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População resiste há cinco anos de boicote na Venezuela

País com 32 milhões de habitantes, a Venezuela possui uma das maiores reservas de petróleo do planeta. Apesar da histórica dominação colonial, como ocorreu em toda a América Latina, a Venezuela tem um passado de lutas populares de libertação. Uma série de conflitos levou a que, em 1993, Hugo Chavez fosse eleito presidente da República e “refundasse” o país com base em princípios coletivas e sob o enorme poder do petróleo. Nos anos em que se manteve no poder, mesmo com ferrenha oposição da direita e tentativas de golpes de estado, Chavez criou as bases de um país moderno e que seguia uma política independente da ditada pelos EUA.

Com sua morte e o aprofundamento da crise mundial, a Venezuela passou a ser alvo de ataques ainda mais forte da direita internacional, sempre de olho na grande riqueza do país. Há cinco anos vive sob bloqueio econômico, o que impacta direta e profundamente a vida da população. Paralelamente, a mídia internacional faz uma extensa campanha para demonizar o governo venezuelano, com o objetivo de retirar Maduro do poder e tornar Venezuela novamente um satélite da política dos Estados Unidos (no Brasil, algo semelhante ocorreu com o impeachment de Dilma Roussef e a eleição de Bolsonaro).

A diretora do Unificado e da FUP, Cibele Vieira, esteve recentemente visitando o país em uma atividade da Assembleia dos Povos e conta, nesta entrevista, o que viu e como as pessoas reagem ao boicote econômico, aos ataques políticos e ideológicos que atingem o povo venezuelano 24 horas por dia há vários anos.

 

Por Norian Segatto

 

Cibele, como foi o convite para você ir para a Venezuela?

Cibele Vieira – Já havia sido organizada uma atividade internacional prevista para ocorrer na Venezuela chamada Assembleia dos Povos, que é um encontro de movimentos sociais de esquerda. O local já tinha sido decidido antes da crise econômica e política atual, porque a Venezuela é uma referência de esquerda. O acirramento do bloqueio ao país, o cavalo de Tróia que foi a tal ajuda humanitária dos EUA e a maior tensão política e social mudou o caráter da Assembleia, o que era para ser 80% dos debates para questões internacionais gerais e 20% para a Venezuela, se inverteu e a situação do país foi o centro das discussões.

 

Você foi pela FUP?

Sim, como a Venezuela é o maior produtor de petróleo do mundo e com os ataques que estamos tendo ao petróleo brasileiro, consideramos que era importante a FUP participar.

 

Teve uma Brigada da Juventude também?

Teve sim. Antes da Assembleia, fundamos a Brigada Internacionalista Che Guevara, eu fiquei 13 dias na Venezuela, dos quais nove foram com atividades da Brigada e quatro da Assembleia dos Povos. Essa brigada possibilitou uma visão muito significativa sobre a Venezuela.

 

Conta como foi.

Eram cerca de 150 jovens de uns 40 países, nos dividimos em sete grupos, o meu foi para a parte industrial, em Carabobo (estado da Venezuela) visitar uma fábrica de papel e uma de vidro, um centro de treinamento técnico e uma espécie de refeitório público, que fornece almoço gratuito e cesta básica para a população.

 

O governo da Venezuela escolheu esses locais para vocês visitarem?

Havia uma comissão organizadora com pessoas de diversos países, que escolheu os locais, mas houve um acompanhamento do estado desde a nossa chegada, porque fomos como uma delegação em visita oficial ao país.

Muita gente pergunta se a Venezuela é um regime autoritário. Qual foi a sua impressão estando lá?

É um país com tensão social por conta do bloqueio e dos ataques ao governo, mas não percebi uma perseguição sistemática às oposições, fui a vários lugares, nas ruas têm pichação contra e a favor do Maduro, pichação contra e a favor do candidato que disputou com ele, pelo voto nulo, tem espaço para as diversas opiniões da população; a maioria da mídia é contra o Maduro, o povo Venezuelano tem acesso à internet, pode ver notícias dos EUA e de todo o mundo, não tem essa questão de censura, tem um canal estatal, que faz contraponto a essa outra mídia, nesse sentido é até mais democrático do que o Brasil. Ouvi várias pessoas comentando que trabalhadores de empresas privadas se sentiam perseguidos por serem de esquerda. Carabobo é uma das regiões mais ricas da Venezuela, a direita tem bastante força lá, no dia em que eu iria voltar para Caracas aconteceu aquele episódio da fronteira e as pessoas não sabiam se iam conseguir chegar em suas casas porque tinham barricadas da direita nas ruas. A imprensa internacional costuma noticiar mortes em conflitos, mas tem muito mais gente de esquerda morta do que de direita.

 

E a eleição que o Maduro venceu?

Essa mesma mídia questiona, mas não tem a discussão se a eleição do Maduro [Nicolás Maduro foi reeleito em 2018, com cerca de 63% dos votos válidos) foi fraudulenta, no sentido de votos depositados nas urnas, o que ocorreu foi que alguns setores se negaram a participar do pleito e só reconhecem a eleição onde a direita ganhou, que foram apenas dois de 23 estados do país.

 

Deu para sentir como o boicote econômico atinge a vida das pessoas?

Deu sim, isso faz a gente pensar. A Venezuela tem o dinheiro do petróleo mesmo com o preço do barril estando mais baixo, só que a crise está aprofundada pelo boicote, porque não conseguem comercializar. Na fábrica de papel que fui visitar, falta polpa de celulose para fabricar papel, porque outros países, inclusive o Brasil, não vendem mais para a Venezuela, e mesmo que encontre alguma empresa que queira vender, exercer o livre comércio, os bancos não fazem a transação, não se consegue um agente financeiro para intermediar. É um absurdo. Essa fábrica passou a fabricar saco de cimento, pois não consegue mais fabricar papel, mas não consegue comprar máquinas, então teve de fazer uma linha de produção manual, o que produz em um dia, com uma máquina produziria em uma hora. Essa fábrica já pagou por uma máquina na Alemanha, mas ela não chega por conta do bloqueio. Os ônibus, por exemplo, são gratuitos, mas está faltando transporte porque não existem peças de reposição para fazer a manutenção dos veículos. A fábrica de vidro atende cerca de 80% da demanda do país, e está trabalhando com menos de 70% da capacidade, porque algumas partes da fábrica estão paradas por falta de peças. Para superar isso, estão fabricando peças que precisam.

 

E as pessoas culpam o Maduro por esse bloqueio?

Eu não senti isso, as pessoas que não votariam nele, continuam não votando e não gostando. Pessoas criticam mais a questão da situação econômica do país, a hiperinflação, do que questões ideológicas ou políticas. Tem escassez de alimentos, mas ninguém passa fome extrema porque tem um programa do governo de distribuição de alimentos, mas têm comércios fechados por conta do boicote.

 

Mas o país caiu na armadilha da dependência ao petróleo.

Sim, parece que sim, tudo era muito voltado para o petróleo e não se desenvolveu uma indústria e uma agricultura fortes. Imagina nós aqui no Brasil, que temos uma economia bem mais diversificada, se tivéssemos um boicote e não recebêssemos nada de fora, como seria? Muitas peças e partes de automóveis são importadas, não são fabricadas aqui.

 

Em uma semana não teria mais pão, pois o Brasil importa trigo.  

Exato, teria de ser autossuficiente em tudo, o que não existe. A paralisação dos caminhoneiros no ano passado deu uma pequena mostra do que é um país viver sem os produtos básicos. Imagina a situação do dia a dia do povo venezuelano e mesmo assim resistem, com toda a dificuldade.

 

E como é a imagem do Chavez?

Ainda é muito forte. A do Lula também, nas fábricas que visitei muita gente vinha perguntar sobre ele. Em um local perto do quartel 4F tem uma espécie de pequeno santuário do Chavez, que a população fez e tem até uma conversa de santificar o Chavez.

 

O papa Francisco é capaz de topar (risos)

 

O Maduro foi eleito com base nessa popularidade, o bloqueio existe há cinco anos, mas foi acirrando nos últimos tempos. Se você pensar que o Chavez morreu, o preço do petróleo despencou e o país está sofrendo bloquei há cinco anos, é incrível como o povo resiste, há um desgaste, é óbvio, a situação vai levando a um esgotamento. Eu sai com uma camiseta com a estampa do Maduro para ver a reação das pessoas e muitas diziam… é… Maduro, assim, assim, Chavez, sim, era o cara. Mais ou menos na comparação de Lula e Dilma aqui no Brasil, levando-se em conta que Chavez pegou o melhor da situação econômica do país.

 

E pessoalmente, o que você tirou dessa experiência.

Percebo que a luta tem de ser internacional, uma parcela da luta dá para fazer localmente, mas, para chegar ao nível de enfrentamento que a Venezuela está fazendo tem que ter apoio internacional, a gente não tem dimensão do que seja o bloqueio, as sanções econômicas, mas quando você vai lá e vê a situação do povo, pensa, tem que ter uma forma, porque isso não é democrático, prejudicar toda uma população porque não concorda com o governo daquele país, não é democrático e o Brasil ajuda esse boicote. O que a gente pode fazer aqui no Brasil é mudar a opinião pública sobre o boicote. É desumano. Mas ao mesmo tempo é inspirador ver a garra e a força do povo venezuelano.

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