Conheça mais do projeto apoiado pelo Sindipetro e o vínculo histórico entre a luta dos petroleiros e da Cozinha Solidária São Marcos

Observação: Este texto compõe um projeto de difusão dos materiais presentes do Centro de Memória Petroleiro Jacó Bittar
Na quarta-feira (17) de junho, a Cozinha Solidária São Marcos comemorou cinco anos de existência! Vamos conhecer um pouco mais deste projeto que o Sindipetro Unificado faz parte. A Cozinha Solidária São Marcos nasce em 2021, a partir do chamado à luta: o Padre Antônio Alves (Paróquia São Marcos) convidou a Articulação Brasileira pela Economia de Francisco e Clara, representada pela figura de Márcia Molina, para construir o projeto do que seria a Cozinha Solidária São Marcos. Estes dois grupos, somados ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), principalmente representados pelas figuras de militantes do Acampamento Marielle Vive, compuseram o tripé que deu início ao que seria uma ampla rede de redes de solidariedade e resistência.
A Cozinha Solidária São Marcos nasceu com o objetivo de combater a fome, em um período de alarmantes índices de insegurança alimentar vivenciados pelos setores mais marginalizados da sociedade, em especial nas periferias das cidades. Ao passar dos anos, as políticas públicas de combate à fome, especificamente do Governo Federal após 2022, contribuíram fortemente para a redução da vulnerabilidade alimentar, como marcado pela saída do Brasil do mapa da fome. Contudo, conforme me foi ensinado pela Márcia Molina, “o combate à fome não se restringe à distribuição de comida, mas necessita de transformação e projeto de justiça social.”
Há diversos grupos de trabalho (GTs) responsáveis por atuar na Cozinha Solidária, buscando lutas além da distribuição de refeições. O GT de hortas agroecológicas é responsável pela criação de hortas no espaço e na região, visando debater a importância da pauta agroecológica, da terra, do meio ambiente e da alimentação saudável a partir de oficinas e atividades envolvendo a comunidade. Há também o GT de panificação, responsável por oficinas de culinária construídas entre voluntários e a comunidade para a produção de pães, doces e outros alimentos, garantindo capacitação e certificados para os participantes, bem como produzindo renda a partir das vendas dos produtos.
O GT de Educação Política busca realizar atividades, oficinas, rodas de conversa para trabalhar temáticas políticas junto à população, visando construir soluções coletivas para problemas que afligem o bairro. Dentro deste grupo também existem outras iniciativas, como a organização de uma turma de alfabetização para jovens e adultos realizada em 2025 a partir da campanha nacional do MST, a “Jornada Nacional de Alfabetização nas Periferias”, através do “Método Sim Eu Posso”.
A Cozinha Solidária São Marcos também atua junto ao movimento estudantil e de suas lutas. O projeto de Extensão Popular Panela Política busca ser uma ferramenta da construção de uma universidade, vinculada aos territórios, que produza acúmulos práticos e teóricos que sejam socialmente orientados à superação dos problemas vividos pelo povo. A atuação do grupo na Cozinha Solidária São Marcos construiu oficinas relacionadas ao mundo do trabalho, atividades para crianças relacionadas à agroecologia e conscientização do processo social por trás do alimento, oficinas de alongamentos para idosos e até a construção de uma biblioteca comunitária.

Esta é a Cozinha Solidária São Marcos! Um movimento social que busca encampar a luta pela dignidade humana a partir de diversas frentes. Contudo, esta luta precisa de aliados e há várias organizações que contribuem, como o próprio Sindicato dos Petroleiros Unificado do Estado de São Paulo Regional Campinas que possui voluntários semanais no projeto, que contribuem no preparo de alimentos, no fortalecimento de vínculos com o território e em mais diversas atividades. O Sindipetro auxilia o funcionamento da Cozinha ao ter se responsabilizado pelo pagamento da conta de gás do espaço.
Este tipo de articulação parte da ideia defendida tanto pelo Sindicato quanto pela Cozinha de que trabalho de base precisa buscar a transformação social. As convergências, entretanto, não residem apenas no método de construir lutas, mas sim na necessidade estratégica da soberania. A superação do problema da insegurança alimentar não é solucionada apenas pela doação de alimentos, mas sim pela constante luta para demonstrar na prática a possibilidade de se conquistar a soberania alimentar no país. Contudo, esta luta não depende apenas do trabalho de Cozinhas Solidárias, mas está diretamente relacionada a uma questão menos visível: o controle energético do país.
A questão energética atravessa toda a cadeia produtiva, distributiva e de preparo do alimento. Por exemplo na agricultura e plantio são necessários fertilizantes e combustíveis para a produção, que, quando encarecidos, desfavorecem a capacidade de negociação e produção dos pequenos e médios agricultores em detrimento dos grandes latifúndios ou mesmo de produtos estrangeiros. O transporte de produtos no Brasil é feito majoritariamente por sistema rodoviário e necessita de combustível, impactando diretamente no valor final dos alimentos que estão nas prateleiras dos mercados, visto que muitos episódios de inflação nos alimentos são decorrentes diretamente de seu aumento. Além da própria compra de alimentos, o gás de cozinha (GLP) é item fundamental para garantia da dignidade alimentar nas casas, cozinhas, escolas, restaurantes e cozinhas solidárias. O gás de cozinha não apenas tem seu valor de venda das refinarias aumentado, visto que a Petrobrás não tem monopólio sobre o refino do petróleo, como também sofre um imenso processo de aumento de preços quando repassados para as distribuidoras privadas. A luta dos petroleiros ao lado daquelas e daqueles que combatem a fome não é de agora, e, para tanto, cabe resgatar alguns episódios presentes em arquivos do Centro de Memória Petroleiro Jacó Bittar para ilustrar em que esferas esta luta se deu.
Em 1995, os petroleiros lideravam a principal greve histórica da categoria e uma das principais lutas de resistência da classe trabalhadora frente ao avanço do neoliberalismo e dos projetos privatistas do governo de Fernando Henrique Cardoso. Dentre diversas pautas reivindicadas pela categoria, a garantia do monopólio estatal da exploração do petróleo pela Petrobrás era uma das principais mobilizações defendidas.

As lutas que aparecem nos jornais apontam que a luta dos petroleiros ultrapassa as margens de sua própria categoria, uma vez que enfrentavam o projeto do governo de minar o controle nacional de recursos estratégicos pela Petrobrás e o desmonte da empresa. A pauta de resistência era legítima e a sua defesa necessária, visto que a Petrobrás sob controle estatal favoreceria a exploração dos recursos naturais de forma a garantir benefícios para a população. Dessa forma, a empresa poderia planejar estrategicamente as áreas de investimento, desenvolvimento tecnológico, garantir controle de preços e orientar a produção para solucionar problemas vividos pelo povo brasileiro.
O que este documento do Centro de Memória nos indica? É apontado no jornal um dos principais episódios da greve relatado pelos petroleiros. O texto faz uma denúncia à população, apontando que FHC buscou instrumentalizar de maneira autoritária o discurso de falta de combustível e gás para causar descontentamento ao povo frente à greve. Se a grande mídia noticiava que a falta de produção de GLP nas refinarias decorrente da greve dos petroleiros ocasionou uma escassez generalizada de gás de cozinha, bem como gerou um processo de desabastecimento de combustível, os petroleiros buscavam apontar que o objetivo do governo e das distribuidoras era descredibilizar a categoria frente à população, bem como fortalecer um projeto de privatização sobre o monopólio estatal, sob uma justificativa de eficiência e livre mercado. Este episódio demonstra que, historicamente, o projeto de ataque à Petrobrás enfrentado pelos petroleiros, afeta diretamente o acesso das pessoas aos materiais necessários para dignidade alimentar, como o próprio gás de cozinha.
Em 1997, os petroleiros tentaram se mobilizar contra outro avanço neoliberal sobre a estatal. A luta se deu contra a Lei do Petróleo, o marco legal que representou a efetiva quebra de monopólio da Petrobras:


Para além de um amplo desmonte interno da empresa estatal e a perda dos controles estratégicos nacionais, este processo impactou diretamente a vida da população. O governo federal da época beneficiou diretamente às distribuidoras de gás e, ao longo da aprovação da lei, aumentou substancialmente o valor do gás deixando a cargo do próprio governo e da Agência Nacional do Petróleo todas as principais decisões referentes à extração e refino do petróleo.
A luta também se deu nos últimos 10 anos. Em 2016, após o impeachment de Dilma Rousseff (PT), Michel Temer aplicou a lei de Preço de Paridade de Importação (PPI), que reajustou o valor dos combustíveis e outros derivados de petróleo às variações do dólar, o preço do barril no mercado internacional e aos custos de importação. Ou seja, mesmo a Petrobras sendo autossuficiente e capaz de vender seus derivados a custos mais baixos, a proposta do governo Temer, que foi mantida até 2022, obrigava a equivalência aos preços internacionais. Este ataque ao patrimônio brasileiro foi o responsável pelo exorbitante aumento no preço do diesel, que entre 2019 e 2022 aumentou em 95%, ocasionando a inflação nos preços dos alimentos, bem como um aumento de 62% no valor do gás de cozinha. Este aumento levou famílias vulneráveis a recorrerem a métodos de cozinhar que podem ser perigosos, como a utilização de lenha.
A Cozinha Solidária enfrentou este problema, visto que o projeto nasceu na contradição deste momento histórico. Diversos moradores da comunidade buscavam refeições com as mãos queimadas, visto que não tinham condições de comprar gás de cozinha e tentavam cozinhar com lenha ou pedaços de pau. A existência da Cozinha não só contribuiu para a garantia da alimentação, mas também para a proteção física das pessoas. Este é outro exemplo que ilustra como a luta em torno dos setores energéticos do país afeta diretamente a vida da população.
Ao redor do país, os sindicatos dos petroleiros não ficaram parados diante da situação. Organizaram-se nas periferias das cidades, subsidiando os valores altíssimos dos botijões de gás e os vendendo por preço de custo acessível para a população, fortalecendo o diálogo com a comunidade e conscientizando sobre a real razão do aumento dos preços. A luta política se travou durante os 7 anos de existência da PPI, quando, a partir de reivindicações da Federação Única dos Petroleiros (FUP) e sindicatos petroleiros em articulação com o governo federal, em 2023, a Petrobrás decreta o fim da PPI, colocando novamente os preços de custos nacionais na equação e não apenas os preços internacionais dolarizados.

A FUP busca fortalecer este debate visto a campanha recentemente lançada “Reestatiza Brasil: do poço ao posto e ao fogão”. A campanha defende o controle de ativos estratégicos privatizados como BR Distribuidora (atual VIBRA), a Liquigás e diversas refinarias da Petrobras. Esta campanha busca retomar ao centro do debate público os impactos da privatização e da fragilização de nosso controle energético estatal nos preços do gás e combustível, bem como no desenvolvimento do país. Isto demonstra como a luta dos petroleiros está diretamente vinculada ao mais básico da alimentação do povo, e cabe às organizações políticas serem capazes de realizar essas mediações, retomando o diálogo com a população e defendendo a importância econômica, política e ideológica de uma Petrobras 100% estatal.
As lutas daqueles setores que buscam a construção de um projeto de soberania alimentar a partir do combate à fome estão intrinsecamente vinculadas à luta pela soberania nacional. Enquanto grupos internacionais de interesses privados dominarem, mesmo que parcialmente, a cadeia produtiva e distributiva do petróleo em detrimento da estatal Petrobrás, a população sentirá na pele elementos básicos de suas vidas em risco, como compra de alimentos em mercados, preparo de refeições e garantia de dignidade. Em síntese, debater a questão da soberania alimentar e energética é tratar de um projeto de Estado que seja capaz de garantir controle público dos recursos energéticos, reduzir o custo dos alimentos e assegurar condições dignas de vida para o povo.
Neste sentido, é imprescindível comemorar os 5 anos de Cozinha Solidária e parabenizar todas aquelas e aqueles que dedicam suas vidas para lutar por justiça social. A aliança entre os petroleiros e petroleiras, e projetos como o da Cozinha Solidária São Marcos, deve ser potencializada não apenas porque compartilham de valores próximos, mas porque defendem projetos de sociedade que dependem da luta conjunta e unificada. Se a Cozinha Solidária São Marcos nos ensina que é possível sonhar com um mundo de justiça social, a unidade com a categoria petroleira e outros diversos setores populares nos garantirá a concretude deste sonho.
