Após suspender implantação unilateral, Petrobrás apresentou ao Sindicato mudanças nas linhas; entidade propôs novos ajustes e aguarda revisão da empresa

Por Vítor Peruch
A discussão sobre o transporte dos trabalhadores da Refinaria de Capuava (Recap) entrou em uma nova etapa. Depois de conseguir suspender a implantação unilateral de mudanças anunciadas pela Petrobrás, o Sindipetro Unificado participou de duas reuniões com a empresa para analisar a proposta de reestruturação das linhas e apresentou uma série de contrapropostas construídas a partir das demandas da categoria.
A segunda reunião ocorreu nesta quarta-feira (23) e tratou das linhas utilizadas pelos trabalhadores do turno. O primeiro encontro, realizado em 8 de setembro, havia discutido as alterações previstas para o horário administrativo (HA). Nas duas ocasiões, representantes do sindicato puderam analisar linha por linha, questionar os tempos de deslocamento apresentados pela empresa e apontar situações específicas relatadas pelos trabalhadores.
Ao final da rodada de negociação, a gestão da refinaria se comprometeu a reavaliar a proposta a partir das contribuições apresentadas pelo sindicato e dar um retorno no prazo de uma semana. O Unificado também cobrou uma nova reunião para que a empresa apresente os ajustes e responda às contrapropostas formuladas durante as negociações.
Para o diretor do Sindipetro Unificado, Pedro Augusto, a abertura desse espaço de negociação é resultado direto da mobilização dos trabalhadores, mas a proposta ainda precisa avançar para atender à realidade de quem utiliza o transporte diariamente: “Nós conseguimos impedir uma implantação unilateral e abrir um espaço efetivo de negociação. Agora, o nosso papel é fazer com que esse espaço produza uma proposta que realmente melhore a vida dos trabalhadores. Há avanços importantes no que foi apresentado, mas ainda existem situações que precisam ser corrigidas”, afirma.
Confira o a negociação no infográfico:
Mais linhas, mas ainda há ajustes necessários
Entre os pontos considerados positivos pelo sindicato está o reconhecimento, na proposta apresentada pela empresa, da necessidade de rever o modelo atual. A Petrobrás prevê ampliação do número de linhas tanto para o horário administrativo quanto para os trabalhadores do turno, o que, na avaliação do Unificado, representa uma mudança em relação ao modelo que vinha sendo questionado pela categoria.
A ampliação, porém, não resolve sozinha os problemas identificados. Durante as reuniões, o sindicato defendeu a manutenção de carros de menor porte como alternativa para atender regiões, públicos e horários específicos em que o uso de veículos maiores não representa a melhor solução.
A medida é considerada especialmente importante para adequar o transporte às características de determinadas regiões e evitar que trabalhadores sejam submetidos a trajetos excessivamente longos apenas para adequar o itinerário à lógica de uma linha convencional: “A ampliação das linhas é importante, mas não pode ser tratada apenas como uma questão de quantidade. Precisamos olhar para o tempo de deslocamento, para as características de cada região e para as necessidades específicas dos trabalhadores. Em alguns casos, um carro pequeno pode ser justamente a solução para reduzir o tempo de viagem e tornar a linha mais eficiente”, explica Pedro.
O sindicato também apresentou situações concretas levantadas junto à categoria e reforçou a necessidade de estabelecer limites de tempo aceitáveis para os deslocamentos.
A preocupação é particularmente relevante para quem trabalha em turnos de 12 horas. Como aponta o diretor do Sindipetro Unificado, Dimas Lignelli, nesse caso, o tempo dentro do transporte interfere diretamente no período disponível para descanso e recuperação antes e depois da jornada: “Para quem trabalha 12 horas, transporte não é apenas uma questão de conforto. O tempo que o trabalhador passa no ônibus determina quanto tempo ele terá para descansar e se recuperar. Isso tem relação direta com a saúde, com a segurança pessoal e também com a segurança operacional da refinaria”, afirma o diretor.
Turnos da manhã e da noite exigem soluções diferentes
Outro ponto apresentado por Dimas foi a necessidade de considerar que as linhas dos trabalhadores do turno não podem ser avaliadas apenas pelo mesmo trajeto em horários diferentes.
A dinâmica do trânsito muda significativamente entre os períodos. Para os trabalhadores do turno da noite, por exemplo, o deslocamento até a refinaria ocorre no início da noite, enquanto o retorno para casa acontece pela manhã, justamente em horários que podem concentrar maior volume de trânsito.
Por isso, o sindicato defendeu que a composição das linhas e os trajetos sejam avaliados de maneira específica para cada período.
“Não basta pegar uma mesma lógica de transporte e aplicá-la indistintamente ao turno da manhã e ao turno da noite. A dinâmica do trânsito é diferente, os horários são diferentes e os impactos sobre o tempo de viagem também são diferentes”, diz Dimas.
A entidade também apresentou a necessidade de considerar condições específicas de saúde e mobilidade e características da organização familiar dos trabalhadores na definição das soluções.
Para o sindicato, o transporte deve ser planejado prioritariamente a partir das pessoas que dependem dele, e não apenas de critérios de custo ou de otimização operacional.
Unificado cobra ampliação para Osasco
Durante as negociações, o sindicato também apontou uma lacuna geográfica no atendimento oferecido pela empresa: a microrregião de Osasco.
Atualmente, trabalhadores da região não são atendidos pelas linhas da Recap em razão de uma restrição prevista no padrão utilizado pela empresa. Com isso, hoje é necessário que o petroleiro residente em Osasco pegue transporte público até a Zona Oeste da capital paulista, para então pegar o transporte da empresa. Para o Unificado, o critério não corresponde à realidade da Região Metropolitana de São Paulo e precisa ser revisto.
A ampliação das áreas atendidas está entre as propostas que o sindicato espera que sejam incorporadas pela gestão da refinaria: “Não faz sentido manter uma restrição que não acompanha a realidade da região metropolitana. Se estamos discutindo uma reestruturação do transporte, precisamos aproveitar essa oportunidade para corrigir também as áreas que hoje estão excluídas e garantir que o serviço atenda efetivamente os trabalhadores”, afirma Pedro.
Segundo o sindicato, tanto a ampliação das regiões atendidas quanto a adoção de carros menores são medidas que dependem de decisões da própria gestão da refinaria. Por isso, a entidade considera possível avançar nas negociações sem que essas propostas sejam tratadas como obstáculos à reestruturação.
Negociação é resultado da mobilização
A retomada das negociações é parte de uma sequência de mobilizações do Sindipetro Unificado em torno do transporte da Recap.
Em junho, o sindicato havia denunciado problemas como deslocamentos excessivamente longos, dificuldades para chegar aos pontos de embarque e impactos sobre o descanso dos trabalhadores, além de cobrar a criação de um Grupo de Trabalho para discutir o modelo.
Posteriormente, a Petrobrás anunciou alterações nas linhas sem que a proposta tivesse sido previamente discutida com o sindicato. A entidade denunciou a implantação unilateral e cobrou o cumprimento do compromisso de negociação. A empresa então suspendeu a mudança que seria implementada e convocou o Unificado para apresentar sua proposta.
Agora, após as duas reuniões, o sindicato pretende manter a pressão para que as contribuições apresentadas sejam incorporadas à versão final: “Esse espaço de negociação não caiu do céu. Ele foi conquistado pela organização e pela mobilização dos trabalhadores. E é justamente essa mobilização que precisa continuar para que as mudanças que estamos discutindo não sejam apenas uma troca de linhas, mas uma melhoria concreta nas condições de vida e de trabalho”, afirma Pedro.
A Petrobrás se comprometeu a avaliar, no prazo de uma semana, os apontamentos e contrapropostas apresentados pelo sindicato. O Unificado cobra que, ao fim desse período, seja realizada uma nova reunião para que a empresa apresente os ajustes feitos e responda aos pontos levantados durante as negociações.
Até lá, o sindicato orienta os trabalhadores a permanecerem atentos aos canais oficiais de comunicação e a continuarem relatando problemas e situações específicas relacionadas ao transporte.
A reestruturação das linhas ainda está em negociação. Para o Unificado, a participação dos trabalhadores será fundamental para garantir que a proposta final responda aos problemas que deram origem à mobilização e resulte, de fato, em mais tempo para descanso, segurança e qualidade de vida.

