“Eu não sou dirigente sindical para fazer cafezinho, fui feita para lutar”: Wanda Conti, presente!

Fundadora do PT e da CUT e primeira mulher a ingressar na direção do Sindipetro Unificado, Wanda Conti faleceu na noite de segunda-feira, 13 de abril; velório será na sede do sindicato, em Campinas, a partir das 11h

memórias
“Eu não tenho preocupação de ser lembrada como pessoa. Eu acho que o mais importante é que a luta seja lembrada”, afirmou Wanda em sua última entrevista

Por Guilherme Weimann

A memória, quando é viva, não se encerra com a ausência. Ela se transforma em legado. Wanda Conti, petroleira, dirigente sindical e a primeira mulher a integrar a direção do Sindipetro Unificado, faleceu no fim da noite de segunda-feira, 13 de abril. Seu velório será realizado na sede do Sindipetro Unificado, em Campinas, a partir das 11h desta terça-feira, 14 de abril.

Fundadora do Partido dos Trabalhadores (PT) e da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Wanda construiu uma trajetória profundamente ligada à organização da classe trabalhadora, à formação política e à defesa de uma sociedade mais justa. Sua história se confunde com momentos decisivos do sindicalismo petroleiro, especialmente a greve de 1983, quando foi demitida da Refinaria de Paulínia (Replan) junto a outros dirigentes sindicais, permanecendo afastada por seis anos.

Durante esse período, seguiu na luta atuando no setor de formação da CUT, contribuindo para a educação política e sindical de trabalhadores em todo o país. Posteriormente, foi readmitida na Petrobrás, em 1989, onde trabalhou até 1992, quando se aposentou. Anos mais tarde, tornou-se anistiada política.

Mais do que uma liderança, Wanda foi uma militante que nunca separou fé, política e compromisso com a dignidade humana — princípios que orientaram sua vida e sua atuação até os últimos anos.

É a partir dessa trajetória que esta memória se constrói. Confira a última entrevista inédita concedida pela Wanda Conti, em abril de 2023, há exatos três anos:

Infância, ética e formação

Eu nasci em São Paulo, no Carandiru — fora da penitenciária, como eu sempre brinco —, mas num tempo em que aquilo era um bairro de periferia muito bom de viver, muito familiar, com criança na rua, com convivência, com uma vida simples, mas que tinha uma qualidade humana muito grande. Depois meu pai teve um problema financeiro sério, foi à falência, e nós tivemos que sair de São Paulo, fomos para Ribeirão Preto, e mais tarde viemos para Campinas, onde eu estou até hoje, embora eu diga sempre que eu sou paulista de São Paulo, porque isso também marca muito a gente.

Eu tive uma infância com dificuldades materiais, isso é verdade, mas ao mesmo tempo com uma harmonia muito grande dentro de casa, e isso fez toda a diferença. Meu pai não tinha estudo — ele estudou até o segundo ano de grupo escolar —, mas ele tinha uma coisa que eu herdei completamente, que foi essa preocupação com a ética, com a honestidade, com a retidão no modo de viver. Ele não era um homem político, não tinha atuação sindical, mas ele tinha uma visão muito firme de que a vida tinha que ser digna, e isso ficou em mim de uma forma muito profunda.

E junto com isso, a fé também foi muito importante. Eu sou católica praticante, sempre fui, e para mim nunca existiu essa separação entre fé e vida concreta. Então, quando eu digo que fui para a luta sindical por causa da fé, muita gente estranha, mas para mim era muito claro que não dava para falar de dignidade humana e não falar das condições de trabalho, das condições de vida, de um mundo que desse possibilidade para todo mundo viver com dignidade.

A escolha pela Petrobrás

Quando eu entrei na Petrobrás, em 1972, isso ainda não estava totalmente elaborado na minha cabeça como ação política, mas já estava como sentimento. Eu fiz vários concursos na época, mas eu queria a Petrobrás, porque havia um orgulho muito grande de trabalhar numa empresa brasileira, ligada à ideia de que o petróleo era nosso, de que aquilo era um patrimônio do país, então não era só um emprego, era uma escolha também carregada de significado.

Mas entrar não foi simples. Era ditadura, tinha que passar por investigação da Polícia Federal, verificar ficha, então eu fiquei meses trabalhando lá dentro como terceirizada, já tendo passado no concurso, esperando essa liberação, o que por si só já mostra o ambiente que a gente vivia naquele período. Só depois de um tempo é que eu fui efetivada de fato como petroleira, com todos os direitos.

Da fé à luta sindical

Dentro da refinaria, eu comecei trabalhando como secretária, passei por vários setores, mas o que mais me marcou não foi exatamente a função, e sim o processo que a gente começou a viver ali. Eu me aproximei de um grupo de trabalhadores que tinha uma inquietação muito grande, que percebia que a realidade da REPLAN era diferente da de outros lugares, como Cubatão, e que queria construir um outro tipo de atuação sindical. A gente era mais jovem, tinha uma disposição diferente, e começou a discutir a necessidade de ter um sindicato próprio, mais próximo da nossa realidade.

E aí eu fui entrando nisso, cada vez mais. Não foi uma decisão de um dia, foi um processo. Eu fui percebendo que na luta sindical a gente tinha condição de pleitear um outro tipo de vida, não só para nós, mas para a classe trabalhadora como um todo, porque uma coisa que sempre ficou muito clara para nós é que não bastava o petroleiro ganhar melhor, não bastava olhar só para a nossa categoria. A gente tinha uma visão mais ampla, tanto que nas nossas pautas apareciam temas como reforma agrária, coisas que muita gente perguntava: o que o petroleiro tem a ver com isso?, e para nós tinha tudo a ver.

Foi nesse contexto também que eu participei da construção de algo maior. Eu sou fundadora do PT e sou fundadora da CUT, e isso para nós não era separado, era parte de um mesmo movimento de organização da classe trabalhadora, que precisava de sindicato, de partido e de organização popular para se sustentar.

A greve de 1983

A greve de 1983 foi o grande marco dessa trajetória. Ela não surgiu do nada, como às vezes se pensa. Foi resultado de todo esse acúmulo, de toda essa formação, de toda essa construção coletiva. E é importante dizer que não foi uma greve por salário, como muita gente dizia na época. Nós éramos chamados de marajás, diziam que era um absurdo fazer greve ganhando o que ganhávamos, mas a nossa greve foi para não haver demissões, para enfrentar um projeto que enxugaria a Petrobrás e mandaria muita gente embora.

Só que nós estávamos em plena ditadura, então a resposta foi extremamente dura. No momento em que a greve foi deflagrada, eu, como dirigente sindical, fui demitida imediatamente da refinaria, junto com outros companheiros da direção. Foi uma demissão direta, sem mediação, como parte da repressão ao movimento.

A partir daí veio todo um processo de intervenção no sindicato, perseguição política e tentativa de nos desmoralizar diante da sociedade.

Um dos momentos mais marcantes para mim foi quando fui chamada para depor. O advogado nos orientou que, se o delegado colocasse uma folha azul, significava que estávamos sendo fichados no DOPS. Quando eu vi aquela folha azul, eu senti como se tivesse levado um murro no estômago, foi uma sensação física mesmo, de impacto, de perceber que você estava sendo colocada naquele lugar de inimiga, de criminosa. Mas ao mesmo tempo eu pensei: agora já estou aqui, não vou recuar. E enfrentei.

A dureza e as contradições da greve

A greve foi muito dura. Ninguém gosta de greve, isso é uma coisa que precisa ser dita. A gente dormia nas escadas do Taquaral, ficava o dia inteiro na porta da refinaria, enfrentando pressão, enfrentando polícia, enfrentando desgaste físico e emocional. E, além disso, tinha o julgamento da sociedade. Os jornais colocavam a gente como responsável por tudo, como se fôssemos os vilões da história, e isso chegava dentro das nossas casas. Eu tive momentos em que minha própria mãe acreditava mais no que estava no jornal do que no que eu dizia, e isso dói muito.

Ser mulher na luta

E, para além disso tudo, tinha também a questão de ser mulher naquele ambiente. Eu fui uma das primeiras mulheres na direção do sindicato, e o preconceito existia, muitas vezes não de forma aberta, mas presente. Eu me lembro de um jornalista que disse que agora o sindicato ia ficar limpo e com cafezinho, e eu respondi na hora que eu não estava ali para isso, que eu estava ali em igualdade de condições. E foi assim que eu me coloquei sempre, discutindo de igual para igual, enfrentando quando era necessário, porque se a gente não se colocasse dessa forma, não teria espaço.

Atuação na CUT

Depois da greve, eu fiquei cinco anos fora da Petrobrás, afastada da refinaria, vivendo um período muito difícil, de sobrevivência e de luta pela readmissão. Nesse período, eu não fiquei parada. Eu fui para a CUT, trabalhei na Secretaria de Formação e viajei muito pelo Brasil, ajudando na formação sindical e política.

Eu fiquei na CUT, trabalhando na Secretaria de Formação… nós viajamos muito, dando curso de formação política e sindical.

Esse trabalho foi fundamental, porque reforçava aquilo que eu sempre acreditei: que a luta não é só dentro da fábrica, ela é nacional, é de classe, é coletiva.

Eu também participei da direção da CUT estadual nas primeiras gestões, o que mostra como aquela experiência da greve e do sindicato se ampliou para um campo maior de organização dos trabalhadores.

Retorno à refinaria

Quando eu voltei e entrei novamente na refinaria, em 1989, pisando outra vez naquele espaço como funcionária, mesmo sendo colocada em um setor difícil e controlado, a sensação que eu tive foi muito forte: não era só a minha volta, era a volta de todos nós que resistimos até o fim. Ali eu tive a certeza de que, apesar de tudo, nós tínhamos vencido — não completamente, não em todos os pontos, mas vencido naquilo que era essencial, que era não terem conseguido nos apagar nem nos fazer desistir.

Depois da Petrobrás

Depois disso, eu ainda fiquei alguns anos na Petrobrás e me aposentei em 1992, relativamente jovem, porque eu queria me dedicar à formação. E foi o que eu fiz, tanto pela CUT quanto em espaços ligados à Igreja, viajando pelo Brasil, trabalhando com formação política, sindical e com formação de leigos, sempre nessa perspectiva de que a transformação social e a vivência da fé não são coisas separadas.

Memória, luta e futuro

Hoje, olhando para tudo isso, eu vejo que nós tínhamos algumas coisas que se perderam, principalmente a formação e a consciência de classe. O trabalhador hoje muitas vezes não gosta de ser chamado de trabalhador, não se reconhece como parte de uma classe, e isso enfraquece a luta. Porque, sem essa consciência, não há mobilização consistente.

Eu não tenho preocupação de ser lembrada como pessoa. Eu acho que o mais importante é que a luta seja lembrada, que a história não seja apagada. Mas eu tenho um sonho, que é muito simples de dizer e muito difícil de realizar: que a classe trabalhadora goste de ser trabalhadora, que tenha orgulho disso, que se reconheça, que se organize e que lute pelo que é seu.

Porque, no fim das contas, foi isso que deu sentido à minha vida inteira.

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