Trabalhadora do sexo: “Nossa luta é para garantir os direitos de toda uma categoria”

Prostituta e uma das principais lideranças das trabalhadoras do sexo de Campinas (SP), Betânia Santos aborda nesta entrevista os preconceitos e principais desafios da profissão

Betânia Santos se consolidou como liderança feminina entre as prostitutas de Campinas: “Um dos principais desafios enfrentados é a quebra do estigma” (Foto: Divulgação)

Por Vítor Peruch 

Nesta entrevista exclusiva concedida ao Sindipetro Unificado, a prostituta Betânia Santos, uma das lideranças da Associação Mulheres Guerreiras, que organiza as trabalhadoras do sexo na cidade de Campinas (SP), revela os desafios enfrentados e os avanços conquistados na batalha pelos direitos da profissão. 

Betânia nasceu no interior do Maranhão, na cidade de Caxias, e veio para o Jardim Itatinga, em Campinas, em 1990. A Associação Mulheres Guerreiras representa um coletivo de profissionais do sexo e foi criada por trabalhadoras que atuam no Centro da cidade. 

Oficialmente, seu registro data de 2007, mas Betânia conta que a sua luta por mais dignidade para as profissionais começou antes, na década de 1990.  Após a sua criação, o grupo tem se dedicado à busca por melhores condições de trabalho para a categoria que representa, visando ao reconhecimento enquanto trabalhadoras; à qualidade e segurança no trabalho; e à quebra do estigma existente em volta da profissão. 

Confira a entrevista abaixo: 

 Poderia se apresentar e contar como foi o início dessa sua luta?

Meu nome é Betânia Santos, tenho 51 anos de idade, dos quais 33 foram dedicados ao trabalho sexual. Minha jornada de ativismo teve início em 1998, quando me envolvi com a Pastoral da Mulher. No entanto, foi somente em 2007 que percebi que nossa luta ia além da defesa dos direitos das mulheres; era sobre garantir os direitos de toda uma categoria. Afinal, o trabalho sexual é uma atividade que pode ser exercida por qualquer pessoa com mais de 18 anos.

Quando a Associação Mulheres Guerreiras começou a se envolver com outros sindicatos e como isso ressoou entre as trabalhadoras?

A Associação Mulheres Guerreiras foi acolhida pela CUT [Central Única dos Trabalhadoras] Campinas desde 2009, graças ao apoio de Bel, da CUT, e Clarice, duas mulheres incríveis que acreditaram em nossa categoria e nos abriram essa possibilidade. A partir desse apoio, estamos caminhando em direção à sindicalização e aqui estamos, firmes na nossa luta.

Na sua opinião, quais são os desafios semelhantes aos de outras categorias de trabalhadores e trabalhadoras e quais são as principais diferenças? Como a unidade de trabalhadores pode contribuir para a aproximação dessas categorias? 

Um dos principais desafios enfrentados é a quebra do estigma, que ainda persiste de forma significativa. A única semelhança que costumo destacar é com o trabalho doméstico, que todos realizamos, mas não somos reconhecidas.

Com a evolução do debate sobre a regulamentação da profissão no Brasil, quais mudanças significativas têm sido observadas, e como a Associação tem contribuído e se posicionado nesse contexto? 

O debate prossegue, porém, agora não se trata apenas da regulamentação, uma vez que a prostituição não é considerada crime. No entanto, o foco está nos locais onde exercemos nossa atividade, pois são esses locais que, segundo a legislação, podem configurar um crime. Eu considero isso ridículo, pois esses locais são essenciais para nossa segurança.

Como a Associação Mulheres Guerreiras enxerga o futuro do movimento sindical das profissionais do sexo no Brasil e quais são os próximos passos nessa luta por direitos?

A Associação Mulheres não enxerga o futuro, e sim luta para que esse futuro seja muito melhor para nossa categoria.

 

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