Mobilização nacional paralisa refinarias estratégicas e enfrenta violência policial na Reduc, escancarando a tensão entre os trabalhadores e a gestão da Petrobrás; veja os atos da Replan e Recap

[Por Vítor Peruch]
O primeiro dia da greve nacional dos petroleiros e petroleiras no Sistema Petrobrás, iniciada à zero hora desta segunda-feira (15), foi marcado por forte adesão em unidades estratégicas do país, paralisações completas no refino paulista e por um grave episódio de repressão policial contra grevistas na Refinaria Duque de Caxias (Reduc), no Rio de Janeiro. A mobilização, que ocorre por tempo indeterminado, expressa o esgotamento da categoria diante da postura considerada intransigente da gestão Magda Chambriard nas negociações e reacende o debate sobre o papel da Petrobrás como empresa pública a serviço do povo brasileiro.
Unidade na luta
Em São Paulo, dois dos principais polos do refino nacional amanheceram sem rendição de turno. Na Refinaria de Paulínia (Replan), em Paulínia, a paralisação atingiu integralmente as operações, com entrega das unidades às equipes de contingência. O movimento se estendeu à Transpetro Paulínia, onde o sistema de polidutos passou a operar em regime emergencial, e à Estação de Compressão da TBG, que permaneceu totalmente parada pela ausência de contingente substituto. A adesão expressiva reforça o peso político e produtivo da greve no estado, especialmente em uma refinaria que historicamente cumpre papel central no abastecimento nacional.
Na porta da Replan, o diretor do Sindipetro Unificado, Itamar Sanches, destacou o caráter coletivo da mobilização e fez um chamado direto aos aposentados, aposentadas e pensionistas, ressaltando que a greve também é atravessada pela crise do fundo de pensão. “Me dirijo especialmente aos aposentados, aposentadas e pensionistas porque, neste ano, uma das principais pautas é a resolução dos problemas do fundo de pensão que está corroendo nossa aposentadoria. A greve, a gente sabe como começa, mas não sabe como termina. Por isso, é fundamental o apoio não só institucional, via sindicato, mas a presença concreta nas refinarias e nas principais bases da Petrobrás. Essa luta é de quem está na ativa, mas também de quem dedicou a vida inteira à empresa e hoje vê seus direitos ameaçados”, afirmou.
Também na Replan, o coordenador geral do Sindipetro Unificado, Steve Austin, esteve presente no ato e afirmou que a greve foi deflagrada após o esgotamento de todas as tentativas de negociação com a empresa. Segundo ele, a mobilização nacional é uma resposta direta à falta de avanços nas mesas de diálogo e à postura da gestão da Petrobrás. “Fizemos todos os esforços na mesa de negociação e não tivemos avanço. Esperamos que agora a empresa, sim, venha negociar com os trabalhadores mobilizados. De norte a sul, os petroleiros estão em greve, nas plataformas, nas refinarias, e aqui na Replan não é diferente: todas as portarias já estão paradas. Os aposentados também estiveram presentes, somando-se a parlamentares, sindicatos e movimentos sociais da região, em um grande ato que deu um recado claro à Petrobrás”, declarou.
A mobilização também foi contundente na Refinaria de Capuava (Recap), em Mauá, onde não houve rendição de turno e os trabalhadores mantiveram o controle do movimento desde as primeiras horas do dia. A Recap, símbolo histórico da organização operária no ABC paulista, voltou a ser palco de assembleias combativas e discursos que resgataram a memória de greves duras travadas pela categoria ao longo das últimas décadas.
Durante o ato, o diretor do Sindipetro Unificado, Pedro Augusto, relacionou a paralisação atual a uma sequência de quebras de compromisso por parte da gestão da Petrobrás e denunciou a escalada autoritária contra o direito de greve. “Esse vídeo da agressão na Reduc não é só indignação, é combustível para a luta. Dois trabalhadores foram violentamente atacados, desarmados, exercendo um direito democrático, num piquete tranquilo, porque alguém decidiu chamar a polícia para enfrentar os petroleiros. Isso tem responsáveis: a PM do Rio de Janeiro, sim, mas também a gestão da Petrobrás, que provoca esse tipo de cenário ao se recusar a negociar com seriedade. Não é a primeira vez que isso acontece. Já vimos esse filme em 2015, com prisões arbitrárias e acusações inventadas. Chegamos à greve porque não há confiança numa mesa onde o que é acordado hoje é desdito amanhã. A categoria não aceita imposição, nem retrocesso, nem desrespeito”, afirmou.
Ambiente truculento
Se em São Paulo a greve avançou com força, no Rio de Janeiro o primeiro dia do movimento foi atravessado por um episódio grave de repressão. Na Refinaria Duque de Caxias (Reduc), a Polícia Militar prendeu de forma violenta o secretário-geral do Sindipetro Caxias, Marcello Bernardo, e o cipeiro Fernando Ramos, durante um piquete pacífico. Ambos foram algemados, levados à delegacia e liberados horas depois, em uma ação amplamente repudiada pelas entidades sindicais e registrada em vídeos que circularam nas redes sociais ao longo do dia.
O diretor do Sindipetro Unificado, Juliano Deptula, classificou o episódio como resultado direto da combinação entre um Estado truculento e uma gestão empresarial que se recusa a ouvir os trabalhadores. “Essa agressão em Duque de Caxias não acontece por acaso. Ela é fruto de um governo estadual opressor e de uma gestão da Petrobrás que se nega a sentar à mesa e respeitar a categoria. O trabalhador está sendo tratado como bandido por exigir o básico: ser ouvido numa campanha salarial. Enquanto isso, a riqueza que produz é entregue ao capital privado”. Deptula ainda criticou a gestão Magda: “O papel de uma estatal não é gerar lucro para investidor, mas distribuir riqueza ao povo brasileiro, por meio de emprego, tecnologia e políticas públicas. Quando a gestão abandona esse papel, abre espaço para a repressão, para a criminalização da luta e para ataques que não aceitaremos”.
Veja o vídeo divulgado pelo Sindipetro Unificado em solidariedade com os companheiros agredidos:
https://www.instagram.com/reel/DSSLBLmDoa1/?igsh=MWs0cjhvNms1ZzBwdg==
A greve é nacional
Além da Replan, da Recap e da Reduc, a greve teve adesão expressiva em outras unidades do Sistema Petrobrás, incluindo plataformas da Bacia de Campos, campos terrestres da Bahia, a Unidade de Tratamento de Gás de Cabiúnas (UTGCAB), terminais da Transpetro, unidades da TBG e da PBio. Em diversas plataformas, trabalhadores entregaram a produção às equipes de contingência e solicitaram desembarque, enquanto sindicatos denunciaram tentativas de chefias de dificultar esse direito.
Os atos realizados no primeiro dia da greve nacional dos petroleiros contaram com ampla solidariedade de sindicatos e movimentos sociais, reforçando o caráter coletivo e nacional da mobilização. Estiveram presentes dirigentes e militantes da Central Única dos Trabalhadores (CUT), do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), do Movimento Sem Terra (MST), além de sindicatos de categorias históricas da classe trabalhadora, como o Sindicato dos Metalúrgicos, o Sindicato dos Metalúrgicos de Campinas e o Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção e do Mobiliário de Campinas e Região.
O primeiro dia de paralisação deixou claro que o movimento não se limita a reivindicações pontuais. A greve expressa um conflito mais amplo sobre o modelo de gestão da Petrobrás, a valorização do trabalho, o respeito à democracia sindical e o papel estratégico da empresa para o desenvolvimento nacional. Diante da repressão, da intransigência e do descumprimento de acordos, a categoria sinaliza que seguirá mobilizada, com unidade entre ativos e aposentados, até que suas pautas sejam efetivamente atendidas.












