Reservas de gás estão se esgotando na Bolívia, o que fazer?

A Petrobrás possui tecnologia e mão de obra capacitada para realizar os investimentos necessários na prospecção e exploração de novas jazidas de gás natural

A ausência do gás boliviano põe o desenvolvimento industrial em risco e dificulta a transição energética para fontes de energias renováveis. (Foto: Divulgação)

Por Albérico Santos Queiroz Filho*

Notícias recentes indicam que a Bolívia esgotou suas reservas conhecidas de gás natural e já anuncia que deixará de exportar gás para o Brasil. Isso pegou o povo sul mato-grossense de surpresa e acende um sinal de alerta muito importante, pois o gás que abastece a região é proveniente do Gasbol, gasoduto que transporta e distribui o gás natural da Bolívia para o Brasil. Nesse horizonte, ainda sem muita perspectiva de solução em curto prazo, o risco de desabastecimento de gás natural é tratado com superficialidade.

Cerca de 30% do gás que importamos é proveniente da Bolívia, o que corresponde a 10 milhões de metrô cúbicos por dia (dados de 2020). Em maio de 2022, a YPFB (estatal petrolífera Boliviana) reduziu em 30% o fornecimento de gás natural. A alta no preço do gás se dá também pela sua escassez, e não adianta os diversos empresários se reunirem para cobrar do governo redução no preço do gás para que a indústria possa se desenvolver. O problema é sistêmico e muito mais complexo do que uma isenção fiscal.

Durante os últimos anos, o patrimônio nacional foi duramente atacado e entregue para o mercado, incluindo grande parte da malha de transporte do gás natural, que até então era de propriedade da Petrobrás. Não precisou ser um gênio dos negócios para concluir que o custo final do gás iria aumentar, pois todos esses “empresários” querem maximizar seus lucros e pouco se importam com o desenvolvimento nacional.

Colocar nossa matriz energética nas mãos do mercado é condicionar o desenvolvimento do país ao mínimo possível, pois nossos recursos serão transformados em lucro para os acionistas e não em melhoria na qualidade de vida da população. A reestatização das malhas de gás privatizadas e o retorno dos investimentos no setor são marcas que precisam ser superadas se quisermos baixar o preço do gás de maneira economicamente sustentável a médio prazo.

O Brasil precisa fortalecer as parcerias comerciais com a Bolívia, inclusive com investimentos no setor de petróleo e gás, não só pela necessidade de ajudar no desenvolvimento industrial da América latina, mas também para garantir o fornecimento para os estados mais distantes da costa litorânea. A Petrobrás possui tecnologia e mão de obra capacitada para realizar os investimentos necessários na prospecção e exploração de novas jazidas de gás natural, buscando ao máximo aproveitar a malha já existente do Gasbol.

A ausência do gás da Bolívia coloca o desenvolvimento industrial da região e do Brasil em risco, além de dificultar a transição energética para fontes de energias renováveis. É preciso lembrar que indústrias como a FAFEN-MS [Fábrica de Fertilizantes de Mato Grosso do Sul], que produzirá cerca de 18% dos fertilizantes do consumo doméstico brasileiro, pode se tornar inviável – tanto a cadeia de produção do biodiesel quanto a do etanol sofrerão o impacto dessa possível ausência de fertilizantes no mercado brasileiro.

Além disso, é fundamental entender que a falta dos fertilizantes causa impacto principalmente na produção de alimentos para consumo humano, que precisará disputar com os grandes produtores de commodites em correlação de forças absolutamente injusta. Isso poderá causar um aumento dos preços dos alimentos e, consecutivamente, da fome, a mesma que o mercado insiste em tratar como uma consequência natural da vida e não como uma decisão política sobre qual setor terá seu desenvolvimento incentivado.

* Albérico Santos Queiroz Filho é diretor do Sindipetro Unificado.

 

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