Greve dos petroleiros deste ano se aproxima da histórica mobilização de 1995

Mobilização em todo país é superior a da maior paralisação da história da categoria, avalia dirigente

Dirigentes e trabalhadores reunidos em assembleia que acontece diariamente na regional Mauá do Unificado

A cada início de noite, os dirigentes do Sindicato Unificado dos Petroleiros de São Paulo da base de Mauá repetem um rito que começou há 13 dias, junto com a greve da categoria.

Na sede do sindicato, lideranças e trabalhadores da base se reuniram nesta quinta-feira para fazer a análise das negociações do dia e discutir os próprios passos de um jogo de xadrez em que, de um lado, está a classe trabalhadora em defesa de empregos e do respeito ao acordo coletivo e, do outro, quem enxerga os servidores como parasitas.

Não é uma briga fácil, especialmente quando isso envolve furar a bolha da velha mídia, tradicional defensora das privatizações  e da entrega do patrimônio público.

Mas o encontro diário serve para sentir o ânimo dos grevistas, recobrar o fôlego na luta e, também, para se ter uma ideia de como a união é presente entre os petroleiros. Não há assembleia ou piquete que não conte com homens e mulheres de cabelos grisalhos e que já não estão na ativa. Portanto, não sofreriam com qualquer medida adotada pela direção da Petrobrás sob a gestão do presidente Jair Bolsonaro.

Porém, assim como a união, a solidariedade também é uma marca da categoria, que decretou uma greve em todo país no dia 1º de fevereiro e que tem como pauta central impedir a demissão de mil trabalhadores da Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados do Paraná (Fafen).

Diretor do Sindipetro da base de Mauá e figura histórica do movimento petroleiro, Verenissimo Barçante participou do encontro desta quinta-feira (13) e apontou que a greve deste ano já supera a paralisação de 1995, que durou 32 dias e é a maior da história da categoria.

Naquela ocasião, 92% da categoria cruzaram os braços contra a privatização da Petrobrás e o ataque aos direitos trabalhistas promovidos pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), como o atual presidente, um entusiasta das privatizações.

Juliana, Fabio e Pedro unidos na luta

Mesmo com a ação do Exército que ocupou os terminais, inclusive a Refinaria Capuava (Recap), em Mauá.

“Comparado a este momento com o mesmo período de 1995, a adesão agora é maior e se a Petrobrás continuar se negar a negociar, minha expectativa é que superaremos esse marco. Devemos lembrar que há 13 dias temos dirigentes acampados no Edise (Edifício Sede da Petrobrás) sem que ninguém da direção da empresa de disponha a conversar”, criticou Barçante.

Greve é coisa de família

Coordenador geral do Unificado, Juliano Deptula, concorda com a visão de que esta greve trouxe a maioria dos trabalhadores à luta de uma maneira que há muito não se via. E credita isso à conscientização levada ao local de trabalho

“Os companheiros e companheiras compreenderam a importância que têm para manterem a Petrobrás como uma empresa estatal que favoreça a população e respeite os seus trabalhadores. Aos poucos, estamos angariando apoio de vários setores da sociedade e o presidente da empresa já se viu obrigado a falar ao público, principalmente ao mercado, porque é perceptível a queda do valor da Bolsa e a elevação do dólar. O que queremos é apenas justiça e que honrem o que se comprometeram a cumprir”, reforçou.

O envolvimento ao qual se referem os dirigentes pode ser exemplificado na figura da técnica de operação Juliana Gomes, 28, que amamentava o filho Pedro, 2, enquanto a direção apontava o balanço do dia.

Sindicalizada desde seu primeiro dia da empresa, em 2011, ela ressalta as dificuldades em conciliar a maternidade, trabalho e a mobilização, porém, destaca a importância de lutar por um país mais justo.

“É complicado, mas a gente precisa participar da luta. A gente busca ele [se referindo ao filho] na escola, vem para cá, eu me revezo com o Fábio [seu parceiro] para fazer o piquete e quando existem atos grandes buscamos o apoio dos nossos pais. A gente sabe a importância que tem participar, estar junto, porque o sindicato são os trabalhadores, é todo mundo. Se a gente não estiver junto, a greve não estará forte”, avaliou.

Pai de Pedro, o também técnico de operação, Fábio Gomes, acredita que das três greves que participou, essa é a que a direção da Petrobrás adotou postura mais truculenta.

“Mesmo com o governo Temer, com o Pedro Parente (presidente da Petrobrás durante o governo de Michel Temer), tínhamos algum espaço de negociação. Neste governo é porta fechada mesmo, na base do medo, da ameaça que fazem nas cartinhas que enviam para nós e buscando difamar que sindicalista é ‘bandido e corrupto’. Mas também é a greve em que vejo a categoria mais empenhada”.

Vestido com um colete da Petrobrás, Rafael Santana avalia que o empenho responsável por gerar a unidade na greve veio da compreensão de que ninguém faz nada sozinho.

“Pessoas que eu nunca imaginava que iam fazer greve, voltaram a fazer. Todo mundo percebeu que estamos no mesmo barco, que tem de brigar junto para poder sustentar a família e impedir que a empresa seja desmontada”, finalizou.

Por Luiz Carvalho