Semana nacional de mobilizações termina com cobrança por acordos firmados e defesa da reestatização

Após uma semana de atos em diferentes unidades do Sistema Petrobrás, categoria encerra mobilização na Recap cobrando respeito aos acordos e defendendo um projeto de reconstrução da empresa pública

Petroleiros e petroleiras participaram, nesta sexta-feira, do encerramento da semana nacional de mobilizações na Refinaria de Capuava (Recap), em Mauá, em defesa do cumprimento dos acordos firmados com a Petrobrás e da retomada das negociações (Foto: Vítor Peruch/Sindipetro Unificado)

Por Vítor Peruch

Depois de cinco dias de mobilizações em diferentes unidades do Sistema Petrobrás, petroleiros e petroleiras encerraram nesta sexta-feira (26) o calendário nacional de atos convocado pela Federação Única dos Petroleiros (FUP) e seus sindicatos filiados.Entre as bases do Sindipetro Unificado, a Refinaria de Capuava (Recap), em Mauá (SP), foi o último palco das manifestações que, desde o início da semana, reuniram trabalhadores e trabalhadoras em defesa do cumprimento dos compromissos assumidos pela direção da Petrobrás durante as negociações que encerraram a greve nacional do fim de 2025.

Ao longo da semana, a mobilização percorreu diferentes segmentos da companhia. Na terça-feira, trabalhadores realizaram atos nos terminais da Transpetro em São Caetano do Sul, Barueri, Guararema, Guarulhos e Senador Canedo (GO). Na quarta-feira, a atividade foi levada ao Edifício Sede da Petrobrás em São Paulo (Edisp), considerado pelos dirigentes sindicais um espaço simbólico da defesa da empresa pública. Na quinta-feira, aposentados participaram das mobilizações nas bases do sindicato em Campinas, Mauá e São Paulo, enquanto petroleiros da Refinaria de Paulínia (Replan) manifestaram apoio aos trabalhadores da construção civil, que seguem em greve após impasse nas negociações salariais.

O ato desta sexta-feira, na Recap, encerrou uma semana de atividades que teve como eixo central a cobrança para que a gestão da Petrobrás cumpra os compromissos registrados em carta assinada durante a negociação do último Acordo Coletivo de Trabalho (ACT). Entre eles estão o início das negociações para um novo plano de cargos, a discussão do regramento da Participação nos Lucros e Resultados (PLR) e o avanço da mediação no Tribunal de Contas da União (TCU) para buscar uma solução para os Planos de Equacionamento de Déficits (PEDs) da Petros.

Para os dirigentes sindicais, a mobilização não representa uma ruptura das negociações, mas uma tentativa de preservar a credibilidade dos acordos firmados entre trabalhadores e empresa.

Coordenadora-geral da Federação Única dos Petroleiros (FUP), Cibele Vieira afirmou que a decisão de encerrar a greve de dezembro foi tomada após uma avaliação política da categoria, que optou por suspender a paralisação diante da possibilidade de judicialização do conflito: “A gente fez ali um recuo tático. Não saímos satisfeitos, mas também não era um mau acordo. Conseguimos avançar em vários pontos e, principalmente, construir compromissos que precisariam ser cumpridos nos meses seguintes”, afirmou.

Segundo ela, justamente por terem servido de base para a suspensão da greve, esses compromissos passaram a ter um peso ainda maior na relação entre empresa e trabalhadores: “O problema é que a Petrobrás sequer aceita sentar para negociar. Quando um acordo assinado deixa de ser cumprido, fica cada vez mais frágil a interlocução. Como confiar em quem negocia com você se aquilo que foi acordado não é respeitado?”, questionou.

A dirigente explicou que as reivindicações apresentadas nesta semana não tratam da imediata solução de todos os problemas levantados pela categoria, mas do início efetivo das negociações previstas na carta-compromisso.

“Quando um acordo assinado deixa de ser cumprido, fica cada vez mais frágil a interlocução”, afirmou a coordenadora-geral da Federação Única dos Petroleiros (FUP), Cibele Vieira (Foto: Vítor Peruch/Sindipetro Unificado)

Entre elas está a construção de um novo plano de cargos, considerado uma demanda histórica dos trabalhadores. Também fazem parte da pauta a negociação do regramento das próximas PLRs e a continuidade da mediação no TCU para buscar uma solução aos déficits da Petros.

Segundo a FUP, todos esses processos possuíam cronogramas estabelecidos durante as negociações do ACT, mas ainda não avançaram. Na avaliação do Sindipetro Unificado, a situação exige uma resposta organizada da categoria antes que a deterioração das negociações se aprofunde.

Durante o ato na Recap, o diretor do sindicato Pedro Augusto afirmou que a mobilização realizada na refinaria integra uma estratégia nacional construída conjuntamente pelos sindicatos da categoria: “Estamos dando um recado que não é só aqui na Recap. Essa mobilização está acontecendo em todo o refino e é fundamental que a gente faça parte desse processo. O que estamos pedindo é simples: o cumprimento do acordo e dos compromissos assumidos pela gestão da Petrobrás.”

Segundo ele, a experiência acumulada em mobilizações anteriores demonstra que a pressão organizada continua sendo um instrumento necessário para abrir negociações: “A gente sabe que é só mobilizando que consegue avançar quando do outro lado existe dureza na negociação. Já enfrentamos situações muito mais difíceis e conseguimos sair vitoriosos.”

“O que estamos pedindo é simples: o cumprimento do acordo e dos compromissos assumidos pela gestão da Petrobras”, afirmou o diretor do Sindipetro Unificado, Pedro Augusto (Foto: Vítor Peruch/Sindipetro Unificado)

Embora o foco principal da semana tenha sido o cumprimento dos compromissos nacionais, a mobilização na Recap também abriu espaço para reivindicações específicas da unidade.

Entre elas estão a implantação do Vale Alimentação para trabalhadores do horário administrativo (VAVR) e mudanças na política de transporte dos empregados.

De acordo com Pedro Augusto, são questões que afetam diretamente a rotina dos trabalhadores e que também dependem de organização coletiva para avançar: “São temas que às vezes parecem menores, mas têm impacto enorme na vida das pessoas. Falam de segurança, qualidade de vida e tempo com a família. E a forma de avançar nessas pautas é a mesma: organização e mobilização.”

Ao final da atividade, trabalhadores participaram do lançamento simbólico da campanha nacional Reestatiza Brasil, iniciativa que amplia o debate da categoria para além das reivindicações trabalhistas e busca discutir os efeitos das privatizações sobre o setor de energia e sobre o custo de vida da população.

Reestatização, reconstrução e disputa política

Se a cobrança pelo cumprimento dos acordos firmados com a Petrobrás foi o principal eixo das mobilizações desta semana, outro tema ganhou espaço em praticamente todos os atos realizados pelo país: a defesa da reestatização de ativos considerados estratégicos para a companhia e para a política energética brasileira.

Durante o encerramento da atividade na Recap, os trabalhadores lançaram oficialmente a campanha Reestatiza Brasil, iniciativa que pretende ampliar o diálogo da categoria para além das unidades da Petrobrás e discutir com a sociedade os efeitos das privatizações realizadas nos últimos anos.

Ao convocar os trabalhadores para o tradicional grito de guerra que encerrou o ato, o diretor do Sindipetro Unificado, Pedro Augusto, explicou que a campanha nasce com o objetivo de relacionar a estrutura do Sistema Petrobrás ao cotidiano da população: “A campanha visa justamente dialogar com a população que percebe o impacto dos preços dos combustíveis sobre sua renda. A saída que defendemos é a reestatização, em especial das distribuidoras, como a BR Distribuidora e a Liquigás, além das refinarias que foram vendidas”, afirmou.

Segundo o dirigente, a proposta é demonstrar que o debate sobre a propriedade desses ativos não interessa apenas aos petroleiros, mas também aos consumidores.

Ao final da atividade, trabalhadores repetiram pela primeira vez o novo lema da campanha: “Da refinaria ao fogão, sem exploração”, associando a discussão sobre combustíveis ao custo de vida das famílias brasileiras.

A defesa da reestatização foi apresentada pelos dirigentes como parte de um processo mais amplo de reconstrução do Sistema Petrobrás após o ciclo de privatizações ocorrido nos governos anteriores.

Durante sua intervenção na assembleia, o diretor do Sindipetro Unificado Juliano Deptulla afirmou que a categoria reconhece mudanças ocorridas nos últimos anos, mas avalia que ainda há divergências importantes na condução das relações de trabalho pela atual gestão da companhia: “É muito mais difícil reconstruir do que destruir”, afirmou. “A gente reconhece avanços, mas a empresa assumiu compromissos durante a negociação e o que estamos pedindo é apenas que cumpra aquilo que foi acordado.”

Segundo Deptulla, a reivindicação não é pela solução imediata de todos os temas em negociação, mas pela abertura efetiva das mesas previstas na carta assinada ao fim da greve: “Ninguém está pedindo uma simples e rápida solução para todos esses pontos. O que queremos é mesa de negociação, ser ouvido, construir junto.”

Ele também relacionou a mobilização nacional às demandas locais enfrentadas pelos trabalhadores da Recap. Entre elas, destacou as dificuldades de deslocamento até a refinaria, especialmente para empregados que passam várias horas em transporte coletivo antes e depois da jornada de trabalho: “O trabalhador precisa de tempo para descansar, conviver com a família e voltar para casa em segurança. Quando discutimos transporte, estamos discutindo qualidade de vida”, afirmou.

“Ninguém está pedindo uma simples e rápida solução para todos esses pontos. O que queremos é mesa de negociação, ser ouvido e construir junto”, afirmou o diretor do Sindipetro Unificado, Juliano Deptulla (Foto: Vítor Peruch/Sindipetro Unificado)

Outro aspecto recorrente nas falas dos dirigentes foi a tentativa de diferenciar o atual cenário político daquele enfrentado pela categoria durante os governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro: Para o diretor do Sindipetro Unificado Rodrigo Zanetti, a existência de um governo identificado com o campo progressista não elimina os conflitos entre trabalhadores e empresa: “Quando temos um governo de outro campo político, é mais fácil identificar quem quer desmontar a Petrobrás. Agora, quando temos um governo do nosso campo, convivemos com uma contradição permanente. Ao mesmo tempo em que cobramos a empresa, defendemos um projeto político para o país.”

Segundo ele, a Petrobrás permanece sendo um espaço de disputa entre diferentes interesses econômicos e sociais, o que exige mobilização permanente dos trabalhadores, independentemente do governo: “A empresa está sempre em disputa. O nosso papel é fazer pressão para que os interesses dos trabalhadores também sejam considerados.”

Essa avaliação foi reforçada pela coordenadora-geral da FUP, Cibele Vieira. Ao comentar a conjuntura política nacional e internacional, ela afirmou que as mobilizações da categoria ocorrem paralelamente à defesa da continuidade do projeto político representado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Segundo a dirigente, a reconstrução da Petrobrás iniciada nos últimos anos não elimina os conflitos trabalhistas, mas representa um cenário diferente daquele vivido durante o processo de privatizações: “Antes, a gente lutava para impedir que vendessem mais unidades. Agora estamos lutando para reestatizar o que foi privatizado. A Petrobrás voltou a crescer, voltou a investir. Os problemas que temos hoje são de outra ordem.”

Para Cibele, defender o cumprimento dos acordos firmados com os trabalhadores não contradiz o apoio político ao governo federal: “A gente pode estar tendo problemas com essa atual gestão da empresa na relação trabalhista, mas sabe muito bem o momento político que o país vive.”

Ela afirmou que a defesa da reeleição de Lula foi aprovada pela categoria durante as assembleias justamente por considerar que uma eventual mudança de governo poderia interromper o processo de reconstrução da empresa: “A gente espera que a Petrobrás mude sua postura. Mas também sabe que as disputas colocadas para o próximo período são muito maiores.”

Na avaliação dos dirigentes sindicais, o comportamento adotado pela Petrobrás nas negociações também produz reflexos sobre outras categorias.

Ao citar a greve dos trabalhadores da construção civil que prestam serviços na Refinaria de Paulínia (Replan), Cibele afirmou que o descumprimento de acordos pela estatal tende a influenciar a postura das empresas terceirizadas: “Quando a Petrobrás deixa de cumprir um acordo assinado com a FUP, ela também transmite às empresas contratadas a mensagem de que acordos podem deixar de ser respeitados.”

A declaração foi feita poucos dias depois de dirigentes sindicais denunciarem episódios de violência envolvendo trabalhadores terceirizados durante a paralisação em Paulínia.

Apesar do encerramento da semana nacional de mobilizações, a FUP afirma que a campanha ainda não terminou.

Segundo Cibele Vieira, um novo Conselho Deliberativo da Federação já está previamente convocado para avaliar o resultado das atividades e definir os próximos passos da categoria: “A gente espera que a Petrobrás nos chame para negociar. Mas, independentemente disso acontecer ou não, vamos voltar a conversar com os trabalhadores para definir, coletivamente, os próximos passos dessa campanha.”

Ao final do ato na Recap, os trabalhadores voltaram a repetir um dos slogans que acompanhou as mobilizações em diferentes unidades do Sistema Petrobrás durante toda a semana: “Petroleiros e petroleiras, luta e resistência. Defender a Petrobrás é defender o Brasil.” A frase sintetiza a estratégia adotada pela categoria neste momento: combinar pressão sobre a gestão da empresa pela abertura das negociações com a defesa, no campo político, da continuidade do projeto que, na avaliação das lideranças sindicais, permitiu interromper o processo de desmonte da estatal e recolocar em pauta a reconstrução do Sistema Petrobrás.

Posts relacionados

Recap: Sindicato propõe Grupo de Trabalho para garantir melhorias no transporte 

Vitor Peruch

Em mobilização nacional, petroleiros vão às bases para garantir direitos e ampliar campanha de reestatização

Vitor Peruch

VA/VR na Recap: Mesmo resultado no Turno e procrastinação da empresa no HA

Guilherme Weimann

ACT 2025

Responda a pesquisa da campanha reivindicatória 2025