Empresa havia se comprometido a apresentar proposta antes de implantá-la, mas trabalhadores só souberam das mudanças por comunicado

Por Vítor Peruch
Trabalhadores da Refinaria de Capuava (Recap), em Mauá, começaram a receber hoje (28) comunicados sobre mudanças no sistema de transporte que devem entrar em vigor em 7 de setembro. O problema, segundo a direção do Sindipetro Unificado, é que as alterações foram anunciadas sem que a proposta tivesse sido previamente apresentada ao sindicato e discutida com os trabalhadores — contrariando um compromisso assumido pela gestão da refinaria em reunião realizada após as denúncias feitas pela entidade.
A mudança ocorre depois de meses de reclamações sobre o transporte da unidade, que envolvem viagens excessivamente longas, dificuldades de acesso aos pontos de embarque, descumprimento de critérios estabelecidos pela própria empresa e impactos sobre o descanso e a segurança dos trabalhadores.
RELEMBRE: Sindicato propõe Grupo de Trabalho para garantir melhorias no transporte da Recap
Em junho, diante da sucessão de problemas, o Sindipetro Unificado havia solicitado formalmente a criação de um Grupo de Trabalho (GT) com participação da empresa e dos trabalhadores para discutir uma revisão do modelo de transporte. A proposta previa analisar conjuntamente as condições enfrentadas tanto pelos empregados do horário administrativo quanto pelos trabalhadores do turno.
A empresa não aceitou a criação do GT, mas, de acordo com o sindicato, reconheceu os problemas apresentados e informou que realizaria um estudo para uma reestruturação das linhas, que seria apresentado previamente.
Agora, a entidade afirma ter sido surpreendida pela comunicação de mudanças que serão implementadas unilateralmente: “O problema é que a empresa assumiu o compromisso de apresentar a proposta ao sindicato antes de colocá-la em prática. Isso não aconteceu. Os trabalhadores já estão sendo comunicados de mudanças que sequer foram discutidas com quem vive diariamente os problemas do transporte”, afirma o diretor do Sindipetro Unificado, Pedro Augusto.
Compromisso era discutir proposta antes da implantação
A discussão atual é consequência direta de uma mobilização iniciada no primeiro semestre. Em 25 de junho, o Sindipetro Unificado encaminhou ofício à gestão da Recap solicitando a criação de um grupo de trabalho para revisar o sistema de transporte.
No documento, a entidade relatava problemas que atingiam trabalhadores do horário administrativo e do turno. Entre os casos apontados estavam deslocamentos superiores a duas horas por trecho, dificuldades para acessar os pontos de embarque e situações em que trabalhadores precisavam recorrer ao transporte público para chegar ao fretado.
O sindicato também relatou casos envolvendo trabalhadoras que precisavam caminhar longas distâncias em horários de pouca movimentação para conseguir acessar o transporte.
Para os trabalhadores do turno, que cumprem jornadas de 12 horas, a preocupação era ainda maior. Viagens prolongadas, segundo a entidade, reduzem o período disponível para descanso e podem aumentar os riscos associados à fadiga.
Após o ofício, a empresa marcou uma reunião para tratar do assunto. Segundo Pedro Augusto, embora a proposta de criação do GT não tenha sido aceita, a gestão reconheceu a existência de problemas no modelo: “A empresa reconheceu que havia problemas e informou que estava construindo uma reestruturação das linhas. O compromisso apresentado ao sindicato era de que, nos casos mais graves, haveria uma atuação imediata e, para as mudanças estruturais, seria apresentada uma proposta para que pudéssemos discutir com a categoria antes da implantação”, relata o diretor.
A expectativa, segundo o sindicato, era que a área responsável pelo transporte apresentasse um estudo com as alterações planejadas. O material seria então levado ao sindicato, debatido com os trabalhadores e, somente depois, colocado em prática.
Sindicato cobra solução para problemas que continuam no dia a dia
Enquanto a proposta não era apresentada, os problemas continuaram sendo relatados pelos trabalhadores.
O sindicato afirma que vinha cobrando reiteradamente a gestão da refinaria e o setor de Recursos Humanos por respostas e, principalmente, por medidas emergenciais para situações consideradas mais graves.
A demora tornou-se ainda mais preocupante porque, segundo a entidade, as dificuldades não são apenas uma questão de conforto ou conveniência. O tempo gasto nos deslocamentos interfere diretamente na rotina de quem trabalha na refinaria.
“Estamos falando de trabalhadores que já cumprem jornadas extensas e que, em alguns casos, passam horas dentro de um ônibus antes e depois do trabalho. Isso tem consequência sobre o descanso, a vida familiar e também sobre a própria segurança operacional”, afirma Pedro.
O problema, portanto, ultrapassa a discussão sobre itinerários. Para o sindicato, o transporte integra as condições de trabalho e precisa ser planejado levando em consideração a realidade de quem utiliza o serviço diariamente.
Mudança unilateral reacende preocupação
A comunicação das novas alterações, segundo o Unificado, muda o cenário da negociação.
A entidade afirma que não conhece os critérios utilizados para elaborar a nova configuração das linhas e, portanto, não tem como avaliar se as mudanças efetivamente solucionarão os problemas denunciados nos últimos meses.
“Não somos contra a empresa buscar soluções. Pelo contrário: estamos cobrando isso há meses. O problema é implementar uma mudança sem discutir adequadamente com os trabalhadores e sem sequer apresentar previamente ao sindicato a proposta que havia sido anunciada”, diz Pedro Augusto.
Para o diretor, a participação de quem utiliza o transporte diariamente é fundamental para identificar problemas que podem não aparecer em um estudo elaborado apenas a partir de dados administrativos: “Quem está todos os dias no ônibus sabe onde a linha não funciona, onde o ponto é inadequado, quanto tempo a viagem está levando e quais situações colocam o trabalhador em risco. Ignorar esse conhecimento é desperdiçar uma das principais fontes para encontrar uma solução que realmente funcione.”
A situação também coloca em questão a própria proposta de criação de um Grupo de Trabalho apresentada pelo sindicato em junho. Para a entidade, um espaço permanente de diálogo permitiria acompanhar as mudanças, avaliar os resultados e corrigir problemas antes que eles se transformassem novamente em novas reclamações.
Sindicato avalia próximos passos
Diante do que considera um descumprimento do compromisso assumido pela gestão da Recap, o Sindipetro Unificado afirma que irá discutir internamente os próximos passos da mobilização.
A entidade orienta os trabalhadores a permanecerem atentos às mudanças anunciadas para setembro e aos novos encaminhamentos que serão divulgados pelo sindicato.
“A empresa teve a oportunidade de construir essa solução junto com os trabalhadores. Nós apresentamos uma proposta concreta, ouvimos a categoria e levamos os problemas para a gestão. Agora, quando a empresa anuncia uma mudança sem sequer apresentar a proposta ao sindicato, entendemos que houve a quebra de um compromisso que havia sido assumido”, afirma Pedro Augusto.
Para o sindicato, a discussão não termina com a alteração das linhas. Ao contrário, a implantação de um novo modelo sem participação dos trabalhadores pode abrir uma nova etapa da cobrança para que a empresa demonstre que as mudanças são capazes de resolver, de fato, os problemas acumulados no transporte da Recap.
