Soberania por um fio: a batalha do Brasil pela autossuficiência em fertilizante

Retomar o setor de fertilizantes é também uma luta contra a fome e pela construção da soberania alimentar em um país que há poucos anos teve mais de 30 milhões de pessoas em estado de insegurança alimentar e que precisou reeleger o presidente Lula para sair novamente do mapa da fome

Trabalhadores lutaram muito para a volta da Petrobrás ao setor de fertilizantes, mas ainda não é suficiente (Foto: Ricardo Stuckert)

Artigo por Albérico Queiroz Filho*

Com a produção de ureia paralisada e a retirada da Petrobrás do mercado de fertilizantes imposta pela corja que assaltou o país após o golpe de 2016, a nação se viu completamente à mercê do mercado externo. Após muita luta, a retomada vem num momento em que o tabuleiro geopolítico global se mostra mais instável do que nunca. Com 42% de nossas importações de ureia vindas de países sob sanção dos EUA — 20% da Rússia, 17% do Irã e 5% da Venezuela —, a tendência de alta nos preços e a incerteza na entrega se tornaram uma ameaça real à nossa segurança e soberania alimentar, mesmo com a ureia de países sancionados sendo vendidas no mercado com relativo desconto, a incerteza do fornecimento diante de um conflito armado coloca em risco toda uma cadeia produtiva.

Como se não bastasse, a crise se aprofunda com o movimento protecionista de China e Rússia, que limitaram suas exportações para garantir o abastecimento interno, além da intensificação do conflito armado promovido pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã, que coloca 17% das importações em xeque. Este cenário de estrangulamento da oferta expõe as consequências desastrosas do desmonte do setor de fertilizantes no país, um erro histórico cometido pelo governo da fome, que deixou o Brasil refém das importações e exposto à conturbada geopolítica global e que jamais poderá ser repetido.

A Federação Única dos Petroleiros (FUP) protagonizou a luta incansável pela retomada do setor pela Petrobrás, e os frutos já começam a aparecer. As FAFEN´s de Sergipe e da Bahia já voltaram a produzir, a FAFEN-PR tem previsão de retomada para março, por conta da conservação precária promovida pelos gestores responsáveis no passado. Juntas, essas unidades podem injetar no mercado o equivalente a 20% da demanda nacional, um alívio crucial para mitigar o impacto da crise externa. Junto com a produção de ureia vem também a produção de ARLA 32, que já foi iniciada na FAFEN-PR e é essencial na redução de poluentes presentes nos gases de combustão de motores a diesel.

No entanto, a vitória vem com um gosto amargo. A retomada foi marcada pela precarização das relações de trabalho, com a terceirização da atividade-fim. Uma conquista para o país que veio ao custo do sacrifício das trabalhadoras e trabalhadores em detrimento dos lucros dos acionistas. Para garantir uma operação segura, com baixa rotatividade de funcionários, com o devido acúmulo de experiência e com salários dignos, é fundamental que a Petrobrás retome a operação e manutenção das unidades com trabalhadores próprios. A complexidade do setor demanda uma gestão integrada de manutenção, operação e logística, além de otimização tributária, o que torna imperativa a incorporação da FAFEN-PR à holding.

O horizonte, contudo, é promissor. A retomada das obras da UFN-III, em Mato Grosso do Sul, avançou com a abertura das propostas das licitações; a expectativa é que a assinatura dos contratos ocorra em maio e o início das obras em junho. Com a FAFEN-MS em operação, o Brasil poderá suprir cerca de 35% de sua demanda. Mas todo esse esforço pode ser perdido se não for acompanhado de uma visão de futuro: atualização tecnológica das unidades em operação, entrada da Petrobrás no mercado de misturas N-P-K, descarbonização da produção com no_vas rotas como o hidrogênio verde e a aposta estratégica nos biofertilizantes.

Retomar o setor de fertilizantes é também uma luta contra a fome e pela construção da soberania alimentar em um país que há poucos anos teve mais de 30 milhões de pessoas em estado de insegurança alimentar e que precisou reeleger o presidente Lula para sair novamente do mapa da fome.

*Albérico Santos Queiroz Filho é diretor do Sindipetro Unificado e membro indicado pela FUP do Conselho Nacional de Fertilizantes

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