Trabalhadores denunciam que Petrobrás vende materiais novos como sucata

De um catálogo de 9.800 itens que a estatal se desfez desde junho, 980 já possuem pedidos de compra emitidos e 1162 estão em análise para serem adquiridos novamente

Após a decisão da Petrobrás de contratar empresas asiáticas para a construção de plataformas, o Estaleiro Rio Grande vendeu como sucata 80 mil toneladas de estruturas de aço (Foto: Reprodução)

No início do mês de setembro, um caminhão saiu carregado da Usina Termelétrica (UTE) Luiz Carlos Prestes, em Três Lagoas (MS). Por R$ 9 mil, quem estava na sua boleia comprou como sucata uma série de materiais que até então faziam parte do estoque da unidade, pertencente à Petrobrás.

Apenas uma das peças, entretanto, possuía valor aproximado superior ao que foi pago por todos os produtos. Pedro*, trabalhador da UTE, conta à reportagem que flagrou uma válvula de controle pneumática nova, embalada na caixa, também dispensada como reciclável. O equipamento custa entre R$ 12 mil e R$ 15 mil e possui aplicabilidade industrial.

Apesar da falta de sentido econômico à primeira vista, essa é uma cena recorrente e faz parte de uma política deliberada da petroleira em relação aos seus estoques de materiais – consumíveis, sobressalentes e direcionados à manutenção e engenharia.

De acordo José*, trabalhador atuante nos processos de alienação, existe um histórico de ineficiência na aquisição e na venda de materiais. Ele afirma que o mau planejamento, a lentidão, a gestão de estoques centralizada e as mudanças abruptas de projetos são alguns dos fatores que elevam os estoques da companhia.

A alienação é o final da cadeia, o gargalo do ciclo, mas não é ela que origina o problema.

José*, trabalhador que atua no processo de alienação de bens

“O escopo de trabalho muitas vezes é volátil, variando subjetivamente de acordo com as mudanças gerenciais. Os processos de compra são lentos, mal executados e os materiais demoram para chegar. A alienação é o final da cadeia, o gargalo do ciclo, mas não é ela que origina o problema”, explica.

Mesmo não sendo responsável pelo início desse ciclo vicioso, o processo de alienação de bens evidencia o descaso e a má gestão. “Toda empresa faz alienação de materiais. Mas o que elas costumam vender? Coisas que não usam mais, que estão deterioradas. Já na Petrobrás, praticamente o único critério que está sendo levado em conta é o preço”, afirma.

A maioria das empresas mantém uma estratégia redução de estoque, já que ele se traduz em capital imobilizado e sem liquidez, ou seja, em recursos financeiros sem possibilidade de uso imediato para investimentos, aquisições ou transações financeiras com rentabilidade. Por isso, é preferível, do ponto de vista econômico, minimizar os estoques – mesmo que, muitas vezes, isso seja feito em detrimento da segurança operacional.

Mas esse processo não se dá de forma conectada e planejada na Petrobrás. Para alcançar as metas estabelecidas, a gerência orienta a alienação dos materiais com o maior custo unitário, sem uma avaliação precisa de quando poderiam ser utilizados e de seus níveis de deterioração. Fatores como o potencial de uso, a atratividade de mercado e a obsolescência acabam sendo desprezados na formulação da lista de materiais a serem vendidos.

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“Se a meta é vender R$ 1 milhão, ao invés de venderem mil produtos de R$ 1 mil, eles escolhem dois de R$ 500 mil para não terem o trabalho de análise e, com isso, baterem a meta de alienação no período estipulado”, exemplifica.

Dados internos da companhia, que a reportagem teve acesso exclusivo por meio de uma fonte que preferiu não ser identificada, mostram que foram alienados 9.800 tipos de materiais desde o dia 1º de junho – todos novos ou em condições de utilização –, já descontados os itens deteriorados ou com prazo de validade excedidos.

Dos 9.800 diferentes materiais alienados desde junho, os relatórios apontam que 980 já possuem pedidos de compra emitidos e outros 1162 estão em processo de aquisição. “Isso comprova que a Petrobrás não aplica o critério de potencial de utilização e está recomprando por preços atualizados os mesmos materiais que vendeu por preços simbólicos, o que tem gerado prejuízo sistêmico bilionário para a companhia”, indigna-se José.

Sucateamento e desnacionalização

Esse desperdício não ocorre apenas pela falta de diálogo e controle entre os vários setores e unidades produtivas. Nos últimos anos, mudanças abruptas de projetos em curso levaram a companhia a perder bilhões de reais em sucatas, literalmente.

O caso mais emblemático ocorreu no Estaleiro Rio Grande, localizado no Sul gaúcho. Em 2010, a Petrobrás encomendou oito cascos de plataformas para a Ecovix, dona do estaleiro, pela quantia de R$ 10 bilhões.

Em 2016, entretanto, a Petrobrás decidiu transferir para a Ásia a construção de nove plataformas, que já estavam em construção ou que haviam sido encomendadas de estaleiros envolvidos na operação Lava Jato, incluindo a Ecovix. Todas as plataformas eram destinadas ao Campo de Lula, no pré-sal.

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Com isso, o Estaleiro Rio Grande, que chegou a ter 24 mil trabalhadores no seu pico de produção, transformou-se em um deserto de ferragens. Além da demissão em massa, a medida fez com que fossem vendidas como sucata cerca de 80 mil toneladas de estruturas de aço, que seriam utilizadas na construção das plataformas P-71 e P-72.

O abandono desses projetos em território nacional fez com que a indústria naval fechasse milhares de postos de trabalho. Apenas no Rio de Janeiro, um dos líderes do setor, foram demitidos 55 mil trabalhadores entre 2014 e 2018.

Essa política vai de encontro à política de conteúdo local existente no Brasil desde 1999. O mecanismo obriga que todo equipamento destinado à exploração de petróleo no país tenha uma porcentagem mínima de materiais produzidos pela indústria nacional. Ele foi feito para evitar a chamada “doença holandesa”, que se caracteriza pela extração e exportação de óleo bruto, sem o desenvolvimento da cadeia produtiva nacional.

O atual presidente da Petrobrás, Roberto Castello Branco, já fez duras críticas ao conteúdo local. Em 2019, ele afirmou que essa regra foi responsável por uma “história desastrosa, perda de produtividade e corrupção” e, ainda, “trouxe enorme prejuízo, não somente para a Petrobrás, mas para todo o país”.

*Os nomes das fontes foram modificados para garantir o sigilo. 

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