Comunidade Segura: a Luta Pela Paz no Parque Savoy City

Com apoio da Transpetro e Petrobrás, projeto transforma o território ao integrar ações de esporte, segurança, empregabilidade e apoio social

Crianças treinando no centro esportivo da Luta Pela Paz, uma das iniciativas do projeto Comunidade Segura no Savoyzinho (Foto: Vítor Peruch/Sindipetro Unificado)

Por Vítor Peruch

Na Zona Leste de São Paulo, no bairro Parque Savoy City, o projeto Comunidade Segura, liderado pela organização Luta Pela Paz, busca transformar realidades de vulnerabilidade em locais de esperança e oportunidades. O projeto, que conta com o apoio da Petrobrás e a Transpetro, promove ações voltadas para a segurança, o esporte, a assistência social e a empregabilidade, com o objetivo de melhorar a qualidade de vida e reduzir os riscos enfrentados pelos moradores da região.

O ponto de partida para a criação do Comunidade Segura foi a grave ameaça representada pelas derivações nos dutos de gás e petróleo que atravessam a região. Esses furos nos dutos são delitos cometidos para desviar o combustível, colocando em risco a vida de milhares de pessoas, um crime extremamente perigoso e que pode causar explosões catastróficas. Essa situação de risco constante para os moradores, somada à precariedade da infraestrutura local, chamou a atenção de líderes comunitários e organizações sociais, que decidiram agir.

Adoracion de Castro, moradora da região e assistente social da Unidade Básica de Saúde (UBS) e também do Comunidade Segura, explica o contexto de risco: “Estamos falando de um lugar onde as pessoas não têm CEP, não têm coleta de lixo adequada, e ainda vivem sob o risco constante das faixas de dutos. Aqui, tudo se mistura: o movimento social, as demandas por direitos básicos e a luta para melhorar o lugar onde se vive”. Para ela, a segurança no bairro vai além da questão da violência; é preciso garantir que os moradores não sejam vítimas de tragédias como as explosões causadas pelas derivações ilegais.

A assistente sociai Adoracion de Castro atua no projeto Comunidade Segura promovendo dignidade e inclusão no Parque Savoy City (Foto: Vítor Peruch/Sindipetro Unificado)

Adoracion atua como um pilar na luta por melhorias na comunidade. Trabalhando na Unidade Básica de Saúde (UBS) e no projeto Comunidade Segura, ela conecta demandas sociais com soluções práticas, sempre com o objetivo de transformar realidades. “Eu saio de casa para mudar a saúde pública do país”, afirma, resumindo seu compromisso em enfrentar os desafios da precariedade local, como a falta de infraestrutura e os riscos associados às derivações ilegais de dutos. Adoracion explica ainda que, quando “Quando tiro o avental da UBS e venho para cá na Luta Pela Paz, a gente tem a possibilidade de enxergar o que essas pessoas têm de mais rico. Mais que resiliência: a resistência”.

O Comitê de Impacto Coletivo e a liderança comunitária

O Comunidade Segura foi estruturado em torno de um Comitê de Impacto Coletivo, formado por lideranças locais e representantes da sociedade civil, como Pato, presidente da Associação Savoyzinho, e outros atores essenciais da comunidade, como representantes da área de saúde, da educação, da coleta de lixo e de outras associações que lutam por melhorias no território. O Comitê busca unir diferentes forças para enfrentar os problemas mais urgentes da região e garantir que as ações do projeto sejam eficazes.

Pato é Paulo Henrique Luis, líder comunitário da Associação Savoyzinho e uma das vozes mais ativas no comitê. Hoje ele tem 55 anos, mas chegou à região ainda criança, aos sete anos: “Desde que cheguei, a luta pela comunidade tem sido minha vida. Fundei a Associação Savoyzinho em 2004 e, mesmo com altos e baixos, sempre busquei melhorias para todos que aqui vivem. Já tentei sair várias vezes, mas a luta me chama de volta”, diz ele, refletindo sobre sua dedicação contínua.

Ele detalha a trajetória de sua atuação: “Conseguimos avançar em algumas questões importantes, como a regularização junto à Eletropaulo (hoje ENEL) e à SABESP, o que melhorou bastante a situação da comunidade. Sempre tive um bom relacionamento com a Transpetro, e, com o tempo, a parceria com a Petrobrás no projeto Comunidade Segura se consolidou. Foi um momento decisivo para a gente, pois a comunidade, que vive sob a constante ameaça das derivações ilegais de dutos, começou a entender o risco que corria”.

Pato, liderança comunitária no Savoyzinho, atua há anos em projetos de melhoria no território e é integrante ativo do Comitê de Impacto do Comunidade Segura (Foto: Vítor Peruch/Sindipetro Unificado)

Pato também fala com orgulho sobre o impacto positivo que o projeto trouxe: “Através das atividades esportivas e dos cursos profissionalizantes, conseguimos conscientizar a comunidade sobre os riscos das derivações e o perigo real que corremos. O projeto Comunidade Segura tem sido fundamental, não só para a prevenção de tragédias, mas também para dar visibilidade ao trabalho que estamos fazendo aqui”.

Ele ressalta a importância da união de diferentes atores sociais: “O sucesso do projeto depende da colaboração entre várias entidades. Quando a Transpetro, a Petrobrás, a prefeitura, as associações e a comunidade se unem, conseguimos fazer a diferença. Estamos criando um ambiente de mais segurança e dignidade para todos, e a presença de todos esses parceiros tem sido essencial. A comunidade se sente acolhida e mais disposta a participar das ações”.

Além disso, Pato revela seus planos futuros: “Nosso objetivo é expandir as atividades da Associação e transformá-la em um instituto para atender melhor a população. Queremos oferecer educação de qualidade para jovens e adultos e criar mais espaços de acolhimento, principalmente para os idosos que estão esquecidos dentro de casa”.

Adoracion é enfática ao falar sobre a importância de Pato para todo o projeto: “A aproximação com o Pato foi muito profícua, porque ele conhece muito bem o território e tem uma visão muito estratégica”. Para ela, essa parceria é crucial para conectar as demandas da comunidade às ações do projeto e do comitê.

Segundo ambos, o Comitê de Impacto Coletivo tem sido a chave para mobilizar e articular as diferentes forças da comunidade em torno de soluções concretas para os problemas locais. Por meio de reuniões periódicas e a participação ativa de representantes da sociedade civil, como Pato e outros líderes, o comitê tem identificado as necessidades mais urgentes da região e coordenado ações intersetoriais para enfrentá-las. 

Ações de Empregabilidade 

O Comunidade Segura também se destaca pela implementação de ações focadas na empregabilidade e na capacitação profissional. Adoracion, como assistente social, enfatiza que a inserção de jovens e adultos no mercado de trabalho é uma das prioridades do projeto. “Quando a gente fala de empregabilidade, estamos falando de pessoas que precisam acreditar que podem mudar a sua realidade. A gente também busca dar essas ferramentas, para que eles possam se inserir no mercado e ter um futuro melhor”.

As ações de empregabilidade buscam preparar os moradores para as exigências do mercado de trabalho e dar a eles a possibilidade de conquistar a autossuficiência. A capacitação profissional tem sido um dos principais meios de garantir a dignidade dos moradores da região. 

Pato e Adoracion reconhecem que há melhorias a serem feitas, “Somos eternos insatisfeitos e sempre achamos que dá pra ser melhor, ser diferente, aprimorar as coisas e para isso não medimos trabalho e dedicação”, afirma a Assistente Social. Pato explica uma dessas melhorias, no que diz respeito ao projeto de empregabilidade: “Estamos tentando também levar esses cursos para os adultos, pois muitas mães dos nossos atendidos também  gostariam de estar participando, mas infelizmente a faixa etária que temos aqui é até 29 anos e isso atrapalha um pouco o envolvimento maior da comunidade. Por isso fizemos a proposta de subir esta faixa etária, pois todos da comunidade querem participar”. 

“Para mim, o esporte é vida. Aqui é minha segunda casa”

Outra área fundamental do Comunidade Segura é o esporte. As atividades esportivas, como o boxe e muay thai, são oferecidas gratuitamente para jovens da região, com o objetivo de promover a saúde física e mental, além de desenvolver disciplina e responsabilidade. O esporte, segundo os coordenadores do projeto, é uma forma de resistência à violência e à criminalidade.

Para a aluna Isabelle, de 14 anos, o esporte começou como uma recomendação médica para ajudar a controlar a diabetes, mas se transformou em uma paixão. “Com 10 anos, eu descobri que tinha diabetes. Passei no médico e eles falavam que eu tinha que ir atrás de um esporte”, relembra. Foi no ringue que ela encontrou sua motivação: “Subi no ringue, lutei, me apaixonei e não quis sair mais”. Hoje, entre treinos de boxe e Muay Thai, ela afirma: “O esporte me ajudou muito a controlar a diabetes. Para mim, o esporte é vida. Aqui é minha segunda casa, como se fosse uma terapia”.

A dança que move o território

Para Adoracion, o sucesso do projeto está na articulação entre diferentes atores. Ela explica: “Quando juntamos as potências, 1+1 é sempre mais que dois. Tudo se mistura e acomoda aqui, acomoda ali. Não é um jogo político, mas é uma dança interessante. E a música que toca é a seguinte: o Savoyzinho tem que ser melhor. As pessoas que moram no Savoyzinho merecem que ele seja melhor”. Para ela, a transformação do território depende da ação conjunta. “Enquanto assistente social, enquanto militante do movimento, enquanto parceira de Pato e de Nena (Presidente da Associação Flores do Carmo), e estando na Comunidade Segura, cabe a nós fazer. Não podemos falar ‘eu acho’, tem que fazer e acabou. E é onde a dança funciona”. A dança, para Adoracion, é a construção constante de um futuro melhor para a comunidade, feita de pequenos gestos e decisões coletivas.

Ela enfatiza que “aqui tem gente”, e por isso, a luta nunca pode ser negligenciada. “Onde tem gente, tem vida, e onde tem vida, tem sonho e tem criança, e tem mulheres, e tem gente preta, gente nordestina, tem gente”. Para Adoracion, o compromisso com essas pessoas é absoluto, sem espaço para hesitação e não há espaço para fazer promessas vazias ou discursos que soem bonitos nas redes sociais; a realidade exige ação, e isso está no coração de seu trabalho.

Ela alerta que, mesmo com todos os avanços, a continuidade do projeto é crucial. “Se eu fosse um capa-preta da Petrobrás, da Transpetro, eu não conseguiria dormir sabendo que era só um risco da minha caneta que a coisa se resolvia. É uma responsabilidade hercúlea de falar ‘Não vou fazer’. Quando vamos dando a dimensão da faixa de duto, a gente tem um pouco mais de 4050 pessoas que moram aqui, de várias cidades, e a gente tem apenas dois hospitais que estão prontos para atender os queimados em caso de uma tragédia”.

O projeto Comunidade Segura, portanto, é visto por Adoracion como uma luta contínua, mas uma luta que vale a pena. “Não continuar com o projeto, meu lado comunista diria que seria um erro histórico, meu lado beata diria que é um sacrilégio”. 

O Comunidade Segura já beneficiou mais de 700 crianças e impactou a vida de mais de 4.050 pessoas da região do Parque Savoy City. Além de trazer mais dignidade à população que vive nas proximidades da faixa de dutos, o projeto contribuiu para coibir as derivações ilegais, promovendo maior segurança e bem-estar.

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