Mesa sobre Energia no Contexto da Guerra abre congresso e traz reflexões sobre papel central do petróleo em conflitos e movimentos geopolíticos e crise do imperialismo norte-americano

Começou neste sábado (30/05), o Congresso Estadual de categoria petroleira, realizado pelo Sindipetro Unificado e o Sindipetro-SJC, na Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), em Guararema (SP).
Na abertura, Steve Austin, coordenador geral do Sindipetro Unificado, destacou a importância do evento unitário e do debate de pautas comuns, tanto da categoria quanto políticas e sociais, principalmente em ano de eleições.
Cibele Vieira, coordenadora geral em exercício da FUP, explicou o surgimento e funcionamento da ENFF, fruto da mobilização de militantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e da classe trabalhadora e a importância do Congresso no local. “É um espaço de referência para a esquerda”, destacou.
Já Rafael Prado, presidente do Sindipetro-SJC – Sindicato que retornou à FUP e CUT em 2025 -, colocou o Congresso como uma realização política muito importante. “A conjuntura bate à porta dos petroleiros e petroleiras e faz esse debate pela reunificação da categoria e o combate à extrema-direita ser urgente”.
Toda guerra tem um componente energético
José Sérgio Gabrielli (ex-presidente da Petrobrás – UFBA) abriu a mesa colocando o processo de conversão das refinarias mundialmente, que abriu oportunidade de usar petróleo leve e pesado, colocou uma maior variabilidade dos preços e empurrou os EUA à um novo posicionamento. Passou de importador de petróleo a exportador de petróleo, mudando sua relação com o mercado internacional. Porém, mesmo após a pandemia, quando passou a ser o maior produtor do mundo, continuou sendo o maior exportador de derivados.
Gabrielli explicou como as guerras alteram cenários do mercado de petróleo e geram pobreza energética, como no caso da Europa, que com a Guerra na Ucrânia, teve seu fornecimento russo altamente atingido.

“Temos que entender que, hoje, a disputa dos EUA com seu principal oponente, a China, é muito distinta do que estávamos historicamente habituados. É no comercial, no tecnológico, no financeiro e não no bélico. E isso se expande no modo das guerras atuais”, ressaltou. Por exemplo, a Guerra dos EUA contra o Irã colocou como principal arma o fechamento do Estreito de Ormuz. “Segurou-se 20% do fluxo de petróleo, uma crise maior do que a de 1973, um impacto no mercado de petróleo, que é o maior da história. E nos leva à reflexão: por que o preço não explode?” Segundo Gabrielli, isso se dá justamente pela reestruturação do refino mundial.
Contextualizando ao Brasil, para ele, a presença de importadoras inviabiliza o controle dos preços no País e viabiliza caminhos para o aumento na margem de distribuição. Ele relembra que o governo brasileiro taxou em 12% a importação – para aumentar a arrecadação e baixar o impacto no consumidor final, dando o subsídio ao diesel, por exemplo – mas, “vemos o preço aumentar e a margem de lucro da distribuição crescer, mesmo que a Petrobrás não altere seu preço”.
Ele destacou que a BR Distribuidora cumpria esse papel de disputar essa margem de distribuição, mas, com sua privatização, não temos mais esse mecanismo. “Aumentar a capacidade de refino no Brasil e retomar o controle da distribuição são peças essenciais para a soberania energética”, destacou.
Petróleo como arma de guerra

Juliane Furno (UFF) falou sobre a importância e impacto dos recursos energéticos nas guerras. “O petróleo não é só um recurso energético, ele é usado como infraestrutura de guerra, fonte de divisas ou arma de coerção internacional. Nem toda guerra é causada por energia, mas toda guerra tem um componente energético”, destacou.
Ela desenhou uma passagem histórica que, da Revolução Industrial à Guerra do Golfo, demonstra como as disputas estão em espaços ricos em petróleo e como esse elemento, cotado em dólar, e justamente tal decisão, fortalece a dependência da “dolarização” do mundo.
Segundo Juliane, os EUA dominam a moeda do mundo, e este poder se sustenta pelo preço da cotação do petróleo e também pelo endividamento em dólar de países – principalmente periféricos e após os anos 90. “Cria-se a necessidade de dólar nos países, de fazer reservas em dólar. Assim, financiamos os déficits dos EUA, ou seja, as guerras norte-americanas e retroalimentamos esse poder. Estamos submetidos à esta diplomacia do dólar, um sistema de tributação mundial, e o petróleo tem um papel central”, define.
Porém, ela também coloca a crise hegemônica norte-americana, que apresenta rachaduras desde os anos 70, e se consolida com novos concorrentes, como China e Rússia, e questionamentos tanto bélicos (como com a derrota da Guerra do Vietnã e os impasses agora na Guerra contra o Irã) quanto financeiros, quando assistimos a “desdolarização”, como em relações comerciais já não mais realizadas em dólar, entre china e Rússia.
Trata-se do “hiperimperialismo”, processo que demonstra um imperialismo em decadência, que ao invés de se retrair acelera a ofensiva, e de forma ainda mais violenta. O governo Trump é uma resposta à isso, pois precisa se reposicionar na economia global. “As guerras aceleram o curso da história e as tensões geopolíticas e os anos atuais devem nos vacinar se os EUA contornarem a sua crise e vierem a impor novamente seu imperialismo e a supremacia do dólar”.
O Congresso continua até o domingo, com mais mesas de análise, grupos de trabalho e deliberações sindicais.








