A Petrobrás voltou a ser a empresa mais valiosa da América Latina; valorização reflete mudança de rumo na política energética, retomada de investimentos e superação do modelo de desmonte do governo anterior

Vítor Peruch, com informações do DIEESE
A Petrobrás voltou a ser a empresa mais valiosa da América Latina, atingindo US$ 100,9 bilhões e superando o Mercado Livre e o Itaú Unibanco. Parte da cobertura tratou o movimento como simples efeito de câmbio e do novo ciclo das commodities. É um pedaço da explicação. Não é o todo.
Valor de mercado é confiança no futuro. E a confiança que está sendo precificada agora tem endereço: estabilidade política, previsibilidade institucional e uma empresa que voltou a ter estratégia. Também vale apontar para uma redução da importância das plataformas digitais e retorno do protagonismo de setores tradicionais, como o de energia, por exemplo.
Desde 2023, sob o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a Petrobrás deixou de ser conduzida apenas pela lógica da distribuição máxima de dividendos e passou a recuperar seu papel de empresa integrada de energia. Retomou investimentos, ampliou sua reserva de petróleo e gás, mesmo com aumento da produção diária batendo recordes com 3 milhões de barris/dia, reorganizou prioridades no refino, recompôs planejamento e ajustou a política de preços para reduzir distorções herdadas da paridade automática com o dólar. Para se ter uma ideia, os investimentos da Petrobrás no governo Bolsonaro caíram 6% em 4 anos, enquanto nos três primeiros anos do governo Lula 3, dobrou de tamanho, passando de R$ 46 bilhões em 2022 para cerca de R$ 100 bilhões em 2025.
No governo Jair Bolsonaro, a empresa foi pressionada a operar como máquina de remuneração de acionistas. A política de preços dolarizada elevou combustíveis, estimulou importadores e enfraqueceu refinarias nacionais. Houve lucro elevado, mas também venda de ativos e encolhimento da capacidade de induzir desenvolvimento. Isso tem custo estrutural.
A recente redução no preço do gás natural para distribuidoras indica uma mudança de orientação: rentabilidade combinada com responsabilidade econômica. Energia mais acessível fortalece a indústria e amplia o mercado da própria empresa. Não é concessão ideológica; é visão de longo prazo.
A reativação das unidades de fertilizantes faz parte da estratégia de retomada produtiva da Petrobrás. A fábrica de Araucária, no Paraná (ANSA), que estava paralisada desde 2020, teve sua reativação aprovada e deve voltar à produção no segundo semestre de 2025, com grande capacidade de ureia, amônia e ARLA 32. Além disso, as unidades de FAFEN na Bahia e em Sergipe, paradas desde 2023 após a saída da operação privada, foram reassumidas pela Petrobrás e retomaram a produção, incluindo o reinício da produção de amônia na FAFEN-SE no fim de 2025, como parte da estratégia de reduzir a dependência de importações de fertilizantes no país.
A liderança da Petrobrás no ranking regional não significa que os desafios desapareceram. A transição energética, a ampliação do refino e a defesa da soberania sobre reservas estratégicas seguem no centro do debate. Mas o dado central é outro: a empresa voltou a ser percebida como instrumento de política energética e industrial, e não apenas como ativo financeiro.
A valorização atual não caiu do céu nem nasceu de um pregão específico. É fruto de direção política, capacidade técnica acumulada e trabalho cotidiano de milhares de petroleiros e petroleiras. É isso que explica por que, hoje, o mercado enxerga na Petrobrás algo que parte da imprensa insiste em reduzir a uma oscilação cambial.
