“Não podemos pagar em dólar se ganhamos em real”, afirma liderança dos caminhoneiros 

Em entrevista exclusiva ao Sindipetro-SP, o presidente da Abrava, conhecido como Chorão, relata como os caminhoneiros vêm reagindo à política de preços da Petrobrás 

Para o presidente da associação, governo federal tem coagido a categoria dos caminhoneiros ao aplicar multas por manifestações contra a alta dos combustíveis (Foto: Arquivo Pessoal)

Por Andreza de Oliveira | Edição: Guilherme Weimann

No dia 12 de março, a Associação Brasileira dos Condutores de Veículos Automotores (Abrava) solicitou ao governo federal a extinção da política de preços praticada pela Petrobrás, o Preço de Paridade de Importação (PPI). A entidade protocolou uma ação civil pública no Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1).

O pedido surgiu logo após os reajustes, anunciados no dia 10 de março pela estatal, de 18,8% nos preços da gasolina, 24,9% do diesel e 16,1% do gás de cozinha. 

Presidente da Abrava, Rodrigo Landim, apelidado de Chorão, comentou em entrevista exclusiva concedida ao Sindicato Unificado dos Petroleiros do Estado de São Paulo (Sindipetro-SP) como a política de preços da Petrobrás têm sido prejudicial para os caminhoneiros e quais são as expectativas com a ação judicial e outras possíveis mobilizações. 

Como os caminhoneiros estão se sentindo com os aumentos de preços causados pelo PPI? 

Temos uma linha de trabalho para proteger a categoria e entendemos que precisamos ser desatrelados do Preço de Paridade de Importação (PPI), porque nosso produto não deve ser precificado com moeda estrangeira.

O PPI foi proposto em 2016, na época do Michel Temer (MDB),  para trazer lucros para a Petrobrás, o que eu não sou contra, mas acho absurdo o lucro do último balanço, que foi de 1400%. 

O nome da Petrobrás já diz tudo, ‘o petróleo do brasileiro’, por isso a gente precisa unir forças para pressionar a estatal e o Congresso para que o presidente atual tenha coragem de retirar o PPI e fazer a escolha entre os acionistas e a classe trabalhadora, que é a mais prejudicada com isso.

Nós entramos com uma ação civil pública pedindo a suspensão dessa política, a juíza solicitou que a Advocacia-Geral da União (AGU) se manifestasse no pleito e a entidade entendeu que não é de responsabilidade do governo, mas, sim, da Petrobrás. A juíza então declinou transferindo a competência para o estado do Rio de Janeiro, então estamos aguardando esse momento para que o juiz possa ter sabedoria e entendimento. A tendência é pelo clamor público, porque não podemos pagar em dólar se ganhamos em real.

Quais os próximos passos que a Abrava pretende adotar para impedir os aumentos nos preços dos combustíveis? 

Essa pauta dos combustíveis não é exclusiva dos caminhoneiros, esse assunto envolve toda a sociedade, estamos falando de inflação na veia. O transporte em si não pode sofrer com isso com continuidade, e esse preço precisa ser repassado. Temos um levantamento que, inclusive, indica aumento para as próximas semanas.

Quem sofre mais é a população, porque atrás daquele caminhão tem um pai de família, então o trabalho da Abrava tem sido conscientizar toda a sociedade e todos os setores para que, unidos, possamos cobrar o fim do PPI.

Essas ações de bondade que o governo está propondo são, na verdade, ações de inflação, com o governo aumentando a taxa Selic, colocando dinheiro de mercado. E a gente já viu lá atrás que isso não deu certo, então a solução é a retirada do PPI.

Leia também: Política de preços da Petrobrás engorda bolso dos acionistas e penaliza população

Essa outra ação que o governo propôs, do ICMS [Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços] dos estados, ficou muito claro que no texto original fala da retirada de 30% do valor do imposto, e já tivemos um mega aumento de 25%, então é paliativo. Outra questão que ninguém coloca é sobre as armadilhas existentes dentro da Petrobrás, colocadas para o povo brasileiro, tanto é que 27% da composição da gasolina é do etanol, o que não tem nada a ver com moeda estrangeira, então o povo está sendo enganado e não podemos ficar calados. 

Quais as diferenças e semelhanças com o cenário de 2018, quando os caminhoneiros protagonizaram uma grande mobilização?

Em 2018, vínhamos em uma defasagem de inflação; hoje, o cenário se repete, só que com o PPI atrelado aos nossos derivados de petróleo. 

Somente em novembro do último ano eu voltei a participar de movimento, coisa que não fazia desde 2018. E, naquele dia, eu participei pelo fim do PPI e custo mínimo de frete para que realmente tenha fiscalização. Então eu recebi 29 liminares com multas de até R$ 1 milhão por dia, porque é dessa maneira que o governo tem coagido a categoria. 

Por isso, precisamos de muita responsabilidade para não direcionar a categoria para o abismo, porque já estamos na beira dele. Um transportador que se mobilizasse na rodovia receberia até R$ 100 mil de multa por dia, então tivemos que tirar o pé. Hoje, nossa estratégia é unir forças, conscientizar e trazer a sociedade junto, como em 2018.

Além dos caminhoneiros, qual o posicionamento dos donos das grandes empresas de transportes em relação à atual política de preços adotada pela Petrobrás?

O motorista de aplicativo está sofrendo tanto quanto os motofretistas. Por isso, hoje temos um diálogo muito bom com todos os setores para que possamos tomar uma atitude em conjunto. E volto a repetir: precisamos fazer um trabalho de conscientização da sociedade porque, com mais um aumento, o país para naturalmente, já que não vai ter condições de rodar.

Existe alguma perspectiva de mobilização dos caminhoneiros contra o atual governo?

Existe um trabalho de conscientização, mas vejo, sim, a possibilidade de uma parada natural e, se tiver hoje, eu me dedico para proteger a categoria dos transportadores autônomos.

Quais os setores que estão atuando em conjunto com os caminhoneiros?

Temos uma abertura de diálogo com os profissionais de transporte escolar, com os motoristas de aplicativo e até com os motoboys, conversamos com outros setores porque está todo mundo sofrendo. Estamos vendo uma sociedade que não possui condições de comprar um gás de cozinha e, como resposta, temos o aumento de 30% das queimaduras de 1º e 2º graus. Vivemos uma situação de desespero.

Como eu também ajudo na coordenação de frente parlamentar, na qual reunimos 235 deputados e 22 senadores, vejo que a atual leitura do Ministério da Economia é atuar somente em prol do mercado.

 

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