Categoria aceita contraproposta negociada após nove dias de paralisação; decisão foi confirmada em todas as bases do Sindipetro Unificado

Por Vítor Peruch e Marcelo Aguilar
As assembleias realizadas na manhã desta terça-feira (23) nas bases do Sindipetro Unificado confirmaram o indicativo do Conselho Deliberativo da Federação Única dos Petroleiros (FUP) pela aceitação da contraproposta apresentada pela Petrobrás e suas subsidiárias e pela suspensão da greve nacional da categoria. A decisão encerra um movimento que durou nove dias e que mobilizou trabalhadores de todo o Sistema Petrobrás, com adesão considerada elevada pelas entidades sindicais.
As votações ocorreram em diferentes unidades e regiões, conforme calendário previamente divulgado. Em Campinas, a assembleia da Refinaria de Paulínia (Replan), que também reuniu trabalhadores da Transpetro e da TBG, foi realizada às 9h, na sede regional do sindicato, no bairro Jardim Chapadão. No mesmo horário, em Mauá, ocorreu a assembleia da Refinaria de Capuava (Recap), igualmente com participação de empregados da Transpetro, na sede regional do Sindipetro Unificado, na Vila Bocaina. Ao longo do dia, também houve assembleias nos escritórios, terminais, usinas termelétricas e bases no interior de São Paulo e em outros estados.
As assembleias contaram com forte presença da categoria e refletiram o entendimento majoritário de que a contraproposta negociada durante a greve representou avanços em relação às propostas anteriores da empresa. Com a deliberação desta terça-feira, a Greve Nacional Petroleira, iniciada no dia 15 de dezembro, foi oficialmente encerrada, ficando a suspensão do movimento condicionada à assinatura do novo Acordo Coletivo de Trabalho (ACT).
Indicação da FUP e contexto da negociação
A indicação da FUP pela aceitação da contraproposta foi aprovada na noite de segunda-feira (22), após reunião do Conselho Deliberativo da federação. A avaliação das direções sindicais foi de que a greve conseguiu arrancar da Petrobrás compromissos que não estavam colocados na mesa de negociação até então, incluindo garantias de não punição aos grevistas, o acompanhamento do ACT por todas as subsidiárias e avanços em cláusulas econômicas e sociais.
De acordo com a federação, a decisão levou em conta três eixos centrais da campanha reivindicatória: a recomposição de direitos e rendimentos, a defesa dos planos de previdência complementar (PEDs) e a necessidade de fortalecer o Sistema Petrobrás diante de disputas em torno do modelo de gestão da empresa. A contraproposta passou a ser considerada suficiente para encerrar o movimento, ainda que dirigentes tenham ressaltado que nem todas as reivindicações da categoria foram atendidas integralmente.
Diálogo e deliberação
Na assembleia de Mauá, que reuniu trabalhadores da Recap, o diretor do Sindipetro Unificado e da FUP, Pedro Augusto, abriu os trabalhos com um discurso marcado por agradecimentos à categoria e por uma análise política do movimento. Em sua fala, ele destacou o contexto em que a greve foi deflagrada e a correlação de forças enfrentada pelos trabalhadores.
“Não tem como começar sem agradecer o apoio e a luta de cada um. A gente está tendo aqui essa oportunidade como categoria numa correlação de forças políticas em que ainda existe uma disputa muito grande com a extrema-direita e com aqueles que tentaram destruir a Petrobrás”, afirmou. Segundo ele, a greve foi uma resposta a uma gestão que, em sua avaliação, “decidiu ter os petroleiros e petroleiras como alvo” para sustentar uma política de distribuição de dividendos que não corresponderia ao papel social e estratégico da empresa.
Pedro Augusto também ressaltou o caráter nacional e a dimensão histórica do movimento. “Em menos tempo, conseguimos a entrada de todas as refinarias, de todas as plataformas, de todo o Sistema Petrobrás. Isso não é pouca coisa”, disse, ao enfatizar que a adesão expressiva demonstrou a confiança da categoria na legitimidade da pauta defendida.
Ao longo de sua intervenção, o dirigente fez um resgate das mobilizações ocorridas ao longo do ano, como as greves relacionadas ao teletrabalho e à Participação nos Lucros e Resultados (PLR), argumentando que a paralisação de dezembro já vinha sendo apontada como provável diante do nível de intransigência da empresa nas negociações. Para ele, a contraproposta apresentada após nove dias de greve representou uma inflexão em relação à intenção inicial da gestão, que, segundo afirmou, previa apenas a reposição inflacionária e até mesmo retrocessos em cláusulas do acordo anterior.
Assembleia em todas as bases
Na assembleia da Replan, em Campinas, o coordenador-geral do Sindipetro Unificado, Steve Austin, iniciou os trabalhos com um gesto simbólico. Ele convocou trabalhadores e trabalhadoras do sindicato que estiveram diretamente envolvidos na organização da greve a se posicionarem à frente do auditório, agradecendo publicamente o empenho, a mobilização e o trabalho realizados ao longo dos nove dias de paralisação. O grupo foi aplaudido pelos presentes, em um momento que marcou o encerramento formal do movimento na maior refinaria do país.
Durante a assembleia, dirigentes detalharam os principais pontos da contraproposta e explicaram os encaminhamentos aprovados pela FUP. Também foi destacado que, nas bases da Transpetro vinculadas ao Sindipetro Unificado, a votação registrou praticamente unanimidade pela suspensão da greve e pela aceitação do acordo.
Além de Mauá e Campinas, as assembleias ocorreram nos terminais da Grande São Paulo, como Barueri, Guarulhos, Guararema e São Caetano do Sul, em diferentes horários ao longo da manhã. Houve ainda assembleias presenciais e virtuais envolvendo trabalhadores de escritórios, da malha do Oleoduto São Paulo–Brasília (Osbra), da UTE NPI. A assembleia dos trabalhadores da UTE Três Lagoas, no Mato Grosso do Sul, será realizada ainda hoje, às 18h30.
Em todas as bases houve aprovação do indicativo da FUP, com percentuais elevados favoráveis à suspensão da greve. A entidade avaliou que o resultado expressa tanto o desgaste natural de um movimento prolongado quanto o reconhecimento, por parte da categoria, dos avanços obtidos na negociação.
Um balanço da greve
Deflagrada no dia 15 de dezembro, a greve nacional dos petroleiros teve como pano de fundo a negociação do Acordo Coletivo de Trabalho e se inseriu em um contexto mais amplo de debates sobre o futuro da Petrobrás, a política de dividendos e as condições de trabalho no Sistema Petrobrás. Ao longo de nove dias, o movimento alcançou adesão em refinarias, plataformas, terminais e unidades administrativas em todo o país, além de receber apoio de sindicatos de outras categorias e de movimentos sociais.
A mobilização dos aposentados também se consolidou como um dos pilares do atual movimento nacional dos petroleiros. Antes mesmo do início da greve, aposentados e pensionistas iniciaram uma vigília pelo fim dos PEDs no edifício-sede da Petrobrás, o Edisen, no Rio de Janeiro, denunciando os ataques aos direitos históricos da categoria e à própria empresa. O movimento durou treze dias. A presença ativa desse setor, que ajudou a construir a Petrobrás desde as décadas de 1970 e 1980, reforça a unidade intergeracional do movimento e evidencia que a luta em curso transcende reivindicações pontuais, articulando passado, presente e futuro da categoria petroleira.
Outro elemento central do debate é a necessidade de reconstrução e fortalecimento do Sistema Petrobras como instrumento estratégico do Estado brasileiro. A experiência recente dos governos entreguistas, entre 2016 e 2022, marcou um período de desinvestimentos, venda de ativos e fragmentação da companhia, com impactos diretos na soberania energética, na capacidade industrial e na arrecadação pública. A atual mobilização, ao defender uma Petrobrás integrada, pública e forte, também se coloca como uma barreira preventiva contra novos ciclos de privatização e enfraquecimento, reafirmando o papel da empresa na promoção do desenvolvimento nacional e na defesa dos interesses da população brasileira.
Para as direções sindicais, a paralisação demonstrou capacidade de mobilização e pressão, obrigando a empresa a rever posições e a formalizar compromissos que, até então, não estavam assegurados. Já a Petrobrás, ao longo do processo, manteve a defesa de sua proposta inicial e sinalizou, em alguns momentos, a possibilidade de judicialização do conflito, hipótese que acabou não se concretizando após o avanço das negociações.
Com o encerramento da greve e a aceitação da contraproposta, o próximo passo será a assinatura do novo ACT. Dirigentes sindicais afirmam que o acordo não encerra os embates entre trabalhadores e gestão, mas representa um marco importante na atual conjuntura. Para a categoria, a greve deixa como saldo imediato o acordo aprovado e, como efeito de longo prazo, a demonstração de força de um movimento que voltou a paralisar de forma unificada o Sistema Petrobrás.
