Debate na Câmara de Campinas aponta causas da alta dos combustíveis

Vereadoras e diretores do Sindipetro Unificado relacionam preços a privatizações e falhas na distribuição

Encontro reuniu representantes sindicais e parlamentares para discutir efeitos econômicos e políticos da alta dos combustíveis(Foto: Vítor Peruch)

por Vítor Peruch

A Câmara Municipal de Campinas sediou no dia 23 de março um debate público sobre a alta dos combustíveis e seus impactos na economia regional e no custo de vida da população. A atividade reuniu representantes do movimento sindical, especialistas do setor e parlamentares, com foco nas causas estruturais do aumento dos preços e nas possíveis alternativas para o país.

Durante o encontro, o diretor do Sindipetro Unificado, Rodrigo Zanetti, destacou a complexidade do tema e criticou a desinformação no debate público: “A gente vê na internet que tem muita informação errada, falsa, tentando usar a situação politicamente, e a gente tem que explicar à população o que realmente acontece”. Ele ressaltou que o problema dos combustíveis não pode ser reduzido a decisões pontuais, mas envolve toda a estrutura da cadeia produtiva e suas transformações nos últimos anos.

Zanetti também apontou desequilíbrios estruturais como fator central para a alta dos preços. “A produção de petróleo aumentou de 2,3 milhões de barris para 3,4 milhões, só que o refino cresceu apenas 7,5%. Com isso, você gera menos produtos finais”, explicou. Segundo ele, essa defasagem faz com que o país dependa da importação de derivados — em torno de 20% do diesel tem que ser importado — o que expõe o Brasil a oscilações internacionais e pode gerar efeitos em cadeia, como desabastecimento e aumento generalizado de preços em setores como transporte e alimentos.

Outro ponto levantado foi o impacto das privatizações no setor. “Quando foi privatizado, o argumento era criar concorrência. Só que não existe uma concorrência real”, disse Zanetti. Na prática, o mercado se organizou de forma regionalizada e “quem determina os preços do combustível é a refinaria”, devido às limitações logísticas. O dirigente também criticou a operação de refinarias privatizadas abaixo da capacidade: “Elas operam com 60%, enquanto a Petrobrás opera com o máximo possível”, priorizando o abastecimento. Para ele, a perda de instrumentos de regulação ao longo da cadeia ajuda a explicar a discrepância entre os preços nas refinarias e nos postos.

A vereadora Fernanda Souto, responsável pela convocação do debate, ressaltou os efeitos dessas mudanças sobre a soberania energética. “Um desvio completo da função social, e nesse momento de crise isso se agrava ainda mais”, afirmou, ao comentar a redução da capacidade operacional de refinarias privatizadas.

O também diretor do Sindipetro Unificado, Uiran Kopcak, trouxe dados recentes sobre a dinâmica de mercado e criticou a atuação de distribuidoras: “Se elas puderem revender diesel com lucro maior, elas vão fazer isso. Isso pode gerar desabastecimento e uma escalada de preços”. Ele também apontou distorções após a venda da BR Distribuidora, que reduziu a capacidade de regulação do Estado sobre os preços finais.

Na mesma linha, o coordenador do Sindipetro, Steve Austin, destacou o papel histórico da Petrobrás na integração do mercado nacional e criticou os efeitos da retirada do Estado da cadeia de distribuição. “Tirando o Estado como um fator regulador do mercado você abre espaço para o privado ocupar”, afirmou, citando ainda problemas como aumento das margens de revenda e práticas irregulares no setor.

O debate também abordou o cenário internacional e sua influência sobre os preços dos combustíveis. A vereadora Mariana Conti relacionou o tema à disputa geopolítica global. “O controle do petróleo mundial é uma arma geopolítica e isso impacta diretamente a vida das pessoas”, afirmou, defendendo a retomada da soberania energética e maior integração entre os países.

Por fim, os participantes reforçaram a necessidade de ampliar o debate com a sociedade e aprofundar a discussão sobre alternativas para o setor. A Câmara já anunciou um novo encontro sobre o tema, marcado para o dia 2 de abril, no mesmo local, com previsão de aprofundar aspectos como geopolítica do petróleo e políticas públicas para o abastecimento nacional.

Confira o debate na íntegra

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