Uberização do trabalho

Por: João Vitor Santos 

Ser empreendedor de si mesmo, enfrentar os desafios do mundo atual e colocar-se à frente. Essas são as máximas que endossam uma ideia de modernidade nas relações de trabalho. Afinal, deixa-se a realidade fabril do antigo operário e se passa a pensar na autonomia do trabalhador multiplataforma. Mas, de fato, isso representa avanço nas relações de trabalho? Para Ludmila Abílio, doutora em Ciências Sociais, é óbvio que não. Pelo contrário, acredita que lógicas como a da uberização [como a dos motoristas de aplicativo e sua relação com a empresa, a Uber] representam uma fragilização dessas relações. É como colocar o trabalhador sozinho numa selva para, sem articulação de grupo, enfrentar as feras e assegurar a subsistência. “A uberização do trabalho evidencia uma nova forma de organização, gerenciamento e controle do trabalho. Ela pode ser sintetizada como a consolidação do trabalhador em trabalhador just in time. Ou seja, um trabalhador inteiramente desprovido de direitos, garantias, segurança”, sintetiza.

Ludmila Abílio (Foto: Nupecs)

Mas é ainda mais do que isso. Segundo Ludmila, compreender o trabalho hoje passa por compreender as transformações do capital no século XXI. Segundo a cientista social, somos configurados num dueto de trabalhadores/consumidores. “Hoje se torna mais claro e reconhecível a incorporação do consumo no processo de trabalho. Se, por um lado, temos uma multidão de trabalhadores, por outro, temos o gerente coletivo terceirizado na forma da multidão de consumidores engajados e confiantes no seu papel gratuito de vigias do trabalho”, aponta.

Na entrevista concedida por e-mail à IHU On-LineLudmila ainda vai demonstrando como essa ideia de avanço, modernização das relações de trabalho não revelam, em essência, nada de novo. “A uberização também consolida o trabalho como trabalho amador, ou seja, um trabalho que opera e aparece como trabalho, mas que não confere identidade profissional, não se forma como profissão, tem alta maleabilidade e flexibilidade na sua própria caracterização”, analisa. Ou seja, se vende a ideia de liberdade e autonomia do trabalhador, mas ele é, na verdade, muito mais subordinado, não alcançando sequer o status de profissional ou mesmo subutilizando a sua formação profissional. “Basta pensarmos no motorista Uber, engenheiro autônomo de dia, motorista à noite; no desempregado que torna o próprio carro seu instrumento de trabalho, no trabalhar nas horas vagas; no tornar-se motorista do dia para noite; e assim vai se constituindo a multidão de trabalhadores engajados, que definem suas próprias estratégias de trabalho, seu envolvimento com a ocupação, sua jornada”, exemplifica.

Entretanto, para Ludmila há ainda, mesmo que incipiente, uma luz no fim do túnel, formas de resistência a essas lógicas. “Há movimentos dos trabalhadores, há movimentos no campo do direito voltados para novas formas de regulação e reconhecimento da subordinação, há reações populares que vão colocando em xeque os limites destas formas de organização do trabalho, enfim, as resistências estão se formando e em movimento”, reflete.

Clique aqui e confira a entrevista completa.

 

Podcast

Sobre o mesmo tema, o podcast produzido pelo Sindicato dos Trabalhadores em Pesquisa, Ciência e Tecnologia, SINTPq também entrevistou a pesquisadora. Clique aqui para ouvir o programa.