Recorde de lucro da Petrobras saiu do bolso da população, aponta especialista

Aumento da produção de petróleo e venda de ativos explicam lucro, que poderia ser maior não fosse o desmonte da empresa

Atual gestão tem privatizado ativos e investido no aumento da produção de óleo cru, em detrimento do refino (Foto: Guilherme Weimann)

Por Cristiane Sampaio, do Brasil de Fato

A Petrobras fechou o ano de 2019 com lucro líquido de R$ 40,137 bilhões, um recorde na história da empresa, apesar da baixa de 2,6% nas receitas por conta da queda nas cotações internacionais do petróleo. O economista Cloviomar Cararine, técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), afirma que o número não chega a ser surpreendente.

Em primeiro lugar, segundo ele, por conta das estatísticas da companhia no ano passado, quando, até o terceiro trimestre, já havia sido registrado lucro acima de R$ 30 bilhões. Além disso, a estatal bateu recorde também em 2019 no que se refere à produção de petróleo e gás, superando a marca de 3 milhões de barris por dia.

O economista pontua ainda que o balanço do ano não é inesperado também por conta do perfil da empresa. “Ao contrário do que a mídia e a própria empresa vêm alardeando de que é um lucro imenso, isso não é bem verdade. Se você olhar os lucros dela de 2008 a 2013, por exemplo, vai achar lucros em torno de R$ 30 bi a R$ 35 bi, na época. Se você transfere esse valor pra hoje, a gente estaria falando de valores de R$ 60 bi ou R$ 58 bilhões de lucro”, calcula o técnico, acrescentando que a companhia chegaria a patamares mais elevados se estivesse seguindo outros rumos, sem desvalorização dos seus ativos.

“Ela é uma empresa que produz muito petróleo, tem um mercado consumidor de derivados muito grande, que é o Brasil – país é o 7º maior mercado de consumidor de derivados do mundo –, tem um custo de produção muito baixo, tanto de petróleo quanto de refino, e ainda uma capacidade instalada imensa de refino. Então, ela é uma empresa muito rentável”, sublinha.

O diretor de Comunicação da Federação Única dos Petroleiros (FUP), Alexandre Finamori, chama atenção ainda para outras questões. Ele pontua que os lucros volumosos da atualidade têm por trás a redução da empresa, que vem sendo fatiada pelo governo, além de outras coisas. “Não surpreende porque, na verdade, esses números são a partir do encarecimento dos combustíveis que a população está pagando no dia a dia. Você pode ver que a política nacional de preços, o PPI [Preço de Paridade de Importação], coloca o gás de cozinha em torno de R$ 70, R$ 80. Mas grande parte do lucro é também de desinvestimento, venda de ativos, ou seja, do desmonte da própria empresa”.

Estatal ampliou o preço da gasolina nas suas refinarias em 28%, enquanto o diesel subiu 19% e o gás 10% (Foto: Guilherme Weimann)

O cenário tem ainda uma conexão indireta com a pauta da última greve dos petroleiros, que se encerrou temporariamente na quarta-feira (19). O movimento, que perdurou por 19 dias, foi motivado por demissões em massa feitas pela Petrobras no Paraná.

“Essas demissões estão ocorrendo por conta da opção política da empresa de vender bases e fechar bases. As privatizações, o desmonte da empresa levam às demissões em massa, que são a causa da nossa greve”, conecta Finamori.

Onda de privatizações

Em julho do ano passado, por exemplo, a estatal já havia arrecadado cerca de R$ 57 bilhões com a onda de privatizações. Um acordo firmado entre a empresa e o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) em junho do ano passado prevê a venda de oito refinarias até 2021.

Embalada pela cartilha neoliberal do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e do ministro da Economia, Paulo Guedes, a direção da companhia tem dito que pretende fazer da Petrobras um polo cada vez mais concentrado na exploração de petróleo e gás, com venda dos demais ativos para a iniciativa privada. Disso resulta a venda das refinarias.

Petroleiros e especialistas têm apontado que essa política reduz o papel da empresa, fazendo ainda com que ela deixe de gerar um número elevado de empregos, uma vez que parte do parque industrial já existente passa a pertencer a outras firmas.

Para o economista Cloviomar Cararine, ao traçar essa rota, a empresa deixa de cumprir aquilo que se espera de uma companhia pública. No caso da Petrobras, ele ressalta que a estatal tinha como objetivo essencial o “abastecimento do mercado nacional com quantidade de produtos e com preço justo”.

“Essa Petrobras que está aí hoje, com lucros altíssimos, é uma empresa que não está garantindo mais o abastecimento nacional, está operando com uma carga reduzida nas suas refinarias e está abrindo espaço pras importadoras venderem seus produtos aqui, enquanto ela aumenta a exportação de petróleo. Isso abre espaço pra que a gente fique cada vez mais dependente da importação de derivados. Isso sem contar que ela vem praticamente preços que não são justos”.

Em 2019, por exemplo, a Petrobras ampliou o preço da gasolina nas suas refinarias em 28%, enquanto o diesel subiu 19% e o gás 10%. Ao mesmo tempo, a inflação esteve em cerca de 4%.

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