Quais os caminhos para retomar a Petrobrás?

A reportagem ouviu um integrante da equipe de transição e uma representante dos trabalhadores para entender quais serão as prioridades do governo Lula em relação à maior empresa estatal do país 

Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados do Paraná (Fafen-PR) foi uma das fechadas por Bolsonaro. Governo Lula deve voltar a investir no setor de fertilizantes a partir de janeiro (Foto: Agência Brasil)

Após quatro anos de “desinvestimentos” no governo Bolsonaro, o que o brasileiro pode esperar para o futuro da Petrobrás? São muitos aspectos a serem analisados, mas a equipe de transição de Minas e Energia do Governo Lula já dá sinais de quais caminhos a estatal deve seguir. 

O Governo Bolsonaro vendeu ativos estratégicos da empresa e entregou para o mercado financeiro. A Liquigás e a BR Distribuidora são só dois dos exemplos mais simbólicos dessa gestão. Além delas, refinarias, campos de petróleo, polos petroquímicos, fábricas de fertilizantes e gasodutos também foram vendidos. 

Essa política significou uma inflexão nos objetivos pelos quais a estatal foi criada. A Petrobrás, desde a sua fundação, colocou-se como um motor do desenvolvimento nacional a partir de uma atuação integrada em diversos setores do setor energético, além de ter o abastecimento doméstico de combustíveis como pressuposto básico. Entretanto, a missão da estatal começou a mudar na gestão de Pedro Parente, em 2016, no governo Temer, e se intensificou durante os últimos quatro anos. 

Segundo a diretora do Sindicato Unificado dos Petroleiros do Estado de São Paulo (Sindipetro-SP) e da Federação Única dos Petroleiros (FUP), Cibele Vieira, os últimos governos fizeram com que a Petrobrás agisse como uma empresa privada. “O que a gente viu foi uma Petrobrás que não se preocupa com o desenvolvimento nacional, com a necessidade do Brasil e do brasileiro. É uma Petrobras que se comportou como uma empresa privada, voltada para gerar lucros, exclusivamente para os acionistas”, afirma Cibele. 

De acordo com Vieira, os últimos balanços da empresa indicam qual era a real preocupação do atual governo em relação à Petrobrás. “A porcentagem da riqueza gerada pela Petrobrás que fica com os trabalhadores e trabalhadoras vem caindo, a porcentagem que é repassada em impostos também vem caindo, a porcentagem que fica com a cadeia de suprimento, com fornecedores, vem caindo. E o que vem aumentando da riqueza gerada são justamente os dividendos, ao ponto absurdo da Petrobrás repassar mais do que 100% dos lucros dela em dividendos aos acionistas nos últimos anos”, explica. 

Nesse sentido, o petroleiro e integrante do GT de Minas e Energia da equipe de transição, Danilo Silva, aponta que essas políticas afetaram o processo de integração que havia na Petrobrás. Se antes a estatal atuava do “poço ao poste” ou “do poço ao posto”, isso deixou de ser possível a partir do momento em que distribuidoras, gasodutos e refinarias foram vendidos. “O processo que o governo Bolsonaro intensificou quebrou a capacidade da Petrobrás de integração. Ao deixar de ser uma empresa integrada de energia, passou a ser uma empresa com foco meramente em exportação de petróleo. Ou seja, retirar o óleo do pré-sal e vender para fora. E assim fazer caixa e distribuir para os acionistas. Com essa lógica, você penaliza o povo brasileiro a pagar o preço das oscilações do barril de petróleo”, opina.

Por isso, o primeiro desafio é entender o “tamanho do buraco” e os impactos desses quatro anos de desinvestimentos, de acordo com o petroleiro. “O primeiro passo é entender o tamanho do problema. Tem muita coisa que ainda está aparecendo e precisamos entender. É diagnosticar antes de já pensar na solução”, aponta Silva.

Entretanto, mesmo ainda com algumas dúvidas sobre a empresa e o setor de energia, já é possível identificar qual será o caminho a ser tomado pelo próximo governo. Durante sua campanha, Lula falou diversas vezes sobre a questão do gás de cozinha. “É onde atinge mais o povo brasileiro e Lula deve priorizar o preço do gás de cozinha”, acredita Silva. 

Além deste objetivo, outras pautas surgem como preponderantes já nesta fase de inicial de diagnóstico. Nas últimas semanas, o GT de Minas e Energia da equipe de transição se reuniu com a direção da Petrobrás com o intuito de paralisar todas as vendas de ativos da empresa. Este é um indicativo de como deve ser a postura do Governo Lula, que deve retroceder na política de desinvestimentos vigente. 

Leia mais: Equipe de transição solicita à Petrobrás suspensão de vendas de ativos

A equipe de transição também discutiu a retomada do setor de fertilizantes. De acordo com membros do GT de Minas e Energia, esse é um setor estratégico para a soberania alimentar e poderá contribuir com a reindustrialização do país. 

Leia mais: Com petroleiros, equipe de transição discute retomar setor de fertilizantes

Combustíveis a preço justo

Outro grande desafio é a questão da política de preços. Atualmente, o Preço de Paridade de Importação (PPI) é o modelo adotado pela estatal. Apesar de se colocar como um grande desafio, essa também deve ser uma das principais bandeiras do governo Lula. 

De acordo com Vieira, baixar os preços é fundamental para que a Petrobrás volte a exercer seu papel social. “Na prática, nem o Bolsonaro respeitava mais o PPI. Ele tem que acabar. Tem todo um debate – que é muito importante – sobre como fazer uma política de preços de combustíveis, mas com certeza essa política atual não ficará. É um absurdo essa política da internacionalização dos preços dos combustíveis”, defende Cibele. 

Silva também defende o fim do PPI, mas concorda que este é um desafio maior para o governo. “Precisa retomar o investimento, precisa suspender as vendas de ativos, precisa olhar para o gás de cozinha, mas depois você precisa olhar para o PPI. Tem que acabar com o PPI  e construir maneiras que deem garantias para a Petrobrás não ficar refém do preço do barril internacional”, pondera.

Entender o tamanho do retrocesso deixado pelo governo Bolsonaro, suspender as privatizações, retomar os investimentos, reinvestir no setor de fertilizantes, reintegrar a estatal e implementar uma nova política de preços. Fica claro que o governo Lula terá inúmeros desafios para o futuro da Petrobrás.

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