e eu conversar com o Tancredo. Chegamos lá no escritório do Tancredo no horário marcado, às 16 horas. Estávamos os petroleiros e o Luiz Carlos Bresser-Pereira esperando, mas o Tancredo fez questão de receber primeiro o nosso grupo.

Entramos para conversar com o Tancredo em uma sala grande. Ele contou a sua história, era ótimo de conversa, contou quando foi governador de Minas Gerais: ‘Não, eu tive uma situação parecida com a de vocês quando eu fui governador de Minas, tinha um grupo de professores demitidos por causa de uma greve e eu criei um grupo de trabalho para analisar a situação e reintegrá-los depois’. 

Fizemos a reunião de uma hora e ele chamou a entrevista coletiva com a gente. E estava sentado o Tancredo, eu de um lado, o Spis do outro. Na entrevista, ele afirmou: ‘Assim que eu tomar posse, a gente vai criar um grupo de trabalho para analisar a situação dos petroleiros demitidos’. Tá bom, aí terminou a coletiva, chega uma repórter do Estado de Minas: ‘Senhor Eustáquio, o que o Doutor Tancredo prometeu para vocês?’. Eu respondi: ‘Ele garantiu que assim que tomar posse reintegra todos os demitidos’. E aí saiu a matéria no Estado de Minas com a nossa foto. ‘Tancredo garante reintegração para petroleiros demitidos na greve’. 

O Tancredo acabou morrendo antes de tomar posse e quem assumiu foi o José Sarney. Mas mesmo assim marcamos uma audiência com o Aureliano Chaves, que era o ministro de Minas e Energia, e levamos a matéria do Estado de Minas. O Aureliano falou: ‘um compromisso do Doutor Tancredo é uma ordem’. Aí já ligou para o Hélio Beltrão, que era o presidente da Petrobrás, para organizar o retorno.

Até junho, cerca de 80% dos demitidos já tinham voltado. Mas alguns a direção da empresa só permitia que retornassem à Petrobrás se fossem transferidos a outras bases. Mas um grupo, eu incluído, não aceitou a transferência. O Spis aceitou, foi para São Paulo. E o Spis foi fundamental para a criação de consciência política em São Paulo. Mas nós ficamos aqui [em Campinas], demitidos.

Só na Constituinte de 88 que a gente conseguiu inserir um parágrafo no artigo oitavo das disposições transitórias, o parágrafo quinto, que estabeleceu a anistia para os trabalhadores punidos pela ditadura em função de participação e envolvimento grevistas. A partir disso, a gente foi na Petrobrás e falou: “Agora a gente tem o direito de voltar”. Mas a Petrobrás se negou a reintegrar os demitidos e, por isso, a gente foi à Justiça. Foi então que a gente conquistou o retorno, mas sem a Petros. 

Política partidária

Em 86 eu fui candidato a deputado estadual sem ter coragem de falar em público. Foi uma campanha maluca, na qual eu tive quase 10 mil votos, mas obviamente não fui eleito. 

Quando veio 88, o Jacó saiu candidato a prefeito e se formou uma onda a partir do episódio de Volta Redonda, dos três trabalhadores assassinados, que deu uma virada na política. O PT elegeu a Luiza Erundina em São Paulo, o Jacó Bittar em Campinas, além de conquistas Diadema, Santos, enfim… E nessa onda eu fui eleito vereador.

Esse momento foi o ápice da minha formação, que se iniciou nas lutas petroleiras, com amplo apoio social. Nossa categoria era uma referência. Depois disso, eu fui reeleito vereador em 92. E acabei, em 94, sendo eleito deputado federal. Fui eleito como petroleiro, essencialmente, eleito com forte apoio da base petroleira, com participação e contribuição financeira. O pessoal depositava o dinheirinho na conta para pagar a campanha.

Na verdade, desde a campanha para vereador, até depois quando fui eleito deputado, contei com a experiência acumulada das lutas petroleiras. Mas, apesar do apoio, o desafio e as tarefas a mim delegadas eram muito difíceis naquele momento.

Atuação no Congresso Nacional

Era o governo do Fernando Henrique Cardoso (FHC) se preparando para desmontar o Estado. O que havia era o projeto neoliberal chegando ao extremo da execução. Era a preparação da privatização da Petrobrás, quebra do monopólio, venda da Vale do Rio Doce, entrada de capital estrangeiro. Nessa época, eles privatizaram a refinaria de Canoas, no Rio Grande do Sul, que o Lula reestatizou depois. Então foi uma tarefa muito importante pra mim.

Eu era conhecido no Congresso Nacional como o deputado petroleiro, na verdade até hoje sou chamado assim. Tinha mais um petroleiro que era o Luiz Alberto, da Bahia, mas que era mais identificado com o Movimento Negro. Havia também o Miguel Rossetto e o Jacques Wagner, que eram petroquímicos, mas eu era o mais identificado com a categoria petroleira.

As emendas constitucionais do FHC, que desmontavam o Estado Nacional, foram aprovadas com folga. Eram 513 deputados, e elas passavam com mais de 450 votos. A que passou com mais folga foi justamente a da quebra do monopólio estatal do petróleo. 

E isso resultou numa projeção grande da minha atuação parlamentar, porque eu era o único petroleiro, fazendo um bom combate lá dentro. Teve uma matéria de capa do Jornal do Brasil que opunha a minha posição pró estatização do setor do petróleo, contra a do Roberto Campos, avô do ex-presidente do Banco Central do Brasil, que era privatizar tudo. Ele me chamava de Petrossauro e eu o chamava de Entregossauro. 

Greve de 95

Aí veio a greve de 95, que foi por conta de um acordo que tinha sido assinado no governo de Itamar Franco, que o Spis assinou junto com o Itamar em Juiz de Fora. Mas o FHC não cumpriu e em decorrência disso veio a mobilização e a greve de setembro de 95. 

Já havia ocorrido em Minas uma greve no ano de 94 com muitas demissões. Mas a greve de 95 tomou uma proporção nacional, durou 31 dias e teve participação do país inteiro. E, evidentemente, o meu gabinete se tornou um dos centros da greve, onde as informações fluíam. 

Fazíamos articulações permanentes para tentar garantir a não punição dos demitidos, garantir negociação, discutíamos com outras lideranças sindicais. Naquele momento, o Spis era a principal liderança do movimento grevista, então tínhamos uma interlocução permanente.

Mas a mídia jogou muito duro, veio a intervenção nos sindicatos, as multas e demissões em larga escala. Demissões e punições em larga escala. Então, quando terminou a greve foi muito sofrido, me desgastei pra caramba. A gente começou a buscar formas de resolver a questão das punições aos sindicatos e aos trabalhadores.

Projeto de anistia

Foi aí que tive uma feliz ideia de elaborar dois projetos de lei, um anistiando as entidades sindicais das multas, que quebrariam os sindicatos se fossem mantidas, e outra anistiando os punidos na greve, seja os que tiveram férias perdidas, desconto de salário, ou demissão, à recuperação dos direitos. Protocolei o projeto na Câmara e o Zé Eduardo Dutra, que depois virou presidente da Petrobrás no governo Lula, apresentou o mesmo texto no Senado.

Consegui aprovar os dois projetos na Câmara, o da anistia às multas dos sindicatos e dos trabalhadores. Foi para o Senado, aprovou também. Só que o FHC vetou o dos trabalhadores punidos. 

Memórias
Luciano Zica e outros deputados comemoram vitória no Congresso

Aí o Luiz Eduardo Magalhães, era o presidente da Câmara na época, falou: ‘Olha, Zica, é o seguinte: vamos sancionar a anistia das multas, porque não nos interessa desmontar o interlocutor, então nós vamos sancionar. Mas o dos demitidos nós vamos é demitir mais gente, então não tem jeito’.

Mas eu reapresentei o projeto e continuamos a batalha. Os sindicatos foram retomados, com a situação financeira resolvida, sem as multas, mas aí foi que começaram as divergências.

Divergências internas

Eu nunca fui muito ligado nas tendências internas, me filiei ao PT como peão de base, me constituí, me legitimei como liderança local por conta da legitimidade que a categoria petroleira tinha e a minha coerência na atuação. Mas nessa época teve o I Congresso do PT lá no Vera Cruz, em São Bernardo do Campo. 

E foi nesse Congresso que o campo majoritário resolveu expulsar o pessoal da esquerda do PT, a Convergência Socialista. E um grupo do PT se posicionou contra aquela decisão e assinou o manifesto Hora da Verdade. Eu acho que foi um erro brutal a expulsão desse segmento mais à esquerda do partido, não tinha sentido o PT, como uma frente de esquerda, eliminar a esquerda. Então nós ficamos contra. Eu assinei, o Rui Falcão assinou, o Walter Pomar, o Arlindo Chinaglia, o Cândido Vaccarezza, que não tem nada a ver com a esquerda, um monte de gente assinou o manifesto Hora da Verdade.

Mas eu nem discuti aquilo no Núcleo dos Petroleiros de Campinas, nem discutia essas coisas. Em 94, quando eu fui candidato, eu já era signatário do manifesto Hora da Verdade, que virou a Articulação de Esquerda.

Quando eu fui eleito deputado em 94, como é que fui eleito? Eu fui eleito por duas razões específicas, especiais. O prestígio da categoria petroleira, juntamente com o apoio da base que financiou nossa campanha. E graças também a minha atuação na Câmara Municipal de Campinas.

Mas, quando eu fui eleito, todo mundo já tinha assinado o manifesto da Articulação de Esquerda. Aí veio o mandato, e só para montar a estrutura do mandato já houve uma baita disputa aqui no Núcleo dos Petroleiros.

A minha atuação parlamentar era irreparável, modéstia à parte. Não existe nenhuma crítica à minha atuação parlamentar em termos de coerência, tanto é que até hoje eu sou respeitado pelo Lula, por todo mundo. O Lula vem aqui, em Campinas, e me chama pra conversar até hoje. 

Mas na categoria houve um crescimento dessa luta interna das correntes do PT. Eu era um signatário da Articulação de Esquerda, da Hora da Verdade, mas não era uma liderança importante. Era um cara que tinha mandato e era uma figura importante para a corrente. Mas eu nunca levei em conta, para minha relação política de trabalho, a posição ideológica dentro do partido. É claro que eu preferia conversar com as figuras mais identificadas com a minha posição. Mas eu sempre fui de dialogar com todo mundo.

Aí passou todo o mandato, eu naturalmente fui candidato à reeleição em 98, mas não houve o mesmo apoio de antes dentro do sindicato.

Mesmo assim, eu dobrei a minha votação. Eu tive quase 45 mil votos, de 24 fui para quase 45 mil, quase dobrei. Mas, infelizmente, fiquei como quarto suplente naquela eleição. Nós perdemos um deputado petroleiro por conta de uma disputa política.  Por não ter discutido ideologicamente a questão interna dentro do grupo? Talvez tenha sido. Eu reconheço que errei em muita coisa, mas a vaidade da luta interna acabou na intolerância.

O pessoal tem muita dificuldade de conviver com as pequenas diferenças internas. A intolerância política é muito grande dentro do próprio campo da esquerda. 

Então isso me impediu de ser reeleito. 

Retorno à Campinas

Nesse momento, voltei para Campinas com muita dificuldade financeira, dívida pra caramba. Além disso, minha esposa ficou muito doente, gastei o que tinha e o que não tinha, saí com dívida e estourado. 

Decidi entrar na PUCC pra fazer Ciências Sociais, mas não consegui concluir. E, por isso, acabei em 2000 sendo lançado candidato a vereador, com o intuito de puxar voto para eleger uma boa bancada para o Toninho, que era candidato a prefeito. Fui o mais votado para vereador. O PT nunca teve um candidato a vereador com os votos que eu consegui nessa eleição. Foram quase 9 mil votos em 2000.

Paralelamente, a Marta Suplicy foi eleita em São Paulo e chamou dois deputados para serem seus secretários. Com isso, abriu-se uma vaga de deputado para mim. Fizemos uma plenária, no Sindicato dos Eletricitários, em Campinas, para definir se eu ficaria vereador ou se assumiria como deputado, com a presença de quase 200 pessoas.

Eu defendi ir para Brasília e fui ser deputado. 

Retorno ao Congresso

Foi muito importante ter ido à Brasília. Foi o último período do FHC, com o apagão de 2001 da eletricidade, que me deu a oportunidade de fazer debates importantes. Além disso, participei ativamente dos debates sobre a criação da Cide [Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico] dos Combustíveis. 

Apesar de ter ficado pouco tempo nesse segundo mandato, já que o Eduardo Jorge logo retornou ao seu mandato, a bancada pediu que eu continuasse em Brasília para subsidiar o debate em relação à Cide. Eu fiquei em Brasília sem mandato, mas era chamado pelo presidente da Câmara, na época Aécio Neves, para dar opinião, porque eu era o cara que tinha formado um acúmulo sobre aquela questão. 

Zica
Luciano Zica ao lado de Dilma Rousseff durante evento em Brasília

Na eleição de 2002, eu pulei de 44600 votos, em 1998, para 115 mil. Lógico que com a candidatura do Lula era mais fácil. Então fui eleito com uma grande votação e fui para o Congresso com muita legitimidade. 

Participei da CPI dos Combustíveis, que foi uma tragédia. Em outro momento eu conto essa história, porque toma muito tempo. Era a CPI da adulteração dos combustíveis e fraude fiscal, mas era uma quadrilha que organizou a CPI, então foi muito difícil.

Fiz um mandato que considero muito bom, fiz um trabalho importante na área ambiental, que foi a coordenação do trabalho da regulamentação da Lei da Mata Atlântica. Fiz um trabalho importante na política nacional de resíduos, e fui candidato a prefeito de Campinas em 2004. 

Candidato à prefeito de Campinas e deputado federal

Em 2004, eu não estava preparado para ser candidato a prefeito, nem intelectualmente, nem por questão de saúde. Naquela época, usava um óculos de 10 graus, que fazia com que meu olho ficasse maior do que a minha cabeça nos debates na TV. 

Eu não tinha condições e o partido vivia uma crise brutal. Mesmo assim, por muito pouco eu não fui para o segundo turno. Obtive quase 110 mil votos para prefeito naquela época, com 20,5%, enquanto o Dr. Hélio, que foi no meu lugar para o segundo turno e ganhou a eleição, teve apenas 5 mil votos a mais. 

Aí veio a eleição para deputado e de novo houve enfrentamento com as lideranças da categoria que apoiavam outros candidatos. Eu tive uma boa votação, obtive 70 e poucos mil votos, mas fiquei em sétimo suplente.

Secretário de Recursos Hídricos e Ambiente Urbano

Em janeiro de 2007, me chamaram em Brasília pra ver o que eu ia fazer da vida. Respondi: ‘Vou voltar para Campinas, vou estudar, vou reorganizar a vida’. E o Gilberto Carvalho me perguntou: ‘E no Governo, você não quer alguma coisa?’. ‘Não, não quero nada’, respondi. 

Mas eu estava muito envolvido com a questão dos resíduos sólidos. Em abril eu ia fazer uma palestra sobre o tema em Santiago, no Chile, quando a Marina Silva me ligou: ‘Zica, é o seguinte: o Lula me convidou para continuar à frente do Ministério do Meio Ambiente, me deu autonomia para organizar a equipe e eu quero você como secretário nacional dos Recursos Hídricos e Ambiente Urbano’. Eu respondi que não iria, que estava reorganizando a vida em Campinas.

Mas ela insistiu durante uns 30 dias, até que eu acabei cedendo e assumi a Secretaria. Levei comigo o Ronaldo Hipólito Soares, petroleiro, para ser meu chefe de gabinete. Nós terminamos a elaboração da política de resíduos no final de 2007, mas a tramitação do projeto só foi terminar lá para 2010.

Sucessão presidencial

Nessa momento, começa a se discutir a sucessão do Lula. Eu achava que o governo Lula tinha sido extraordinário do ponto de vista  social e de reconstrução do Estado Nacional, mas que era chegado o momento de dar um passo à frente, do ponto de vista socioambiental. 

Foi aí que começamos a discutir a candidatura da Marina Silva, que seria o passo seguinte do governo Lula. Mas o Lula já tinha escolhido a Dilma [Rousseff]. Eu discuti com alguns grupos internos do PT, cheguei a conversar com a Marina também. No meio dessa discussão, no ano de 2008, eu pedi demissão quando entreguei o projeto dos resíduos sólidos para o Lula. Mas eles não aceitaram e eu combinei com a Marina que eu ficaria até quando ela permanecesse como ministra.

Quando chegou em maio de 2008, estávamos em uma reunião do Conselho Nacional do Meio Ambiente, quando recebemos a notícia de que o Lula tinha nomeado o Mangabeira Unger para fazer a gestão das políticas da Amazônia. Aquilo foi uma facada nas costas da Marina.

Foi então que a Marina resolveu pedir demissão, e eu pedi demissão junto com ela. Quando eu já estava de volta à Campinas, a Marina me liga: ‘Olha, Zica, eu queria que você viesse aqui para gente fazer uma reunião com o PV [Partido Verde], que está nos convidando para nos filiar. Eles estão com uma pesquisa que aponta 23% de intenção de votos em mim para presidente. Como o PT já escolheu a Dilma, a gente quer discutir com eles’. Eu falei: ‘Sou contra!’. Mas fui mesmo assim. 

Candidatura de Marina Silva

Era um grupo de cinco pessoas, ligado à Marina, reunidos com a executiva do PV. Discutimos, eu votei contra, mas decidiram pela candidatura da Marina pelo PV. Eu topei participar da sua candidatura e foi o maior erro político da minha vida, porque o PV é um partido muito complexo. É uma marca maravilhosa, marketing sensacional, uma marca boa, mas práticas nem tão boas assim.

Então fizemos a disputa da eleição, de fato a Marina estava bem, por pouco não vai para o segundo turno. E quando ela não foi para o segundo turno, o grupo da Marina resolveu ficar neutro. Obviamente, eu declarei apoio à Dilma. Foi aí que eu comecei a entender que a Marina havia cometido um erro grave, que foi não se identificar nem com a esquerda, nem com a direita. Não existe espaço na política para isso. 

Então ela foi muito bem na eleição, mas posteriormente se juntou com o Eduardo Campos, depois apoiou o Aécio e, enfim, eu me desliguei deles. Ajudei a fundar a REDE, mas não me filiei à REDE e não me filiei mais a partido nenhum, estou sem partido desde 2010. 

Fui candidato a deputado pelo PV, inclusive, outro erro brutal. Porque eu era coordenador da campanha da Marina, mas não tinha apoio no partido.

Lei da Anistia

Em 2002, eu fiz um projeto de anistia restrito aos petroleiros, já no começo do governo Lula. A gente articulou isso com o José Eduardo Dutra, que virou presidente da Petrobrás, nós viemos em um Congresso aqui no Nacional Inn, em Campinas, e discutimos os termos do projeto. Eu apresentei um substitutivo ao meu projeto, propondo essa característica, pegando os períodos das duas greves, de 94 e 95, englobando todos os punidos, qualquer tipo de punição teria reparação com base naquela lei.

E começamos a construir esse debate, propusemos urgência na Câmara, aprovamos, foi para o Senado. No Senado, eu cheguei a temer pela rejeição. Embora já fosse o governo do Lula, estava ocorrendo um movimento da esquerda do PT, do PSOL surgindo, do PSTU, contra a aprovação do projeto, porque eles queriam a aprovação do meu projeto original, que propunha a anistia ampla, geral e irrestrita.

Eu me lembro que eu fiz uma conversa com esse grupo à esquerda do PT, que depois se tornou o PSOL: ‘Vamos fazer o seguinte: eu mantenho o meu projeto original na pauta, mas a gente aprova esse substitutivo, atende aos petroleiros, e eu me comprometo a continuar defendendo a anistia ampla, geral e irrestrita que vocês estão propondo’. Mas eles eram contra, foi uma discussão danada. 

Bom, no fim passou o projeto, foi sancionado e beneficiou a categoria petroleira inteira. Os demitidos voltaram. Os sindicatos que mantiveram financeiramente esses demitidos de 95 até 2003, por meio de fundos de greve, receberam de volta o dinheiro. 

E, curiosamente, os meninos do PSTU, os dois de Minas que eram contra a aprovação, quando a lei foi sancionada e a negociação da volta foi feita, os dois foram os primeiros a voltar. 

Minha luta no projeto de Anistia foi essa. Nunca saiu no boletim do sindicato dos petroleiros daqui, do Estado de São Paulo, de que eu era o autor do projeto. Até hoje não tem registro disso e foi uma luta que eu fiz, usei minha legitimidade de petroleiro no Congresso, com as lideranças, eu articulei tudo sozinho, mas não saiu uma vírgula. Até hoje, se você procurar na imprensa sindical, não tem citação.

Eu me sinto por um lado premiado por ter tido a minha formação na categoria petroleira, por ter sido eleito vereador e deputado, a primeira eleição ganhei graças ao apoio central dos petroleiros e ao prestígio que a gente tinha especialmente em Campinas. Mas a intolerância política impediu que nós tivéssemos um deputado petroleiro hoje. 

Acho que os dirigentes sindicais petroleiros têm que fazer uma revisão dos métodos de luta. Eu tenho o orgulho de dizer que sou filho da categoria petroleira, que tive a minha formação política e intelectual gerada aqui dentro. 

Cometi erros? Cometi. 

Erros

Eu não tive formação política teórica, então quando eu tomei decisões políticas, as tomei individualmente. Mas eu deveria ter provocado um debate coletivo. Por inexperiência, eu não fiz. 

Acho que esse foi um erro. Em relação ao governo Lula, dos dois primeiros governos Lula, um dos erros foi a cooptação dos movimentos sociais, o governo trouxe para dentro do governo as principais lideranças. Ao invés de agirem como articuladores dos trabalhadores, tornaram-se chefes, viraram patrões. E hoje, muito da rejeição que a gente tem na base é fruto disso.

Memória

Para mim, memória é uma questão extremamente importante. Memória é história e quem não lê a história, não constrói o futuro. O futuro tem que ser baseado na história. A gente precisa cultivar a memória permanentemente, e eu procuro fazer isso, inclusive na minha permanência aqui no sindicato. 

Muita gente que acompanhou as divergências que a gente teve ao longo da história me pergunta: ‘Zica, como é que você aguenta?’. Eu aguento porque eu acho que é importante, eu tenho muitos amigos, companheiros extraordinários e eu sou um cara que gosto de aprender com a divergência. Eu me dei muito bem no Parlamento: dos 10 anos que estive como deputado, em 9 deles eu fui considerado um dos 100 mais influentes.

Zica
Luciano Zica em encontro com o presidente Lula

A memória é ferramenta indispensável e, por isso, acho muito importante esse trabalho. Por mais que a gente floreie às vezes no discurso ,eu acho admirável esse trabalho de resgate da memória. A memória tem que ser resgatada e preservada para que a gente não repita os mesmos erros e aproveite os acertos.

Eu fui servente de pedreiro, cheguei a trabalhar em cemitério, fui professor e o auge da minha atuação profissional eu considero que foi o período da Petrobrás. Eu me sinto gratificado de ter podido fazer parte da categoria petroleira.

E, por isso, eu prezo muito e me preocupo muito com a forma como a categoria se organiza hoje, como ela se relaciona com os movimentos sociais. Eu tenho um desejo muito grande de ver a nossa categoria ter o papel que sempre teve de representatividade, de combatividade, de luta, na defesa de ideias e de projetos. Porque para mim é um orgulho extraordinário fazer parte dessa categoria. 

Futuro

Eu ainda tenho esperança de que o mundo se transforme em um mundo socialista. Eu sei que eu não vou ver isso, mas eu gostaria que as futuras gerações tivessem capacidade de recuperar essa solidariedade. Eu sei que é muito difícil, que o mercado, que não existe enquanto ser, é quem governa o mundo, infelizmente. 

A minha expectativa é a de ver a coletividade derrotar o mercado e construir uma sociedade mais igualitária, onde as pessoas tenham oportunidades e possibilidades de se desenvolver e ser feliz.

Sonho com um mundo no qual a escravidão do trabalho, da qual já fui vítima, não seja a regra. Espero que o trabalho seja para propiciar a vida, e não o contrário.

Nesse sentido, eu gostaria de ser lembrado como um simples trabalhador, que conseguiu dar uma contribuição e traduzir um pouco daquilo que aprendeu com a categoria petroleira. Quero ser lembrado como esse cara, que continua com a legitimidade de um trabalhador petroleiro, que se orgulha muito de ser petroleiro. 

Posts relacionados

Wanda Conti, PRESENTE!

Vitor Peruch

Sindipetro Unificado promove sindicalização no Edisp

Maguila Espinosa

Sindipetro Unificado realiza pesquisa sobre transporte na Replan e convoca trabalhadores a participarem

Vitor Peruch

ACT 2025

Responda a pesquisa da campanha reivindicatória 2025