“A pobreza não é por acaso, ela é planejada”, aponta padre Júlio Lancelotti

Nesta entrevista exclusiva, padre Júlio Lancelotti reflete sobre solidariedade aos mais vulneráveis e luta contra o sistema: “remar contra a maré é difícil” 

pobreza
Padre é referência no acolhimento às pessoas em situação de rua (Foto: Guilherme Weimann)

Por Guilherme Weimann e Marcelo Aguilar

Nos últimos anos, diversos analistas apontam o recrudescimento da polarização política no Brasil. Mesmo sem negar esse acontecimento no caso da política institucional, outras correntes teóricas defendem que essa disputa [ou massacre] é inerente ou pressuposto básico ao atual sistema político-econômico. O padre Júlio Lancellotti define esse fenômeno de uma maneira bem didática: 

“No capitalismo, para que um esteja no iate, outro tem que estar na canoa”

E outros, ainda segundo Lancellotti, enfrentam a tempestade atual a nado, sem nenhum tipo de suporte contra as intempéries do sistema. São justamente essas pessoas que o padre Júlio Lancellotti dedica sua vida e seu trabalho, ou seja, aos mais desfavorecidos, às pessoas em situação de rua, aos pobres, ou simplesmente aos “últimos”, como tem definido o Papa Leão XIV. 

Essas e outras reflexões estão expostas nesta entrevista exclusiva, realizada antes do evento organizado pelo Fundo Haja, em Campinas (SP), no dia 17 de outubro, na sede do Sindipetro Unificado.  

Confira na íntegra:

O senhor já disse que estamos todos na mesma tempestade. Mas alguns a enfrentam de iate e outros a nado. Se nos permite acrescentar, na mesma tempestade, tem gente enfrentando também com barquinhos ou com canoas. Como criar uma solidariedade entre os que estão a nado e os que estão lutando com essas embarcações menores?

Acredito que usando essa imagem, na qual existem várias formas de embarcação, a sociedade não é linear, ela é complexa. Pode haver solidariedade no iate, como pode haver solidariedade na canoa. E pode não haver solidariedade nem no iate, nem na  canoa e tampouco nos que estão a nado. Porque cada um está se afogando e vai tentar resolver da sua maneira. Imagine se num desses barcos tiver uma boia, e jogar a boia no mar, alguém que está a nado ofereceria a boia para outro que precisa mais? Então, a solidariedade numa sociedade desigual, ela está presente de diferentes maneiras, está ausente ou presente, e presente de uma forma que não para a tempestade e nem acaba com a desigualdade. Por isso, toda nossa atividade é conflitiva, contraditória, paradoxal, nada é linear, tudo é extremamente complexo. Nós podemos pedir que todos se ajudem, só que isso não é a mentalidade do mar que nós estamos nadando.

Nadar contra a corrente sempre é difícil, e muitas vezes nós estamos nadando contra a corrente. A ideologia dominante está na cabeça dos fracos também, e esse é o papel da ideologia dominante, dizer que aquele que está no iate mereceu, e aquele que está na canoa não mereceu, e às vezes o que está na canoa também pensa assim, que ele está na canoa porque não se esforçou o suficiente e a pessoa do iate está lá porque mereceu. A meritocracia, no sistema capitalista liberal, invade a todos. O que nós temos que fazer é despertar a solidariedade que está dentro de cada um, não somos a ideologia dominante. Precisamos promover a leitura crítica de quem está no iate, de que ele está lá no pico da pirâmide, da desigualdade que isso representa, de que não é ético nem moral que ele esteja lá. E precisamos mostrar ao que está na canoa de que esse não é o seu destino, mas que ele está lá porque, no capitalismo, para que um esteja no iate, outro tem que estar na canoa. 

Como o senhor definiria essa tempestade?

A tempestade é o sistema em que estamos vivendo. O Papa Francisco deixa isso muito claro na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, e agora o Papa Leão XIV na exortação apostólica Dilexi Te de que a pobreza não é por acaso. Ela é planejada, a falta de moradia também é planejada. Nunca se construiu tanto nas nossas cidades, e nunca teve tanta gente sem ter onde morar. Então, como é que se explica que tanta moradia seja feita? É que ela é feita para especular, para investimento. Não é feita para que todos tenham onde morar. É para que um pequeno grupo seja privilegiado, quando aqueles que constroem a casa, nela não habitarão. 

O senhor vive de perto as piores consequências desse capitalismo selvagem que estava descrevendo. Durante o governo Bolsonaro, as pessoas voltaram a cozinhar com lenha, por conta dos preços abusivos do gás de cozinha. Como o senhor avalia as disputas em torno da Petrobrás e qual considera que é a sua importância estratégica para o país?

É difícil analisar, isso tem muitas particularidades. Mas, a gente tem que começar a pensar na questão do meio ambiente, na questão de uma energia alternativa, de que continuarmos na energia fóssil, do petróleo, é envenenar mais o mundo e a natureza. Acredito que precisamos encontrar outros caminhos, outras formas de energia alternativa, para que possamos ter um modelo de desenvolvimento que não seja esse que nós temos. Esse modelo é autofágico, ele se esgota, ele destrói a vida. Agora, você vê, eu estive no Nordeste recentemente e vi as torres de energia eólica, e me contaram todos os problemas que esses aparelhos causam para a população próxima. Nós temos que encontrar formas de energia que não destruam a vida, que não perturbem a saúde mental das pessoas, que não destruam a natureza, que não envenene a água e os peixes, que tenha condições de que essa água possa irrigar a terra. Não é possível que não saibamos, no nível de desenvolvimento que estamos, como sair dessa lógica que é a lógica que mata. 

Seu trabalho reverbera nacional e internacionalmente, mas está fincado na cidade de São Paulo. Como o senhor analisa as políticas, tanto da prefeitura quanto do governo do Estado em relação aos menos favorecidos?

Uma coisa que me incomoda é esse conceito de desfavorecidos. O que significa desfavorecido? Em alguma coisa eu também sou desfavorecido. O Papa Leão usa agora o termo de “os últimos”. O sistema é feito para mantê-los em último lugar. Tudo o que nós chamamos de política pública dentro do sistema capitalista neoliberal é a manutenção da miséria. Então, enquanto esse modelo não mudar, e isso diz o Papa Francisco, a lógica do sistema capitalista neoliberal é o descarte. Então, nós não mudaremos o descarte e não estancaremos o descarte enquanto não mudarmos o modelo. Mas a mudança do modelo é demorada, é conflitiva, é histórica, muitos de nós vamos cair e tombar antes. Eu tenho claro que não verei essa mudança, eu luto por ela, mas não a verei. Acho que esse é o nosso caminho histórico, eu não luto para ver o resultado, eu acredito que outros verão, mas eu terei que lutar minha parte agora para que um dia alguém veja e viva esse resultado, eu acredito que ele vai demorar, eu já terei virado pó há muito tempo se isso acontecer, mas é um pó que vai ajudar a irrigar e fertilizar a terra onde a esperança vai brotar. 

Nesse sentido, o que o emociona, o que ainda faz com que o senhor continue acreditando que é possível em meio a tanta desumanização?

Olha, como eu disse, remar contra a maré é difícil. Às vezes a gente fica muito machucado, muito ferido. A gente carrega muitas cicatrizes, eu na idade em que estou tenho muitas cicatrizes e muitas marcas, mas são as marcas do amor, e as marcas de ter lutado. Eu sei que na história um dia se poderá dizer, ‘aqueles que lutaram, que a gente nem lembra mais, não lutaram em vão’.

Como o senhor lida com esse ecossistema de ódio, do qual é vítima permanente?

Eu tenho clara uma convicção: quem está do lado dos desprezados, vai ser desprezado também. Quem está do lado dos que apanham, vai apanhar também. Enquanto você está do lado de quem é pisado, você vai ser pisado também. É uma lógica. O tempo todo ficam me falando, ‘vem pro lado de cá, que aqui você não vai se machucar’. E aí a gente insiste em ficar daquele lado, então você vai apanhar. Aqui [no sindicato], vocês não apanham nessa cidade? Esse local aqui é bem visto pela cidade? Eles dizem que vocês são um bando de que? Como é que a gente aguenta? A resposta talvez seja aguentando, se mantendo firme e resistindo. Sabendo que a gente escolhe um lado, esse lado tem um preço. Um lado sabe que vai ganhar e vai ficar de boa. A gente tem que saber perder, mas nós não sabemos perder. Para ganhar mais para frente, ou quem sabe um dia ganhar, sem ter certeza, a gente tem que lutar sem ter medo de perder, e acreditar na nossa luta. 

O maior problema é o Bolsonaro que mora dentro de nós. Porque dentro de nós também tem um bolsonarinho, a gente tem que dominar ele, porque a gente reproduz muito o poder, a autoridade, isso está dentro de nós. A gente quer negar o conflito, e aí faz aliança e quando você faz aliança com a direita, eles vão te devorar. 

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