Guerra reforça a necessidade de o Brasil ampliar investimentos em fertilizantes

A volta da Petrobrás ao setor de fertilizantes e a retomada de unidades hibernadas ajuda em parte a mitigar os impactos da guerra no Oriente Médio; mas o Brasil ainda precisa diminuir sua dependência externa e aumentar investimentos

Ataques com misseis ações coordenadadas entre Estados unidos e Israel contra a população iraniana (Foto: RS/Via Fotos Publicas)

[Por Marcelo Aguilar, com informações da FUP]

A nova aventura de guerra de Estados Unidos e Israel no Oriente Médio, que tem como principal alvo o Irã, e o fechamento do Estreito de Ormuz, sinalizam para uma elevação dos preços internacionais do petróleo e de outros insumos que utilizam essa rota, como os fertilizantes importados pelo Brasil. Mais uma vez, conflitos à escala global escancaram os impactos da saída da Petrobrás do setor de fertilizantes, que deixaram o Brasil dependente de importações em um setor essencial para garantir a produção do país e sua soberania alimentar.

Em fevereiro de 2022, o então presidente brasileiro Jair Bolsonaro foi à Rússia, segundo ele, para garantir o fornecimento de fertilizantes, em meio à guerra na Ucrânia. Seria louvável, se o próprio presidente não tivesse fechado a fábrica de fertilizantes do Paraná (Fafen-PR) em Araucária, demitido seus trabalhadores, fato que deflagrou a histórica greve dos petroleiros de 2020. Após o golpe de 2016, a Petrobrás foi se retirando do setor de fertilizantes, assim como de outros setores, com privatização de diversas unidades, aumentando a dependência do Brasil de insumos externos e colocando em xeque sua soberania alimentar. Segundo o Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep), a elevada dependência externa atual decorre, em grande medida, desse processo de descontinuidade produtiva iniciado em 2016, com a paralisação das Fábricas de Fertilizantes Nitrogenados. Como resultado, “o país ampliou sua exposição às importações e reduziu sua capacidade de coordenação estatal em um setor sensível à segurança do abastecimento e à soberania nacional, aprofundando vulnerabilidades diretamente relacionadas à produção de alimentos e à estabilidade econômica”.

Retomada mitiga em parte efeitos da guerra

O presidente Lula com os trabalhadores readmitidos pela ANSA, em Araucária-PR (Foto: Ricardo Stuckert)

Os petroleiros e as petroleiras foram fundamentais para barrar a privatização total do Sistema Petrobrás e resistiram bravamente durante o governo Bolsonaro, assim como ajudaram a eleger Luiz Inácio Lula da Silva. Após a vitória eleitoral, se engajaram na construção do programa de governo, focado no fim das privatizações, no fortalecimento do Sistema Petrobrás, na retomada dos investimentos e no fim do Preço de Paridade de Importação (PPI). Um programa focado numa Petrobrás à serviço de uma nação soberana.

Os resultados estão aparecendo, mesmo que insuficientes. Arrendadas à empresa Unigel desde 2020, também no governo Bolsonaro e paralisadas desde 2023 por inoperância da empresa, a Petrobrás retomou o controle das Fafen da Bahia e de Sergipe em maio de 2025. Segundo nota enviada pela Petrobrás à agência de notícias Reuters essa semana, a volta das operações das Fafen da Bahia e Sergipe, que estão operando em 90% da sua capacidade, tem conseguido mitigar os impactos da guerra no Oriente Médio. Juntas, as fábricas têm capacidade de produzir 12% da demanda de ureia no Brasil e já estão vendendo ureia da Petrobrás a granel para clientes da Bahia, Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, Espírito Santo e São Paulo. Nesse sentido, a Petrobrás também anunciou que iniciou a contratação das empresas que serão responsáveis por concluir o empreendimento, cujas obras estão paralisadas e poderiam ser retomadas ainda em 2026.

Ampliação necessária

Porém, mesmo com a retomada em curso, esse tipo de guerras e conflitos à escala global escancaram uma realidade que a Federação Única dos Petroleiros (FUP) reforça permanentemente: a necessidade de ampliação imediata de investimentos no parque de fertilizantes brasileiro. Em nota, a FUP apresenta demandas como a planta de amônia e ureia verdes da fábrica de Fertilizantes Nitrogenados da Bahia (Fafen-BA) – projeto defendido pela FUP junto à diretoria de Transição Energética e de Processos Industriais da Petrobrás; o avanço das obras de conclusão da unidade de fertilizantes de Mato Grosso do Sul (UFN3) e finalização segura e breve da manutenção da fábrica de fertilizantes do Paraná (Fafen-PR).

Segundo o Ineep, embora estas iniciativas “representam um movimento importante no sentido da recuperação da produção nacional, ainda não alteram estruturalmente o quadro de dependência externa do país no curto prazo”. Para o Ineep, é necessário dimensionar o alcance desse movimento: “as fábricas deverão atender cerca de 12% da demanda nacional de ureia. Isso significa que o Brasil continuará com aproximadamente 85% de dependência externa desse insumo estratégico. Em 2025, a dependência brasileira de fertilizantes intermediários permaneceu superior a 90% e, no caso dos nitrogenados, próxima de 95%, evidenciando a vulnerabilidade acumulada ao longo da última década”.

Para a FUP, “são essenciais investimentos em fontes alternativas, energias renováveis, combustíveis do futuro e biorrefinarias, além da produção de bioinsumos, a partir, por exemplo, do cultivo da macroalga Kappaphycus alvarezii, no litoral brasileiro ou das culturas convencionais que são dependentes de fertilizantes, trazendo o setor como peça chave na transição energética. Em paralelo, são necessários investimentos na produção de óleo e gás na Margem Equatorial e na ampliação da capacidade de refino do país, sem perder de vista os campos maduros e, visando a maior disponibilidade de oferta para atender a demanda interna e conter a inflação”.

O coordenador geral da FUP, Deyvid Bacelar, contextualiza a necessidade do momento histórico: “Mais do que em qualquer outro tempo histórico, os investimentos em exploração e produção de petróleo, bem como na expansão do parque de refino e renováveis são estratégicos para a manutenção da soberania nacional e mitigação dos efeitos gerados por um cenário de possível recessão global, a partir deste conflito bélico de proporção global”.

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