Precisamos falar sobre suicídio

Setembro amarelo trouxe ao debate casos que têm como fator de origem um mercado de trabalho baseado no abuso

Setembro amarelo trouxe o suicídio aos debates para compreender, prevenir e oferecer conforto aos familiares de quem enfrenta essa situação (iStockphoto/Getty Images)

O número de mortes por suicídio a cada 100 mil habitantes aumentou 15% no Brasil entre 2013 e 2017. O crescimento é apresentado no Atlas do Desenvolvimento no Brasil, divulgado no último dia 29 pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), pela Fundação João Pinheiro e pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD Brasil).

Os índices saltaram de 5,33 suicídios a cada 100 mil habitantes, em 2013, para 6,01, em 2017, com incidência 3,5 vezes maior entre homens (4,72%) em relação às mulheres (1,28%).

Ainda considerado tabu, o assunto é tema, desde 2015, de uma campanha criada pelo Centro de Valorização da Vida (CVV), a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e o Conselho Federal de Medicina (CFM), chamada ‘Setembro Amarelo’, que traz a questão, considerada de saúde pública pela Organização Mundial de Saúde (OMS), para o centro das discussões.

Uma ação essencial para discutir as raízes das estruturas sociais que temos construído, conforme aponta a psicóloga clínica Olga Carolina Figueiredo.

Para ela, o período de isolamento social aprofunda um cenário que já era bastante opressor, especialmente quando o tema se refere a relações trabalhistas no Brasil.

“O isolamento social favorece uma série de doenças e transtornos de saúde mental, que podem levar a uma crise suicida, principalmente diante dos diferentes problemas sociais, financeiros, políticos, entre outros”, explica.

Segundo ele, que atuou nos serviços de Proteção Especial de Assistência Social, programa do governo federal que atende pessoas em situação de vulnerabilidade, o cenário criado a partir da pandemia e a flexibilização das leis trabalhistas fazem com que seja criada uma estrutura em que se aceita adoecer para sobreviver.

“O modelo de trabalho que temos é altamente tóxico. Baseado ainda em competições extremamente injustas, vaidades, salários discrepantes, metas inatingíveis, jornadas de trabalho excessivas e reduções de quadro de funcionários, gerando sobrecarga de atividades”, afirma.

Olga Carolina aponta também que, ao se considerar o alto índice de desemprego no país, há uma ideia observada na sociedade de que as pessoas que passam por isso “deveriam agradecer” por essas situações degradantes já que “ao menos” têm um trabalho.

“O ciclo de sofrimento, estresse e acometimento de doenças acontece porque o indivíduo se sujeita a péssimas condições de trabalho, mas porque precisa se manter no emprego”, relata.

Segundo levantamento da Organização Mundial da Saúde (OMS), divulgado em 2017, o Brasil lidera o número de indivíduos com Transtorno de Ansiedade, com 18,6 milhões de pessoas impactadas de alguma forma. Além disso, é o quinto em habitantes que apresentam sintomas ligados à depressão, chegando a 11,5 milhões de pessoas.

Questões que podem dialogar diretamente com o crescimento dos casos de suicídio e que estão associados também a uma falta de preocupação com o ritmo que as empresas impõem e com a estrutura que oferecem aos trabalhadores.

Isolamento e embarque

Médico especialista em saúde do trabalhador e consultor do Sindicato Unificado dos Petroleiros de São Paulo (Sindipetro Unificado-SP), Adilson Campos ressalta que o segmento de embarcados, em que os petroleiros passam quase duas semanas integralmente à disposição da empresa em plataformas e longe dos familiares, deveria receber atenção maior da companhia.

“Esses trabalhadores deveriam ser monitorados pelo serviço médico de uma maneira rigorosa, porque o suicídio é um processo que já vem de uma desestabilização emocional, um distúrbio que precisa ser tratado. É um risco relacionado à organização do trabalho”, afirma.

Porém, isso está longe de acontecer, conforme explica o técnico mecânico com mais de uma década de empresa que pediu anonimato por medo de represálias.

As jornadas de 14 dias na plataforma são intercaladas por 21 dias de descanso, com turnos diários de 12 horas e, para muitos, a oportunidade de ficar mais dias próximo à família é considerada uma vantagem.

Mas, ele explica que o período de isolamento, quando fica impedido de andar na rua ou de manter contato com a natureza, provoca um cenário monótono e, muitas vezes, angustiante.

“A gente nem conversa muito sobre isso quando está embarcado, acho que para não demonstrar fraqueza, não atrapalhar o outro, mas vemos que há mudança de humor nas pessoas lá pelo 11º, 12º dia. Conheço muitos que pararam de embarcar porque desenvolveram medo de entrar em helicóptero”, lembra, referindo-se ao processo de transporte para as plataformas.

Como analisado anteriormente pela psicóloga Olga Carolina, o trabalhador relata que muitos petroleiros apresentam sintomas de desequilíbrio emocional, mas preferem não falar para não perder o emprego.

“Nas plataformas não há um especialista em tratamento psicológico, um apoio, o que tem é um médico generalista e a AMS (Assistência Médica de Saúde), além de um questionário psicossocial em que falamos sobre a qualidade do sono e a nossa satisfação com o trabalho. Mas, na verdade, as pessoas evitam dizer qualquer coisa que possa representar o risco de ser barrado no embarque, de perder o salário, principalmente no momento que a gente vive”, explica.

Com 27 anos de empresa e há oito anos na rotina de embarcado, o técnico de manutenção na Plataforma 51 (P-51), Márcio Mortari, 52, que já viu colegas de trabalho entrarem em crise durante o período de imersão, também reclama da estrutura oferecida pela companhia

Como um dos trabalhadores que teve diagnosticado o coronavírus antes do embarque, ele sentiu na pele a o abandono da por parte da empresa.

“A assistente social na plataforma é igual cabeça de bacalhau, a gente sabe que existe, mas nunca vimos. Quando a gente tem problema, vai para AMS. Não tem nem médico, a consulta é por videoconferência. Eu, por exemplo, tive coronavírus, fiquei sete dias isolado num hotel e o pessoal da Petrobrás só me ligou um dia. Ficamos largados lá em cima (nas plataformas)”, reclama.

Além do trivial

O médico Adilson Campos defende que os exames periódicos devam servir também para identificar possíveis desequilíbrios emocional apresentado pelos trabalhadores para que o diagnóstico ocorra no início do caso.

“A empresa tem obrigação de acompanhar a saúde de trabalhador, inclusive emocional, os exames periódicos não deveriam ser mera obrigação a ser cumprida. Nossa civilização é muito lastreada no trabalho, os distúrbios emocionais são multifatoriais, mas o trabalho passa a ser algo importante nessa multifatoralidade. E, com o home office, o trabalhador está ainda mais mergulhado em suas atividades laborais”, pontua.

Isso, claro, quando o emprego é formal, com carteira assinada, porque o desemprego, como observa a psicóloga Olga Carolina, pode ser um fator adicional de risco para o suicídio.

“A pessoa em sofrimento e em crise suicida geralmente se vê como não tendo mais saída para o problema que esteja enfrentando que não seja tirar a própria vida. Então, imaginemos um cenário triste e ruim, mas possível, uma pessoa deprimida, com sentimento de culpa constante, de peso na vida de outros, sem condições financeiras para pagar uma conta de água da casa onde vivem ela e seus familiares. Isso poderá ser um estopim”, observa.

Para ela, não há um perfil, mas sinais que podem indicar a tendência, como isolamento, expressões com sinais de tristeza, cansaço, desmotivação, expectativas negativas de futuro e vida, assuntos recorrentes sobre morte e a própria morte e afirmações como “quero sumir”, “não aguento mais”, “qualquer hora me jogo de algum lugar”, “não aguento mais sentir isso”.

“Falar em suicídio é refletir, abordar e discutir sobre muitas questões de saúde mental, como por exemplo, a depressão.”

Falar sobre

Olga Carolina e Campos concordam que falar sobre o tema é algo essencial para prevenir.

“É preciso perceber que a campanha para que o suicídio deixe de ser um tabu diz respeito à necessidade de se ter empatia, ofertar acolhimento, ambientes e relações que tornem possível que cada vez mais as pessoas se sintam menos julgadas. Para trabalharmos a prevenção, precisamos cada vez mais ofertar espaços de discussão, abordar o assunto, promover comportamentos gentis e empáticos, procurar e oferecer ajuda”, comenta a psicóloga.

A opinião é compartilhada por Campos. “Uma das melhores formas de lidar com situação extrema é sabermos que isso existe. É um problema de saúde pública e as pessoas precisam saber que todos nós corremos esse risco.”

No campo dos julgamentos, Olga Carolina indica ainda a necessidade de acolher a família que enfrenta essa situação sem estabelecer culpas. “Temos de tentar apoiar oferecer companhia e nunca invadir com perguntas por simples curiosidade, não julgar e não opinar com expressões do tipo “isso é falta de fé”, “a pessoa foi covarde”, “quanto egoísmo.”.

Onde buscar ajuda

Existem profissionais e voluntários formados para conversar por telefone por meio do Centro de Valorização da Vida (CVV), um dos mais conhecidos no país. Com atendimento 24h, o Disque 188 acolhe qualquer pessoa em todo território brasileiro.

Caso opte por se comunicar por e-mail, é preciso acessar o site. No portal do CVV, também encontra-se disponível um chat, de segunda a quinta-feira das 9h às 1h; às sextas-feiras das 15h às 23h; aos sábados das 16h às 1h e, aos domingos, das 17h às 1h.

Leia também: Trabalho e suicídio 

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