Denúncias de agressões, homens encapuzados, seguranças armados, violência com taco de beisebol, tiros para o alto e intimidação marcam a greve na Replan

Por Vítor Peruch
A greve dos trabalhadores da construção civil na Refinaria de Paulínia (Replan) ganhou contornos ainda mais graves após uma sequência de denúncias de violência, intimidação e ataques contra trabalhadores e dirigentes sindicais. O que começou como uma mobilização por reajuste salarial e melhores condições de trabalho evoluiu para um cenário de crescente tensão, levando o Sindipetro Unificado, a Federação Única dos Petroleiros (FUP) e diversas entidades sindicais a cobrarem providências imediatas da Petrobrás para garantir a integridade física dos trabalhadores e o livre exercício da atividade sindical.
Desde o início da paralisação, trabalhadores denunciam tentativas de intimidação contra o movimento grevista. Na madrugada da última quarta-feira para quinta-feira, segundo relatos dos grevistas, seguranças privados armados apareceram pela primeira vez no piquete montado em frente à refinaria. O episódio provocou indignação entre os trabalhadores e levou o Sindipetro Unificado, que já tinha uma mobilização marcada para o dia seguinte, a antecipar o ato em solidariedade aos trabalhadores da construção civil.
Na quinta-feira, petroleiros, trabalhadores da construção civil, dirigentes sindicais, parlamentares e representantes de diversas organizações se reuniram em frente à refinaria para denunciar a violência e defender o direito constitucional de greve. Durante a atividade, dirigentes do Sindipetro Unificado e da FUP alertaram que a tentativa de intimidar trabalhadores organizados representava um grave ataque à liberdade sindical.
Nova agressão durante a madrugada
As denúncias, no entanto, se agravaram poucas horas depois. Na madrugada de quinta para sexta-feira, um novo episódio de violência foi registrado nas proximidades da refinaria. Segundo o Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção e do Mobiliário de Campinas e Região (Sinticom), dois trabalhadores foram agredidos após parar seu veículo para verificar uma movimentação suspeita nas proximidades da unidade.
O trabalhador relatou que a violência ocorreu de forma repentina. Segundo ele, por volta da 1h40 da madrugada, ao passar pela Portaria Sul da Replan, percebeu uma movimentação de veículos e decidiu parar para verificar o que acontecia. Foi então que, de acordo com seu relato, aproximadamente 15 homens encapuzados desceram de ci: nco ou seis carros e iniciaram as agressões. “Eu simplesmente parei para tentar entender o que estava acontecendo. Nesse momento fui agredido, sem nenhum tipo de pergunta, sem nenhum questionamento sobre quem eu era ou o que estava fazendo”, afirmou.
O dirigente sindical Hamilton também denunciou novas agressões ocorridas durante a madrugada”Estamos aqui registrando mais um momento de agressão. Mais companheiros foram agredidos nesta madrugada”, afirmou.
O outro trabalhador agredido, em relatos pelas redes, com a cabeça marcada por sangue escorrendo afirmou que até um taco de beisebol foi utilizado, além de tiros intimidatórios par ao alto durante as agressões: “porrada comeu. estouraram minha cabeça com taco de beisebol, apontaram quatro pistolas para mim, deram tiro para o alto, quebraram meu carro”.
Segundo denúncias, o veículo utilizado pelo sindicato foi alvo de uma emboscada durante o trajeto até a refinaria. De acordo com os relatos, cerca de cinco veículos cercaram o automóvel dos dirigentes sindicais e provocaram uma colisão. Uma das vítimas das agressões seguem hospitalizadas em decorrência dos ferimentos, entre elas um trabalhador que corre risco de perder a visão.
Mobilização denuncia intimidação e cobra providências
Nesta segunda-feira (29), dirigentes da FUP e do Sindipetro Unificado voltaram à Replan para denunciar a escalada da violência e cobrar providências da Petrobrás.
Durante a mobilização, dirigentes sindicais denunciaram a presença ostensiva da Polícia Militar nas portarias da refinaria, afirmando que o aparato policial estaria sendo utilizado para dificultar o contato entre o sindicato e os trabalhadores mobilizados.
A coordenadora-geral interina da FUP, Cibele Vieira, esteve na Portaria Sul da refinaria e classificou a situação como extremamente preocupante.
“Depois de colocarem segurança privada armada para intimidar sindicalistas e trabalhadores e de uma madrugada marcada por agressões violentas, com companheiros ainda internados, um com risco de perder a visão, agora vemos um aparato policial sendo utilizado para impedir que o sindicato converse com os trabalhadores. Empresas com essas práticas têm que ser banidas do Sistema Petrobrás”, afirmou.
Segundo Cibele, os episódios registrados desde o início da greve colocam em risco a integridade física dos trabalhadores e atentam contra direitos garantidos pela Constituição, como a livre organização sindical e o direito de greve.
Sindipetro cobra responsabilidade da Petrobrás
O coordenador-geral do Sindipetro Unificado, Steve Austin, também manifestou preocupação com o agravamento da situação e cobrou uma atuação imediata da empresa.
“É inadmissível que a Petrobrás mantenha relação com empresas que contratam milícias para agredir trabalhadores que estão exercendo seu livre direito de organização e luta por direitos. A Petrobrás não pode admitir esse tipo de prática”, afirmou.
Steve alertou ainda que os episódios registrados ao longo da greve demonstram uma escalada da violência que exige resposta urgente.
“Estamos vendo uma escalada da violência nesta semana. Isso pode resultar em acontecimentos ainda mais graves. A Petrobrás precisa agir. Estamos aqui denunciando essa situação”, declarou.
As denúncias apresentadas pelos trabalhadores apontam ainda para a atuação de grupos encapuzados responsáveis por ameaças e agressões contra grevistas, além da circulação de seguranças armados nas portarias e até mesmo no interior da refinaria. Também foram feitas acusações envolvendo a atuação da empresa Quality, denúncias que, segundo as entidades sindicais, precisam ser rigorosamente apuradas pelos órgãos competentes.
Greve segue por direitos e respeito aos trabalhadores
A paralisação foi deflagrada após os trabalhadores rejeitarem a proposta apresentada pelas empresas contratadas para prestação de serviços na refinaria. A categoria reivindica reajuste salarial de 9%, melhorias nos benefícios, aumento do vale-alimentação, do café da manhã, da Participação nos Lucros e Resultados (PLR) e da cesta natalina.
Mesmo diante das denúncias de violência, das ameaças, das tentativas de intimidação e da decisão judicial que determinou a manutenção de parte das atividades, os trabalhadores seguem mobilizados.
O Sindipetro Unificado reafirma total solidariedade aos trabalhadores da construção civil, exige a apuração rigorosa de todas as denúncias, a responsabilização dos envolvidos e cobra da Petrobrás medidas imediatas para garantir a integridade física dos trabalhadores, o respeito ao direito constitucional de greve e o livre exercício da atividade sindical.
Para a entidade, conflitos trabalhistas devem ser resolvidos na mesa de negociação, jamais por meio da violência ou da intimidação daqueles que exercem o legítimo direito de lutar por melhores condições de trabalho.






