Membro da direção do Sindipetro Unificado e do Coletivo Antirracista, Pedro Augusto detalha as principais pautas do movimento negro na atual conjuntura

Por Guilherme Weimann e Marcelo Aguilar
“A luta antirracista tem estado na linha de frente do enfrentamento à extrema-direita e ao fascismo nos últimos anos”, afirma o diretor do Sindipetro Unificado e membro do Coletivo Antirracista da Federação Única dos Petroleiros (FUP), Pedro Augusto. Nesta entrevista, publicada no dia 20 de novembro, no qual se celebra a Consciência Negra e o líder Zumbi dos Palmares, o militante detalha as principais pautas do movimento negro, tanto dentro do Sistema Petrobrás como no âmbito da política nacional.
Confira a entrevista na íntegra:
Internamente na Petrobrás, houve alguma mudança para os trabalhadores negros após a eleição do governo Lula?
A maior parte das trabalhadoras e trabalhadores negros da Petrobrás está no setor privado. Ainda há muito a avançar em relação às condições de trabalho, segurança e qualidade dos contratos de prestação de serviços, mas conseguimos resgatar o plano de saúde para os dependentes, além da retomada das obras, que geram emprego e renda. Também houve a retomada dos concursos públicos, que hoje oferecem cotas raciais, além de uma mudança importante no posicionamento institucional da Petrobrás em relação ao combate ao racismo e outras formas de opressão. Mas para transformar esse discurso em ação, tem sido necessário pressão permanente do movimento sindical e dos trabalhadores na base.
Extrapolando os muros da Petrobrás, como você avalia a atual conjuntura da luta antirracista no país?
Felizmente, a luta antirracista tem estado na linha de frente do enfrentamento à extrema-direita e ao fascismo nos últimos anos. Isso tem feito com que, apesar das dificuldades da conjuntura, como vimos nas últimas eleições, a nossa pauta não perdeu protagonismo e segue mobilizando. No entanto, não podemos fechar os olhos para o fato de que as políticas racistas, como a violência policial, por exemplo, seguem sendo apoiadas por uma parte importante da população, o que tem permitido o retrocesso em relação a alguns temas, como a retirada das câmeras corporais na Polícia Militar de São Paulo, que Tarcísio recuou, ou mesmo a Operação Escudo, que está implantando no Litoral Paulista métodos muito parecidos com o que vemos há anos no estado do Rio de Janeiro, onde as principais vítimas da violência são da população negra.
Na última eleição, houve um avanço da extrema direita e um recuo da esquerda. Como isso impacta as pautas do povo negro?
As conquistas do povo negro sempre ficam mais ameaçadas, conforme avançam as pautas que pregam o conservadorismo, a redução das políticas sociais de Estado e as privatizações, por exemplo, pois dividem a nossa classe e atrasam as transformações que ainda são fundamentais para que possamos acabar com a desigualdade racial. O fortalecimento do Centrão e da extrema-direita também gera ainda mais pressão à direita sobre a frente ampla liderada pelo presidente Lula. Não à toa, pautas como o avanço do ajuste fiscal, cortes no orçamento e alta dos juros do Banco Central ganharam cada vez mais espaço na grande mídia e podem de fato se transformar em política do governo federal. Já no Congresso, Lira saiu fortalecido para indicar o seu sucessor no comando da Casa, enquanto em São Paulo, Tarcísio ganha espaço para ser a alternativa do bolsonarismo e da direita em 2026. Ao mesmo tempo, nas eleições proporcionais, seguimos tendo vitórias importantes de candidaturas de mulheres negras nas Câmaras de Vereadores, por exemplo, algo importante para continuar avançando e conquistar mais espaços de poder.
Quais são as principais pautas desse 20 de novembro, um dia simbólico de luta para os negros e negras?
O combate à extrema-direita e ao fascismo ainda estão na ordem do dia, pois essas forças reacionárias seguem avançando não só no Brasil, como no mundo, vide a vitória de Trump nos EUA. E o projeto desses setores passa diretamente por atentar contra os direitos, conquistas e a vida de negros e negras, povos originários e imigrantes. Portanto, unificar a classe trabalhadora, com seus setores mais oprimidos e explorados à frente, nas ruas, em torno de uma pauta que amplie direitos e melhore a vida das pessoas é fundamental. Só assim vamos poder retomar o protagonismo e conquistar corações e mentes para o nosso projeto de emancipação coletiva e de combate às desigualdades raciais, que ainda temos muito a avançar.
