Carta anônima levanta dúvidas sobre o alinhamento de gestores da TBG com interesses privados após o fim do processo de privatização.

Por Bronca do Peão*
Sou trabalhador da TBG e escrevo esta carta sem me identificar porque, infelizmente, hoje questionar determinadas situações dentro da empresa pode custar caro.
A primeira pergunta que faço é simples: se a Petrobrás decidiu cancelar a privatização da TBG, manteve o controle acionário da empresa e afirma que o transporte de gás voltou a ser estratégico para o Brasil, por que tantas decisões e tantos discursos dentro da companhia ainda parecem caminhar na direção oposta?
A venda da TBG foi oficialmente encerrada. A Petrobrás permanece com 51% do capital e o governo mudou a política de desinvestimentos. Mas, olhando a realidade do dia a dia, muitos trabalhadores têm a sensação de que parte da gestão continua comprometida com uma visão privatista que deveria ter ficado no passado.
Quem trabalha aqui vê gestores participando constantemente de agendas, eventos e viagens ao lado de representantes dos acionistas privados. Vê uma aproximação permanente com interesses que não parecem ser os da controladora da empresa. Ao mesmo tempo, quase não se percebe o mesmo empenho em defender publicamente a posição da Petrobrás ou o papel estratégico da TBG para o país.
Também chama atenção a defesa recorrente de políticas e modelos que, na prática, foram justamente aqueles que abriram caminho para a tentativa de privatização dos gasodutos brasileiros. Se a decisão política mudou, por que alguns dirigentes continuam agindo como se nada tivesse mudado?
Ninguém está acusando ninguém de cometer crime. Mas governança também depende de aparência de imparcialidade, de alinhamento institucional e da confiança que a gestão transmite aos trabalhadores. Quando gestores estratégicos parecem muito mais próximos dos interesses dos sócios privados do que da própria Petrobrás, o mínimo que surge é um enorme desconforto.
E há situações que beiram o constrangimento. Basta uma rápida passada pelo LinkedIn de alguns gestores para encontrar postagens defendendo a abertura do mercado de gás, exaltando modelos europeus e repercutindo discursos que interessam muito mais aos acionistas privados do que à Petrobrás. Somam-se a isso sucessivas viagens internacionais, cursos de alto custo, agendas frequentes na Bélgica e uma impressionante proximidade com representantes dos sócios privados.
Mas, se uma rápida passada pelo LinkedIn já causa esse constrangimento, experimente voltar alguns anos. Vá até 2021, quando a chamada Lei do Gás era debatida no país. Enquanto ex-presidentes da Petrobrás, especialistas do setor e representantes dos trabalhadores alertavam que a proposta abriria caminho para o desmonte da companhia, enfraqueceria sua presença em um setor estratégico e dificilmente reduziria o preço do gás, qual era o posicionamento de uma das gestoras da TBG? De comemoração. Em publicação nas redes sociais, a nova lei foi celebrada como um grande avanço, exaltando justamente o “livre acesso às infraestruturas”, a “independência dos transportadores” e a abertura do mercado, exatamente os pilares que viabilizaram o processo de privatização dos gasodutos.
É difícil acreditar que isso seja apenas uma opinião técnica quando coincide tão perfeitamente com os interesses dos acionistas privados e tão pouco com a estratégia que hoje a própria Petrobrás afirma defender.
Tudo isso, naturalmente, deve ter excelentes explicações. Afinal, é mera coincidência que quem mais celebra a abertura do mercado também apareça, quase sempre, ao lado de quem mais lucra com ela. Para quem trabalha na TBG, porém, fica a sensação de que alguns gestores esqueceram quem paga seus salários e passaram a atuar como verdadeiros embaixadores do mercado dentro de uma empresa controlada pela Petrobrás.
A Petrobrás sempre afirmou que quer reconstruir sua presença nas áreas estratégicas de energia. Então talvez seja hora de olhar com mais atenção para quem está conduzindo essas áreas dentro das empresas controladas.
A pergunta que fica é inevitável: quem, de fato, está defendendo os interesses da Petrobrás dentro da TBG?
Porque, para quem trabalha aqui, às vezes parece que a raposa continua tomando conta do galinheiro.
*Carta anônima enviada por petroleiro que preferiu não se identificar.
