Bronca do Peão: a “Uberização” no Transporte da Transpetro

Em carta, trabalhador explica o esquema de metas mensais que deixa trabalhadores do setor privado sem hora extra dentro da Transpetro

(Imagem criada através de Inteligência Artificial)

Por Bronca do Peão*

Imagine você trabalhar como motorista executivo na empresa Transpetro e, no final do mês, receber seu salário fixo sem nenhuma hora extra, mesmo que você tenha trabalhado até altas horas da noite viajando por esse Brasil afora.

Pois é isso mesmo que está acontecendo no transporte de pessoas da Transpetro. Vamos explicar detalhadamente para ficar melhor.

Uma empresa denominada Vix Logística tem um contrato milionário dentro da Transpetro para realizar o serviço de transporte de pessoas e atendimento a emergências.

Pois bem, seus motoristas contratados estão recebendo seus salários de forma uberizada dentro deste contrato.

Vamos à explicação: um trabalhador tem como meta de trabalho mensal 188h dentro de um aplicativo criado pela Vix Logística. Guardem este número: 188h.

Um trabalhador trabalha por dia 8:48h, que no final da semana somam 44h semanais, como define a legislação.

Se somarmos as 8:48h de trabalho diárias em um mês de 21 dias úteis, teremos um total aproximado no mês deste trabalhador de 185h.

Agora vamos supor que este trabalhador, em um dia, tenha feito 11:48h de trabalho. Poderíamos imaginar que ele receberia 3:00 horas extras nesse dia — não é bem assim que acontece. Por incrível que pareça, ele não receberá absolutamente nada de hora extra, uma vez que, na soma total do mês, ele terá cumprido a soma de 188h. Ou seja, este trabalhador não receberá absolutamente nada de hora extra mesmo em um dia trabalhando 11:48h, sendo que a soma mensal fica abaixo das 188h que ele deverá cumprir dentro deste tal aplicativo.

Vamos agravar ainda mais o absurdo que ocorre com os trabalhadores da empresa Vix Logística. Peguemos como exemplo o mês de fevereiro de 2026: temos nele 17 dias úteis, já que este mês tem 28 dias e temos 3 dias em que a Transpetro não utiliza o serviço de transporte, referentes ao carnaval. Então, teremos o trabalhador trabalhando 8:48h diárias normalmente e, neste mês, a soma de seu trabalho mensal será de 150h dentro do aplicativo Vix Logística.

Agora vamos supor que este trabalhador, neste mês de fevereiro, tenha transportado pessoas durante 9 dias úteis no horário das 07:00h até 20:48h e, nos demais dias (8 dias úteis), tenha cumprido seu horário das 07:00 até 16:48. Somando-se seu HH trabalhado dentro do aplicativo, sua carga de trabalho neste mês de fevereiro será de 185h.

Como ele ficou abaixo da sua “meta mensal” instituída pela Vix, de 188h, pasmem, este motorista não ganhará nenhum centavo de hora extra, mesmo trabalhando 9 dias deste mês por mais de 12h. Isso mesmo, essa é a uberização dentro da Transpetro: o trabalhador pode atender às demandas exigidas pela Transpetro, porém a Vix não pagará um centavo de hora extra a este trabalhador.

Os trabalhadores da Vix estão cansados de trabalhar, atender gerentes, presidentes, diretorias, sair de suas residências no horário que for solicitado, fazer longas viagens e, no final do mês, receber somente seu salário, sem nada de hora extra, mesmo trabalhando mais de 12 horas em vários dias.

Muitos dos motoristas estão fazendo cálculos e chegando à conclusão de que não compensa mais trabalhar na Transpetro com este modelo de contrato que foi firmado; caso trabalhem na Uber por fora, serão mais bem remunerados do que sendo esfolados pela Vix, em que, no final do mês, apenas a Vix ganha o dinheiro e o trabalhador fica chupando o dedo.

Não dá mais para aceitar um modelo de contrato em que o prejuízo é somente do trabalhador. As pessoas estão adoecendo, saem de suas casas, deixam seus filhos e esposas esperando para atender a Transpetro em uma viagem e, quando voltam, a esposa pergunta: “E aí, ganhou muito dinheiro?”, e o trabalhador tem que responder: “A Vix ganhou muito dinheiro, eu apenas deixei vocês sem amparo para trabalhar por mais de 12 horas diárias e não ganhar nada de hora extra.”

*Carta anônima enviada por petroleiro que preferiu não se identificar.

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