O território da Ucrânia é estratégico para todos esses atores, por diferentes motivos. Em primeiro lugar, porque abriga uma rede de dutos que transportam petróleo e gás natural da Rússia à Europa Central, onde estão seus maiores consumidores. 

Tensão na Ucrânia e crise energética: o poder de barganha dos países envolvidos

Em meio a pressões dos EUA, dependência mútua entre Rússia e grandes compradores de gás natural pode evitar conflito bélico

Reunião do ministro da Defesa com comandantes das Forças Armadas
Oleksii Reznikov, ministro da Defesa ucraniano, se reúne com comandantes das Forças Armadas do país (Foto: Ministério da Defesa da Ucrânia)

Por Daniel Giovanaz, especial para o Sindipetro-SP 

Ex-república soviética com população inferior ao estado de São Paulo, a Ucrânia ocupa o epicentro das tensões geopolíticas no Hemisfério Norte em 2022. De um lado do tabuleiro, está a Rússia, de Vladimir Putin. Do outro, os Estados Unidos e países-membros da União Europeia (UE). 

O território da Ucrânia é estratégico para todos esses atores, por diferentes motivos. Em primeiro lugar, porque abriga uma rede de dutos que transportam petróleo e gás natural da Rússia à Europa Central, onde estão seus maiores consumidores. 

A Alemanha, por exemplo, é o coração industrial do Velho Continente e importa quase 90% do gás que utiliza. Deste volume, metade é oriunda da Rússia. 

O Leste Europeu também é essencial para os planos de expansão da Otan, principal aliança militar do Ocidente, que tenta viabilizar a filiação da Ucrânia e da Geórgia – outra vizinha da Rússia, que também integrava a União Soviética (1922-1991). 

Governos alinhados a Moscou foram derrubados na Geórgia, em 2003, e na Ucrânia, em 2004, por meio de “revoluções coloridas”. O termo caracteriza o apoio ou a participação dos EUA em manifestações políticas de oposição em países considerados estratégicos, de modo a causar instabilidade e abrir caminho para regimes pró-Ocidente.

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Desde 2014, a Rússia vem reforçando sua presença militar na fronteira com a Ucrânia, em resposta ao avanço das forças da Otan. A movimentação de tropas, dos dois lados, se intensificou nas últimas três semanas. 

“A Otan foi criada [em 1949], entre outros objetivos, para combater a União Soviética. Então, no imaginário russo, esse avanço é uma provocação: é um inimigo que está se expandindo para o limiar de suas fronteiras”, explica Késsio Lemos, mestre em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e doutorando em Relações Internacionais pelo Programa San Tiago Dantas (Unesp, Unicamp, PUC-SP). 

“Vale lembrar que a Rússia historicamente sofre invasões: é um território muito vasto e desprovido de fronteiras naturais. E, já no começo da era Putin [1999], foi delimitado que o espaço pós-soviético é de interesse vital do governo russo”, ressalta. 

Antecedentes 

Ucrânia e Geórgia fazem parte do chamado “continente euroasiático”, entre Europa e Ásia. A aproximação de ambas com o bloco ocidental é objeto de tensões há décadas. 

“A Rússia já conseguiu vetar o processo de incorporação desses dois países [à Otan] em 2008, com sua entrada vitoriosa na ‘pequena guerra da Geórgia’”, lembra José Luís Fiori, professor do Programa de Pós-Graduação em Economia Política Internacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). 

“Foi a primeira vez em que os russos disseram, em alto e bom som, um ‘não’ à expansão da Otan”, observa. 

Pesquisador de relações geopolíticas mundiais e geoeconomia, Felipe Camargo enfatiza que o interesse da Rússia sobre a região não se restringe ao mercado do gás. 

“A Ucrânia tem grande capacidade agrícola e industrial, especialmente na região de Donbass, que está em disputa hoje. Então, a captação da Ucrânia para o lado da Otan [desde 2014] impacta na cadeia de suprimentos da Rússia”, analisa Camargo, que é mestre e doutorando em Geografia pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). 

Luis Francisco Cassarotti, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e pesquisador do tema, fala obre o “sonho eurasiano” da Rússia. 

“Substitui o desejo de fazer parte da Europa, de participar das grandes decisões, de buscar soluções integradas. Isso não foi possível por conta de certo ‘ideal civilizatório’, defendido pelos EUA, que fazem prevalecer seus interesses na Europa, por meio da Otan, e vem atuando para afastar a Rússia do continente europeu”, analisa Cassarotti. 

Nesse cenário complexo, Putin dialoga com grupos nacionalistas e conservadores que enxergam a Rússia como um escudo dos valores e da civilização ocidental contra a “corrupção” do Ocidente. A presença militar na fronteira com a Ucrânia também se insere nessa narrativa.

“A Rússia vê o avanço da Otan também como a expansão de uma institucionalidade liberal, da ideia de democracia liberal. É importante notar que o sentido de democracia aqui é muito seletivo: democracia é o que eles consideram que seja, o que leva a uma visão preconceituosa, inclusive, da mídia ocidental sobre a Rússia”

Luis Francisco Cassarotti

Ao final da União Soviética, os EUA se comprometeram a evitar o avanço da Otan em direção ao leste. Esse pacto verbal vem sendo descumprido desde os anos 2000. 

A reação mais contundente da Rússia veio em 2014: a anexação da Crimeia, república na costa norte do mar Negro que pertencia ao território da Ucrânia desde 1954. A ação foi uma resposta imediata à chamada “Revolução Ucraniana”, que recolocou no poder um governo alinhado à UE e hostil a Moscou. 

“Desde então, a Rússia consegue manter um cenário de desestabilização que impede a Ucrânia de entrar na Otan”, ressalta Felipe Camargo. O estatuto da Otan veta a admissão de países em situação de conflito. Cerca de 7% da Ucrânia está sob controle russo, seja pelo governo, na Crimeia, ou por rebeldes separatistas no sudeste do país. 

A crescente militarização, somada à presença de grupos ultranacionalistas, de caráter neonazista e anti-Rússia, torna remotas as perspectivas de estabilização do país a curto prazo. 

Interdependência 

Na última semana, o chanceler alemão Olaf Scholz sinalizou que poderia interromper a compra de hidrocarbonetos se a Rússia atacasse a Ucrânia. 

Embora essa ameaça acenda um sinal de alerta em Moscou, o poder de coerção da Alemanha é limitado: com um inverno rigoroso, em plena crise energética, suas reservas de gás caíram à metade.

Na prática, a Alemanha é refém do combustível russo, a ponto de se recusar a enviar armas à Ucrânia – provocando irritação nos demais membros da Otan.

“O poder russo neste jogo de xadrez vem do fato de que os alemães abriram mão da energia nuclear e combatem o uso econômico do carvão, havendo escolhido o gás natural como sua fonte de ‘energia limpa’ mais imediata”

José Luís Fiori

A Rússia atende cerca de 40% da demanda europeia por gás natural, e essa fatia deve aumentar em breve. No segundo semestre de 2021, foi concluído o projeto Nord Stream 2, também conhecido como Gasoduto do Báltico, que permite duplicar o volume de gás exportado à Alemanha sem precisar passar pela Ucrânia. O custo da obra foi de US$ 11 bilhões – quase R$ 60 bilhões. 

O novo gasoduto ainda não está em funcionamento, especialmente por pressões dos EUA. O país liderado por Joe Biden tem grandes reservas de xisto, é produtor de gás natural liquefeito (GNL) e tenta viabilizar sua exportação à Europa, “mas o transporte do GNL é mais caro, pois requer uma usina de conversão tanto no país de exportação, quando no de importação”, lembra Késsio Lemos. 

“A Alemanha está sendo pressionada pelos dois lados e terá que se decidir em breve. É a partir dessa decisão que saberemos se haverá um conflito, de fato, ou o arrefecimento das tensões”, completa. 

O acirramento das tensões na Ucrânia, em um contexto de retomada da atividade econômica após o início da vacinação contra a covid-19, tem elevado o preço do petróleo, favorecendo os grandes exportadores – como a Rússia, que vende 5 milhões de barris por dia. Com o aumento da demanda global por energia, o poder de barganha de Putin só não é maior porque a economia russa depende em grande medida do mercado europeu.

As exportações de petróleo e gás representam mais de 40% das receitas da Rússia, amenizando os efeitos da pandemia e das crescentes sanções dos EUA. Assim, explica o geógrafo Felipe Camargo, restam dois caminhos aos russos, para extravasar a sua produção de gás: Europa e China. 

“Como a China também tem uma produção significativa e busca diversificar seus fornecedores, a economia russa continuará muito dependente dos importadores europeus”, encerra. 

Perspectivas 

Desde 2006, a Rússia interrompeu três vezes o fluxo de gás nos dutos que passam pela Ucrânia como forma de coerção. 

Embora essa continue sendo uma carta na manga, Putin evita ao máximo usá-la novamente, sob o risco de perder credibilidade como fornecedor junto à Europa e prejudicar sua economia. 

Longe de seu território e sem impacto em suas cadeias de suprimento, os EUA trabalham para evitar que Rússia e Alemanha encontrem um equilíbrio estratégico. Na prática, isso significa reforçar as sanções e manter as tropas da Otan na Ucrânia, evitando que Moscou amplie seu raio de influência. 

Luis Francisco Cassarotti, mestre em Relações Internacionais, enfatiza que, por enquanto, as movimentações russas são de caráter defensivo e não configuram uma “invasão iminente” – expressão usada recorrentemente nos EUA, com eco na mídia comercial do Brasil.

Ucrânia recebendo armamento
Ucrânia insiste que se arma apenas para garantir sua defesa, em caso de avanço russo (Foto: Ministério da Defesa da Ucrânia)

“A Otan vem distribuindo armamento pesado no entorno russo, sob o argumento de que seus sistemas de mísseis e radares são puramente defensivos. A Rússia reage por medo de que essas instalações sejam rapidamente transformadas em sistemas ofensivos”, descreve o pesquisador

“Enquanto as potências ocidentais continuarem afastando a Rússia e cedendo aos interesses dos EUA, haverá tensões cada vez maiores na fronteira, e restará à Rússia tentar se aproximar mais da China e de países emergentes”, completa. 

O geógrafo Felipe Camargo também considera pouco provável que a tensão evolua. “Há uma retórica de conflito, há investimento em tecnologias e produção de armas, mas não deve ocorrer uma guerra, de fato. O custo operacional e comercial seria muito alto para todos os lados”, finaliza o pesquisador. 

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