Sindicato recebeu religioso em outubro para debate sobre moradia e desigualdade; nota critica pressão política da extrema direita
O Sindipetro Unificado divulgou nesta terça-feira (16) nota de apoio ao Padre Júlio Lancellotti, após o Cardeal Dom Odilo Scherer determinar a suspensão das transmissões de missas do religioso e seu afastamento das redes sociais. A medida, que também abre possibilidade de remoção do padre da Paróquia São Miguel Arcanjo, na Mooca, onde atua há mais de 40 anos, gerou repercussão nacional e manifestações de apoio de entidades e parlamentares.
Na nota, o sindicato relembra a visita do padre à sede de Campinas em outubro, quando centenas de petroleiros participaram de debate sobre acesso à moradia e desigualdade. O texto critica o que classifica como “tentativa de silenciamento” motivada por pressão de setores da extrema direita e estabelece paralelo entre a perseguição ao religioso e ataques ao patrimônio público.
NOTA DE APOIO E SOLIDARIEDADE AO PADRE JÚLIO LANCELLOTTI
São Paulo, 16 de dezembro de 2025
Há gestos que marcam a memória coletiva não pelo espetáculo, mas pela verdade que carregam. Em outubro deste ano, recebemos em nossa sede o Padre Júlio Lancellotti. Não veio como convidado ilustre em busca de aplausos — veio como quem caminha ao lado dos que sofrem há mais de quatro décadas, trazendo no corpo as marcas de quem escolheu um lado e, por isso, apanha.
Naquela tarde, centenas de petroleiros e petroleiras ouviram dele algo que ressoa ainda mais forte hoje: “Quem está do lado dos últimos, vai apanhar. Quem está do lado dos descartados, descartado será.” Eram palavras de quem conhece o preço da coerência. Eram, também, um prenúncio.
Agora, assistimos à tentativa de silenciamento de uma voz que incomoda justamente por encarnar o evangelho em sua dimensão mais radical: a defesa intransigente dos pobres, dos invisíveis, dos que dormem nas calçadas enquanto prédios vazios acumulam poeira e especulação. O Cardeal Dom Odilo Scherer, sob pressão de uma campanha orquestrada pela extrema direita — a mesma que persegue trabalhadores, destrói direitos e mercantiliza a dignidade —, determinou a suspensão das transmissões de missas, o afastamento das redes sociais e cogita a remoção de Padre Júlio da Paróquia São Miguel Arcanjo, onde atua há mais de 40 anos.
Não nos enganemos: isso não é “recolhimento espiritual”. É censura. É punição por não se calar diante da barbárie. É a tentativa de apagar a memória viva de que a fé que não se traduz em justiça social é ornamento vazio.
A perseguição ao Padre Júlio não nasceu nos altares, mas sim nos gabinetes onde se tramam CPIs farsescas, nos vídeos de parlamentares bolsonaristas, nos abaixo-assinados financiados por quem odeia ver os pobres com dignidade. É a mesma lógica que privatiza refinarias, que entrega água à especulação, que transforma direitos em mercadorias. É a lógica do lucro contra a vida.
Nós, petroleiros e petroleiras do Sindipetro Unificado, que convivemos com tentativas diárias de desmonte do patrimônio público e precarização do trabalho, reconhecemos nessa ofensiva o mesmo projeto: calar quem denuncia, isolar quem resiste, punir quem não se curva.
Por isso, reafirmamos: estamos ao lado do Padre Júlio Lancellotti.
Ao lado de quem nos ensinou, naquela tarde de outubro, que “morar é um ato de resistência”. Ao lado de quem nos disse que “não podemos sonhar por eles, mas sonhar com eles”. Ao lado de quem, mesmo com os pés doendo, não para de caminhar.
A tentativa de silenciá-lo só evidencia o quanto sua palavra arde. Arde porque é verdadeira. Arde porque nomeia os responsáveis pela miséria. Arde porque recusa a caridade que humilha e exige a justiça que liberta.
Padre Júlio nos lembrou que “parece que vamos perder, mas vamos continuar, porque um dia a vitória vai chegar”. Hoje, devolvemos a ele essas palavras: não está sozinho. A solidariedade de quem luta não se mede em likes ou transmissões ao vivo — mede-se na recusa coletiva de aceitar que quem defende os pobres seja tratado como criminoso.
Toda solidariedade ao Padre Júlio Lancellotti.
Nenhum retrocesso será naturalizado.
A luta por dignidade não será silenciada.
Diretoria do Sindipetro Unificado
“Nossos pés doem, mas não podemos deixar de caminhar.”
Padre Júlio Lancellotti








