Revendedores de gás em greve, caminhoneiros podem parar: vem impeachment por aí?

Paralisações programadas para 1º de fevereiro podem abrir agenda de protestos

Manifestante durante carreata no dia 24 (Foto: Reprodução Octávio Rodrigues/Rede Anhanguera)

Como em um filme com enredo previsível, o governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) enfrenta um cenário de insatisfação crescente que talvez já estivesse num momento ainda mais agudo se a pandemia não tirasse a possibilidade de manifestações das ruas.

Diante da crise econômica e ações de irresponsabilidade durante a pandemia de covid-19, a proposta de impeachment parece ganhar força entre os movimentos sociais e dois segmentos ligados ao setor de combustível abrem o caminho das greves.

No dia 1º de fevereiro, os revendedores de gás do estado de São Paulo devem suspender a venda de botijões para protestar contra os sucessivos aumentos promovidos pela direção da Petrobrás para o gás de cozinha.

De acordo com a associação que representa o segmento, o preço subiu 49% para os revendedores desde o início da pandemia da covid.

Ao longo do primeiro ano do governo Bolsonaro, o ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou que o preço do gás de cozinha poderia cair pela metade. Em janeiro de 2018, o valor de um botijão em São Paulo era de R$ 67,31. Em janeiro deste ano, o preço médio é de R$ 75,77.

Leia também: Sindipetro-SP realiza a doação de quase 500 botijões de gás

Insatisfação também entre os caminhoneiros

Em 2015, durante a greve dos caminhoneiros, que tinha o impeachment da presidenta Dilma Rousseff (PT) como uma das bandeiras, imensas filas nos postos de combustíveis por conta da paralisação que impedia a chegada dos produtos marcaram a mobilização.

Ainda é cedo para dizer se haverá repetição do cenário, se as paralisações terão a mesma dimensão de 2013 ou 2018, mas a categoria marcou para o dia 1º de fevereiro uma paralisação contra o aumento do diesel e a ausência de uma legislação que criaria um piso mínimo de frete.

Uma das entidades que apoia a greve, a Confederação Nacional de Trabalhadores em Transporte e Logística (CNTTL), destaca que o preço do transporte não acompanhou os custos impostos pelo governo federal.

“Lamentável o reajuste da Tabela do Piso Mínimo de Frete, realizada pela ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres). Tivemos um reajuste de 2,51% que é ínfimo. Só para se ter ideia, o preço do pneu teve aumento nos últimos três meses de mais de 60%, seja nacional ou importado. Até hoje não tivemos o julgamento do Piso pelo STF. Não podemos suportar essa situação. Hoje temos um piso mínimo da fome”, apontou o porta-voz da confederação, o caminhoneiro autônomo Carlos Alberto Dahmer.

Em entrevista à BBC, um dos líderes do movimento de caminhoneiros em 2018 Wanderlei Dedeco destacou que ‘este é o pior governo que o Brasil já teve’ e o cenário se deteriorou em relação ao encontrado na época em que a presidenta Dilma estava no poder.

“Veja o preço do óleo diesel hoje, chega a estar R$ 4,40, R$ 4,50. Na época que nós fizemos paralisação, nós paramos porque o diesel estava R$ 3,30. O caminhoneiro, lá em 2015, no governo Dilma, parou porque o diesel estava R$ 2,80. Hoje, o diesel já está quase R$ 5 em alguns lugares. E o caminhoneiro está lambendo esse governo”, criticou.

Leia também: Governo usa covid-19 para fazer higienização social, aponta sociólogo

Mas e o impeachment?

No último dia 26, as centrais sindicais e as frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo divulgaram uma agenda de lutas que inclui o impeachment de Bolsonaro, a luta pela vacina já e a defesa do retorno do auxílio emergencial.

Também em 1.º de fevereiro, as organizações darão início a atos de entrega do pedido de impeachment no Congresso Nacional.

Segundo o vice-presidente da CUT, Vagner Freitas, não é possível sair da crise com Bolsonaro à frente do Brasil. “Bolsonaro no poder é o entrave para a solução da pandemia e do fim da crise econômica e social do país”, apontou.

Até hoje, foram protocolados 61 pedidos de impedimento contra o presidente na Câmara dos Deputados. Quatro foram arquivados e os outros 56 aguardavam que o presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ), prestes a encerrar o mandato, desse andamento ao processo.

Os mais recentes deles apresentados no dia 26 por lideranças evangélicas e católicas, que alegam crime de responsabilidade na condução da crise sanitária causada pela pandemia de covid-19, e nesta quarta-feira (27), por partidos que compõem a oposição (PT, PSB, PDT, PSOL, PCdoB e REDE).

Para o deputado federal Paulo Teixeira (PT-SP), o momento é de mobilização social para fazer com que os próximos presidentes da Câmara e do Senado encaminhem a abertura do processo.

Na avaliação do parlamentar, as carreatas pelo Fora Bolsonaro realizadas nos dias 23 e 24 deram início à construção de um clima capaz de pressionar os parlamentares.

“O Maia sai na segunda-feira (1.º), então, não há qualquer condição dele dar encaminhamento. A questão agora é fazer mobilização na sociedade para que o próximo presidente faça a sua parte. As carreatas, uma forma de mobilização segura, começaram a dar resultado e precisamos criar uma situação que coloque o impeachment no centro do debate”, pontou.

Para Teixeira, a saída do presidente é uma questão de vida ou morte para os brasileiros. “O Bolsonaro é responsável por grande parte de mortes, por muita gente indo para a miséria e para a fome. O que fizeram em Manaus também foi um crime, deixaram de providenciar oxigênio, ao mesmo tempo em que ofereceram cloroquina, um medicamento sem qualquer evidência de eficácia. E não providenciou a vacina, ao mesmo tempo em que estimulou o não uso da máscara. É um crime atrás do outro”, defendeu.

Saiba mais: Fechada por Bolsonaro, Fafen-PR produziria 30 mil metros cúbicos de oxigênio por hora

 

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