Petroleiros baianos entram em greve e atos de solidariedade ocorrem em todo o país

Trabalhadores justificam a paralisação pela ameaça aos direitos e empregos decorrentes do processo de privatização da Refinaria Landulpho Alves

Principal reivindicação da categoria é a manutenção dos empregos e dos direitos dos trabalhadores próprios e terceirizados (Foto: Sindipetro-BA)

Por Guilherme Weimann

Petroleiros da Bahia entraram em greve por tempo indeterminado desde o primeiro minuto desta quinta-feira (18) e, a partir das 7h, iniciaram um ato em frente à Refinaria Landulpho Alves (Rlam), localizada no município de São Francisco do Conde, na região metropolitana de Salvador.

Organizados no Sindicato dos Petroleiros da Bahia (Sindipetro-BA), os trabalhadores questionam a falta de garantias da Petrobrás em relação aos empregos e direitos no processo de privatização da Rlam – a mais antiga refinaria do país e a segunda em capacidade de processamento de petróleo.

“Até o momento nada foi tratado com os trabalhadores e o sindicato sobre contratos de trabalho dos empregados próprios e terceirizados que estão em vigor. […] A deflagração da greve se dá pela luta pelos direitos, emprego e vida, pois na Petrobrás o assédio moral foi transformado em ferramenta de gestão”, afirma o documento do Sindipetro-BA enviado à direção da petroleira.

Em outro trecho, o texto afirma que a política vigente na empresa é a transferência constante de trabalhadores – atualmente, a Rlam possui 900 funcionários próprios e 1.700 terceirizados. “A atual política de pessoal da Companhia para seus empregados é conviver com as transferências para unidades que estão à venda ou que, em breve, também serão vendidas, com graves consequências para milhares de famílias, tudo isso em um ambiente laboral contaminado por assédios morais e perseguições de todas as ordens”, aponta o ofício.

A Petrobrás, por outro lado, soltou um comunicado interno direcionada a todos os trabalhadores da companhia no qual afirma que a paralisação pode ser considerada ilegal por ser contra a privatização da refinaria, em um flagrante ato de intimidação à categoria. 

“Alertamos os nossos empregados que uma eventual greve com essa motivação pode ser considerada abusiva, pois não preenche os requisitos legais para o exercício do direito de greve. Decisões recentes do Tribunal Superior do Trabalho (TST) confirmam esse entendimento. A greve só é legítima quando está relacionada à reivindicação de direitos dos trabalhadores, com salários e benefícios; caso contrário, é considerada abusiva e decorrem as consequências cabíveis para quem aderir à paralisação”, assinala o comunicado.

A estatal informou no dia 8 de fevereiro que aceitou a proposta de compra do grupo Mubadala Capital – um fundo soberano dos Emirados Árabes – por US$ 1,65 bilhão. De acordo com estudo do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep), a Rlam está avaliada entre US$ 3 bilhões e US$ 4 bilhões.

De acordo com o diretor da Federação Única dos Petroleiros (FUP), Arthur Bob Ragusa, esse processo de desinvestimento em curso está atrelado aos reajustes constantes dos derivados. “A Petrobrás está vendendo várias refinarias e terminais, privatizando o patrimônio nacional a preço de banana, por preço vil. Isso tem gerado aumentos sucessivos nos preços dos combustíveis, que o governo tem justificado, de forma mentirosa, pela carga de impostos”, opina Ragusa.    

Solidariedade

Outros sindicatos que compõem a FUP também iniciaram a manhã desta quinta-feira com atos em solidariedade à greve na Bahia. Em São Paulo, houve atrasos na entrada dos trabalhadores do turno ininterrupto nas refinarias de Paulínia (Replan) e Capuava (Recap).  

Na Recap, em Mauá, houve a participação de aproximadamente 60 pessoas, incluindo trabalhadores do setor administrativo. “Nós procuramos abrir os olhos dos companheiros e das companheiras no sentido de que as privatizações não estão afetando somente os trabalhadores daquelas unidades. Isso vai enfraquecer nossa luta no futuro, dificultar a defesa do nosso Acordo Coletivo e também dificultar qualquer resistência a um possível processo de privatização das refinarias de São Paulo”, relata Juliano Deptula, coordenador do Sindicato Unificado dos Petroleiros do Estado de São Paulo (Sindipetro-SP).

No final do ato, os petroleiros também realizaram um minuto de silêncio em homenagem a Jailson Melo Moraes, morto na última quarta-feira (17) por complicações decorrentes da covid-19.

Além do apoio à greve dos petroleiros baianos, o Sindipetro-SP também está pautando nas reuniões setoriais da Replan o número mínimo de efetivo, o pagamento das homologações, o fim do saldo AF, a marcação de férias e a mudança de ênfase.

Posts relacionados

Petroleiros de Alemoa fazem greve contra redução de efetivo

Andreza de Oliveira

MRV financia contratação de Diego Costa, mas nega papel higiênico aos trabalhadores

Guilherme Weimann

“As consequências serão drásticas para o país”, alerta pesquisador sobre privatização

Andreza de Oliveira