Sindipetro Unificado participa de debate público sobre preços dos combustíveis em Campinas

Promovido pela veradora Fernanda Souto, debate na Câmara Municipal analisou os efeitos do desmonte e privatização da Petrobrás após o golpe de 2016 nos preços dos combustíveis no contexto da guerra no Oriente Médio

Debate aconteceu na Câmara Municipal de Campinas nesta quinta-feira, 2 de abril (Foto: Marcelo Aguilar/Sindipetro Unificado)

Por Marcelo Aguilar

Um importante debate público aconteceu na noite desta quinta-feira (2) na Câmara Municipal de Campinas. Promovido pela vereadora Fernanda Souto (Psol), aliada dos petroleiros e petroleiras, o debate analisou os duros impactos do processo de privatização da Petrobrás iniciado após o golpe de 2016, mostrando como a venda de refinarias e a retirada da empresa do setor de distribuição com a venda da BR Distribuidora está prejudicando a população brasileira no contexto da guerra no Oriente Médio.

A vereadora Fernanda Souto (PSOL), organizadora do evento, abriu dizendo: “Todo nosso objetivo aqui é poder discutir com as pessoas que estão sentindo os impactos dessa situação no dia a dia. São assuntos complexos, mas é muito importante trazer informações e traduzir isso para a sociedade”. Esse foi o objetivo do debate, segundo a vereadora, estabelecer um diálogo sobre um assunto que está no centro da discussão pública em momentos em que o imperialismo norte americano e israelense atacam o Irã, impactando o mundo todo. Souto agradeceu a presença do Sindipetro Unificado, que definiu como um “sindicato combativo e que trava disputas importantíssimas dentro da Petrobrás e na sociedade como um todo”. Além dos representantes da categoria petroleira e dos institutos de pesquisa, também participaram  do debate Francisco Soares, presidente do Sindicato dos Frentistas de Campinas (Sinpospetro) e Emílio Martins, presidente do Sindicato dos Postos de Combustível.

Para a vereadora, “A discrepância entre o preço praticado pelas refinarias estatais e as privatizadas, que é um dos fatores centrais dos aumentos abusivos que a gente tem visto, é uma forma fácil da gente traduzir para a sociedade os impactos negativos das privatizações”.

Energia é soberania

(Foto: Marcelo Aguilar /Sindipetro Unificado)

Justamente esse foi um dos principais levantados por Cloviomar Cararine, economista do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), especialista no setor de óleo e gás. Cararine elaborou e apresentou um comparativo dos reajustes de preços durante os días da guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã, demonstrando a enorme diferença entre os preços praticados pela estatal e os praticados pelo setor privado.

A empresa Acelen, que comprou a Refinaria de Mataripe, na Bahia, já reajustou oito vezes o preço durante a guerra, a gasolina  acumulou suba de 60% na o diesel 88% e o gás 15%. Nos postos, em média nacional, a gasolina subiu 8% mesmo sem aumento por parte da Petrobrás nas refinarias e o diesel 24,3%, mais do dobro do aumento de 11,4% nas refinarias da Petrobrás.

Confira o gráfico:

Grafico elaborado pelo DIEESE demonstra a enorme diferência entre os preços aplicados pela Petrobrás e as refinarias privadas como Acelen

O economista apontou que a privatização da BR Distribuidora, e a retirada do Estado da distribuição e comercialização de derivados abriu espaço para importadoras e players privados que antecipam os reajustes nos postos de combustíveis prejudicando a população e exercem pressão para que a Petrobrás aumente os preços na refinaria.

Segundo Cararine, “O governo percebeu que o petróleo é um bem muito estratégico e não pode ficar na mão do mercado, a energia como um todo, precisa ser controlada, e para isso o governo precisou atuar. Fica muito claro nesse tipo de contexto que é necessário ter empresas estatais fortes para proteger o país e sua população em contextos de crise internacional. Por conta de uma guerra que a gente não começou nem tem controle sobre ela, a gente acaba sofrendo os efeitos de uma estrutura adotada em governos anteriores que colocou a gente nessa situação, que é não ter refinerías suficientes para abastecer nosso próprio mercado interno e em especial o mercado de diesel. Precisamos ampliar o parque de refino”. Para o técnico do Dieese, “falar de energia é falar de estratégia de país, precisamos fortalecer isso para proteger a população. O debate fundamental é sobre a soberania brasileira”.

No mesmo sentido apontou o professor José Augusto Ruas, presidente do IPEES, Instituto de Pesquisa e Estudos Econômicos e Sociais, que durante sua fala apresentou os principais impactos do Preço de Paridade de Importação (PPI) aplicado no Brasil após o golpe de 2016 e os efeitos das tentativas de privatização da Petrobrás. Ruas afirmou: “A pandemia veio para mostrar quão importante é o SUS e as guerras para mostrar a importância da Petrobrás e do Estado no planejamento estratégico do setor petróleo no Brasil”.

Categoria petroleira na luta

Cibele Vieira, coordenadora geral da FUP e diretora do Unificado durante o debate (Foto: Marcelo Aguilar/Sindipetro Unificado)

Os representantes do Sindipetro Unificado e da FUP na mesa reafirmaram a necessidade de lutar por uma Petrobrás pública forte a serviço do Brasil para diminuir os impactos das crises internacionais no país. Cibele Vieira, flamante coordenadora geral da Federação Única dos Petroleiros (FUP) e diretora do Unificado, afirmou que a FUP defende uma Petrobrás 100% pública: “A Petrobrás que a gente defende é uma empresa lucrativa, muito lucrativa, mas que não tenha o olhar de maximizar o lucro e sim um olhar sustentável que tenha um retorno para a sociedade brasileira”. Se a empresa está dando um lucro tão alto, afirmou, como tem dado, “ela poderia contribuir com derivados num preço mais acessível para a população brasileira, sem deixar de ser uma empresa lucrativa, igual ela fazia na década entre 2000 e 2010”.

Segundo Vieira, “para ter uma solução definitiva para o setor o único caminho é seguir aumentando as outras fontes energéticas, a produção de biocombustível, biodiesel, e aumentar o parque instalado de refino, essa é a solução permanente que traz uma segurança energética para o Brasil”. A sindicalista criticou ainda a retirada da Petrobrás da distribuição: “É um crime o que fizeram com a venda da BR Distribuidora, que continua usando a marca BR com combustível que não é da Petrobrás, isso é uma fraude ao consumidor, ninguém sabe disso, o pessoal abastece achando que é da Petrobrás, que foi obrigada a se retirar do setor”. Segundo ela, o que ocorreu “foi uma abertura forçada de mercado” que tem impactos até hoje: “agora quando a gente vê as empresas privadas pressionando porque a Petrobrás não está aumentando mais o preço, tem gente querendo botar a culpa na Petrobrás, mas o país está sendo menos impactado justamente porque tem a Petrobrás, deveria estar sendo menos ainda, se tivessem deixado concluir o planejamento do que já estava estruturado, aí hoje a gente teria além de uma autossuficiência no petróleo cru, auto suficiência nos derivados”.

Riqueza em disputa

Rodrigo Zanetti, diretor do Sindipetro Unificado (Foto: Marcelo Aguilar/Sindipetro Unificado)

Rodrigo Zanetti, diretor do Sindipetro Unificado, focou sua fala em reafirmar a importância da Petrobrás e do refino. Para ele, uma refinaria é como uma tigela: “Você tem os ingredientes, que são os diversos petróleos que a gente processa lá, e você tem os finais que são os produtos, gasolina, diesel, gás de cozinha. No meio, para esses petróleos virarem gasolina e diesel, você tem a refinaria que é a tigela onde esses elementos se misturam e processam. É uma estrutura bem complexa e bem grande, bem difícil de ser construída e ser operada e que precisa ser cuidada”.

Trabalhador da Refinaria de Paulínia há 23 anos, Zanetti trouxe ao debate alguns dados importantíssimos que demonstram o tamanho e a importância da Replan:  “A Replan abastece 20% do mercado nacional, um volume muito grande de produtos sai de lá. Hoje, em um dia, em termos de diesel, ela consegue abastecer 87 mil tanques de caminhão. Em termos de gasolina, se colocar uma média de 45 litros em cada tanque, a Replan abastece 300 mil tanques de carro por dia. Em gás de cozinha, 157 mil botijões de gás saem da  refinaria todos os dias. Combustível de aviação, em torno de 145 tanques de avião”. Não há dúvidas para ele sobre a importância disso: “É um sistema muito vital para a sociedade, a gente percebe isso no dia a dia, isso fica mais escancarado em momentos críticos, que mostram o quanto as refinarias da Petrobrás são vitais para a sobrevivência do país”.

Confira a íntegra do debate no Youtube:

No encerramento, Cibele Vieira alertou para os desafios do próximo período e as tentativas de desestabilização: “A gente viu um dos Bolsonaro lá nos Estados Unidos, falando que venham interferir na eleição, porque daí a gente dá todas as terras raras para vocês, e não é diferente com o petróleo. Quando foi descoberto o pré-sal, o Serra fez a mesma coisa com os Estados Unidos. Vocês vem financiar a disputa presidencial aqui no Brasil, na época da partilha, depois eu quebro esse regime e faço um mais benéfico para os Estados Unidos”.

Não é nenhuma novidade, aponta a dirigente: “O recurso gerado por nós, petroleiros e petroleiras, sempre esteve no centro dessa disputa. Por isso tem o papel da Petrobrás que a gente defende, e o papel da Petrobrás que outros defendem. É uma empresa em disputa. E uma parte importante dessa disputa estará na eleição de outubro, onde precisamos estar unidos e atentos e trabalhar muito para manter o processo de reconstrução da Petrobrás vivo”.

 

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