Em entrevista à reportagem do Sindipetro Unificado, Abel Oliveira, integrante do Projeto MEMOH, explica como os grupos reflexivos têm buscado desconstruir a masculinidade praticada historicamente por um compromisso social de transformação pelos próprios homens

Por Guilherme Weimann
O machismo é um sistema que opera socialmente há séculos na criação de desigualdade, subordinação e violência contra as mulheres. Mas, diante dessa complexa estrutura, o que os homens, que se dispõem a desconstruir seus privilégios, podem fazer?
“Perguntas-tema” como essa são a base da metodologia dos Grupos Reflexivos do Projeto MEMOH, iniciativa criada em 2017 no Rio de Janeiro. O próprio nome da organização, MEMOH, que é “homem” ao contrário, já dá algumas pistas sobre as motivações e inquietudes que levaram à sua criação.
Nesta entrevista, o consultor e gestor de Comunidade do MEMOH, Abel Oliveira, dá mais detalhes sobre a origem do projeto: “Faltavam espaços estruturados para que homens pudessem refletir entre si sobre gênero de forma crítica e implicada. A ideia, então, foi criar um ambiente seguro em que homens pudessem falar sobre seus próprios incômodos de gênero, reconhecer contradições e questionar padrões que aprenderam a naturalizar”.
Graduado em Comunicação Social pela Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC) e mestre em Cultura e Sociedade pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), Oliveira aponta que o MEMOH tem como objetivo não uma saída individual, mas coletiva para os problemas relacionados com o machismo e com ideal de masculinidade que adoece principalmente as mulheres, mas também os homens.
“A masculinidade que buscamos fomentar é aquela que reconhece seus privilégios, seus impactos e suas contradições, e que entende que o foco não deve ser sobre performance individual, mas sobre compromisso coletivo. É sair da lógica da culpa paralisante ou da imagem do ‘homem desconstruído’ e assumir um lugar ativo na transformação das relações”, explica.
Confira a seguir a entrevista na íntegra:
Quando e como surgiu a ideia do programa? Quais as referências que embasaram vocês?
O MEMOH surgiu em 2017, no Rio de Janeiro, a partir de um incômodo pessoal do Pedro de Figueiredo, fundador da organização. À medida que ele foi ampliando sua consciência sobre questões de gênero, começou a perceber o quanto também reproduzia padrões machistas nas suas relações e o quanto isso o afetava e afetava outras pessoas. Essa tomada de consciência trouxe desconforto, e a percepção de que não dava para elaborar sobre isso sozinho.
Ao mesmo tempo, a partir de pesquisas sobre o campo das masculinidades e das iniciativas que já existiam no Brasil e no mundo, ficou evidente que havia uma lacuna importante: faltavam espaços estruturados para que homens pudessem refletir entre si sobre gênero de forma crítica e implicada. A ideia, então, foi criar um ambiente seguro em que homens pudessem falar sobre seus próprios incômodos de gênero, reconhecer contradições e questionar padrões que aprenderam a naturalizar.
Assim surgem os Grupos Reflexivos do MEMOH, dialogando com uma tradição já existente no Brasil, especialmente com os Grupos Reflexivos organizados por movimentos feministas desde os anos 1970 e com metodologias desenvolvidas para homens autores de violência, como os do Instituto Noos. A gente se inspira nessas experiências, mas construiu uma metodologia própria, com elementos como a “pergunta-tema”, entre outros, que organiza cada encontro a partir da vulnerabilidade e da implicação pessoal dos participantes.
Desde o início, o propósito foi mobilizar homens pela equidade de gênero por meio do debate de masculinidades, como algo que atravessa nosso cotidiano e nossas relações concretas: com parceiros(as), filhos(as), amigos(as), colegas de trabalho e com a sociedade no geral.
Existem grupos reflexivos previstos, inclusive, na Lei Maria da Penha, para homens que cometeram violência contra as mulheres. Existem diferenças em relação aos grupos que vocês propõem?
Sim, existem diferenças importantes. Os grupos previstos na Lei Maria da Penha atuam no âmbito judicial e são espaços vinculados à responsabilização de homens que já cometeram violência contra mulheres. A participação costuma ser obrigatória e vinculada ao cumprimento de uma pena ou medida alternativa.
Os grupos do MEMOH não estão vinculados ao sistema de justiça e não são compulsórios. A participação é voluntária e gratuita. Isso muda bastante o perfil e a dinâmica do grupo. Trabalhamos com homens da sociedade civil que, em maior ou menor grau, já se percebem atravessados por incômodos em relação às masculinidades e querem refletir sobre isso coletivamente. Além disso, os grupos previstos na Lei Maria da Penha operam majoritariamente no campo da responsabilização após a violência já ter ocorrido, já os grupos do MEMOH atuam mais no campo preventivo: lidando com homens que podem, sim, já ter reproduzido violências em suas trajetórias, mas que em sua maioria não estão respondendo judicialmente por esses atos.
Outra diferença central é que, embora a violência seja um tema recorrente e muito importante nos nossos encontros, ela não é o único eixo. Ao longo de sete anos, analisamos 250 perguntas-tema trazidas pelos próprios participantes e identificamos oito macrotemas que vão desde relações familiares e conjugais até sexualidade, emoções, cuidado, compromisso ético, etc. Ou seja, o grupo não se organiza apenas em torno do “homem autor de violência”, mas do homem que deseja compreender como os padrões de gênero atravessam sua vida. Dito isso, há um ponto de convergência fundamental: a centralidade da responsabilização. Mesmo não sendo um espaço judicial, o grupo não é um lugar de acolhimento puramente. É um território de reflexão e de implicação política. A ideia é que os homens consigam se reconhecer como parte de uma estrutura que produz desigualdades e violências, e se responsabilizem por transformá-la.
Ao longo dos últimos anos, vocês perceberam mudanças na visão dos homens em relação à masculinidade? Vocês enxergam algum avanço?
Nos grupos, aparece com muita frequência a sensação de esgotamento diante da expectativa de “dar conta de tudo”, de ser sempre forte, racional, provedor, sexualmente potente, emocionalmente controlado. Muitos homens relatam não se reconhecer nesse ideal e sentem fadiga por tentar sustentar um personagem.
Por outro lado, também percebemos um desafio contemporâneo: a performance do “homem aliado”. Alguns chegam já com um discurso muito alinhado, com o vocabulário do debate, sabendo falar de questões de gênero em linhas gerais, mas muito nesse nível estético, mais do que estrutural. O trabalho do grupo, então, acaba sendo tencionar isso: sair da performance e aprofundar a implicação ética e política.
Então, sim, há avanços: maior abertura para falar de emoções, para questionar a socialização masculina, para rever comportamentos e identificar melhor o machismo em suas ações. Mas ainda convivemos com contradições (e é importante que surjam mesmo). O espaço reflexivo abre possibilidade de transformação, mas ela não é automática, é um processo.
Vocês se propõem a desconstruir a masculinidade historicamente construída. Qual a ideia da masculinidade que vocês estão construindo ao longos dos últimos anos?
A gente não propõe um novo “modelo fechado” de masculinidade, como se substituíssemos um padrão rígido por outro. O que buscamos é incomodar ou mobilizar homens já incomodados, com as violências e desigualdades com as quais a gente convive, a buscar mais consciência, e se implicar politicamente, numa luta que é coletiva, por transformação social.
Isso significa dizer que não se trata de um projeto de “melhorar a si mesmo” ou construir uma versão mais simpática do homem. Não estamos interessados apenas em homens mais sensíveis, mais comunicativos ou mais conscientes de suas emoções (embora isso tudo seja ótimo, e possa fazer parte do processo). O centro da questão é como esses homens se posicionam diante das estruturas que produzem desigualdade de gênero.
A masculinidade que buscamos fomentar é aquela que reconhece seus privilégios, seus impactos e suas contradições, e que entende que o foco não deve ser sobre performance individual, mas sobre compromisso coletivo. É sair da lógica da culpa paralisante ou da imagem do “homem desconstruído” e assumir um lugar ativo na transformação das relações. Não precisa ir muito longe pensando na ideia de “combater a estrutura social”, dá pra fazer isso a partir de pequenas ações todo dia dentro de casa, nas amizades, no trabalho e também na esfera pública.
Homens escutam outros homens de um jeito que, historicamente, quase nunca escutam mulheres. Esse é um privilégio que precisa ser tensionado e usado a favor da equidade: para interromper piadas violentas, questionar falas machistas, problematizar comportamentos abusivos/injustos, e apoiar mudanças reais. Não é simples se posicionar. Pode parecer pequeno, mas envolve coragem, envolve romper com pactos de silêncio, envolve correr o risco de ser deslocado do grupo. Mas é justamente aí que começa a transformação e, em muitos casos, isso pode evitar violências e até salvar vidas.
O Grupo Reflexivo é importante também porque ninguém sustenta esse processo sozinho. Quando homens entram em contato com outros que estão na mesma busca, enfrentando as mesmas contradições e medos, aprendendo a se posicionar, isso cria um campo de apoio e de motivação mútua. A mudança deixa de ser um esforço individual, isolado e pouco efetivo, e passa a ser um movimento compartilhado.
Não há um ideal único a ser buscado enquanto masculinidade, afinal, são infinitas as possibilidades de ser homem. Há muitos marcadores que nos atravessam e nos compõem, e isso é ótimo. Também não é só buscar desconstruir um modelo hegemônico dado. Se não houver incômodo com as desigualdades sociais e com as violências de gênero, e se não houver implicação política suficiente para olhar para si, olhar ao redor e querer transformar a sociedade, não há mudança.
