Replan ameaça responsabilizar petroleiros por aumento de casos de coronavírus

Após reativar unidade de craqueamento e gerar aglomeração, gerência da maior refinaria da Petrobrás abre auditorias para verificar possíveis negligências dos trabalhadores nas medidas de prevenção da covid-19

Aumento de casos ocorreu após partida de unidade que estava paralisada devido à pandemia (Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)

A gerência da Refinaria de Paulínia (Replan), localizada no interior de São Paulo, está protagonizando uma inversão de responsabilidades em relação ao aumento de petroleiros contaminados pela covid-19 na divisão de Craqueamento Catalítico Fluido (CCF).

Em decorrência da diminuição da demanda por derivados causada pela pandemia do novo coronavírus, a direção da Petrobrás mandou suspender, a partir de fevereiro, as atividades em uma unidade de destilação e outra de craqueamento da Replan, a maior em capacidade de refino da estatal.

Entretanto, apesar do mercado ainda se manter desaquecido, a Replan convocou os trabalhadores para reativar o funcionamento dessas unidades no dia 19 de junho. A “partida”, como é denominada internamente, acabou gerando aglomeração pela necessidade de mão de obra extra, inclusive de terceirizados.

Após a reativação, entretanto, um vazamento ocasionou um incêndio que paralisou novamente o craqueamento e, consequentemente, provocou nova concentração de pessoas. Depois da interrupção forçada, a nova partida ocorreu no dia 26 de junho.

Para completar o número mínimo de pessoal previsto para o funcionamento do CCF, que é entre 12 e 14 pessoas, a gerência requisitou petroleiros de folga. Isso gerou ainda mais interações e desrespeitou a própria medida de segurança interna de mitigação da covid-19, que é isolar os grupos de trabalho.

“O discurso que a saúde e vida está em primeiro lugar, nessa partida do craqueamento ficou em segundo lugar. Em primeiro lugar ficou a produção. O pior é que agora está sobrando combustível, não tem onde armazenar. Então, existe um questionamento, antes de tudo, se era necessário ter a partida”, questiona um dos petroleiros, que preferiu não se identificar.

Além disso, em plena pandemia, o corpo diretivo decidiu mesclar os grupos de trabalho a partir da experiência de cada integrante. “Além de ter a partida e de solicitar os apoios, os iluminados gestores do nosso setor tinham feito um planejamento para remanejar pessoas para balancear os grupos. Deixar um [trabalhador] mais experiente, com outro menos experiente e outro que precisa de mais treinamento, por exemplo, em cada um dos grupos. Essa decisão gerencial acabou, mais uma vez, diminuindo o isolamento”, explica outro petroleiro, que também preferiu não se identificar.

Com isso, os casos de coronavírus no setor de craqueamento disparou, em comparação com o restante da refinaria, justamente a partir do décimo dia após a partida. A solução da direção, todavia, foi a abertura de auditorias para averiguar possíveis descumprimentos das regras para evitar o contágio, como uso de máscara, higienização das mãos e distanciamento.

“A gente achou uma cafajestice dizer que o aumento dos casos é devido a uma possível irresponsabilidade dos trabalhadores. Todos têm seguido o mesmo protocolo, mas houve um fato novo no craqueamento, que foi essa partida. A empresa está tentando repassar para os próprios trabalhadores uma responsabilidade que é dela”, aponta outro trabalhador, que também preferiu não divulgar sua identidade.

Para o diretor do Sindicato Unificado dos Petroleiros do Estado de São Paulo (Sindipetro Unificado-SP), Gustavo Marsaioli, existe uma contradição da empresa em diversas medidas que estão sendo tomadas durante essa pandemia. O diretor chama atenção, primeiramente, para a maneira como foram implementados os testes rápidos, nos dias de folga dos trabalhadores. “Na nossa opinião, a forma como a empresa está realizando o teste rápido é uma tentativa de descaracterizar qualquer contaminação laboral, já que não existe um argumento técnico para que ele seja feito na folga, devido ao tamanho da janela”, avalia Marsaioli.

Apesar dessa tentativa de se desfazer da responsabilidade, o fato da gerência tentar culpabilizar os próprios petroleiros pelo aumento do número de casos no craqueamento já é uma forma de assumir que a contaminação se deu em ambiente de trabalho. “De um lado, a empresa tenta não gerar nenhum tipo de nexo com contaminação laboral, mas ao tentar jogar a responsabilidade dos trabalhadores pelo aumento de casos nesse setor, ela está afirmando que pode haver, sim, contaminação no ambiente de trabalho”, aponta.

Marsaioli afirmou que o necessário, neste momento, é tomar todos os cuidados necessários em relação à saúde dos trabalhadores. “Pra nós, mais importante do que a questão de descobrir onde a pessoa se contaminou é tentar preservar a vida das pessoas em primeiro lugar. Caça às bruxas não ajuda em nada e apenas acirra os ânimos em um momento muito difícil pra gente”, conclui o sindicalista.

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