Petrobrás serve comida de baixa qualidade e insuficiente aos seus trabalhadores  

Petroleiros de três bases do Unificado reclamam da falta de qualidade da comida servida pela companhia

Omelete disponibilizada aos trabalhadores da Replan

Por Andreza Oliveira

Malfeitas e com péssimas condições de conservação, as comidas que compõem os cardápios dos restaurantes da Refinaria de Capuava (Recap), em Mauá, da Refinaria de Paulínia (Replan) e dos terminais da Transpetro na grande São Paulo, demonstram o descaso que a Petrobrás tem com seus trabalhadores. 

Com início no segundo semestre do ano passado por conta de um novo contrato, o desleixo com a alimentação dos petroleiros das três bases do Sindicato Unificado dos Petroleiros do Estado de São Paulo (Sindipetro Unificado-SP), que já era crescente, foi agravado com a pandemia de covid-19.

Com exceção dos trabalhadores da Transpetro, o vale-refeição não foi implementado nas refinarias e o delivery de comida não é permitido, deixando os petroleiros, por necessidade e falta de opção, dependentes da alimentação fornecida pela empresa.

“Antigamente o delivery era permitido, mas a empresa proibiu alegando que não teria o controle de qualidade das refeições que seriam recebidas, o que é uma hipocrisia porque a própria alimentação que ela nos fornece não tem acompanhamento pelo fiscal”, contesta o diretor de base da Replan, Júlio Ferreira.

Também por conta da pandemia, na Recap, Replan e nos terminais da Transpetro, os funcionários passaram a receber as comidas em embalagens de marmita, sob a justificativa de redução da possibilidade de transmissão da covid-19. Contudo, eles relatam que a qualidade da alimentação decaiu ainda mais após esse procedimento.  

Sucateamento do restaurante

Na Replan, as reclamações sobre a má qualidade dos alimentos estão mais intensas e chegaram ao seu ápice no momento em que a refinaria cessou o contrato com a Sodexo – que ainda é responsável pelo abastecimento da Recap – e contratou a empresa Muito Mais. No início da atuação, os trabalhadores do novo restaurante chegaram a entrar em greve devido aos baixos salários decorrentes do corte de gastos da Petrobrás no novo contrato. 

Dados obtidos pelo Unificado mostram que o contrato da Petrobrás com a Muito Mais foi estabelecido pelo valor de R$ 62,3 milhões de reais para que a empresa sirva todas as bases da petrolífera no estado de São Paulo até julho de 2023. Contudo, somente a unidade de Paulínia está sendo servida pela empresa. Demais informações, solicitadas pelo portal da transparência do governo, ainda serão apuradas.

Anteriormente, eram servidas três refeições diárias para o turno de 8 horas. Com o novo turno de 12 horas esse número foi reduzido para duas vezes ao dia e em menores quantidades. “Geralmente, a temperatura e a conservação não são nada apetitosas”, comentou Júlio ao explicar que houve também redução no número de carros que entregam os alimentos, resultando numa demora para que os trabalhadores consigam consumir a comida quente. 

Por lei, os trabalhadores de turno precisam consumir, além de alimentos in natura – com o mínimo de processamento possível -, lanches durante o intervalo do trabalho. Contudo, até mesmo essa refeição e as sobremesas foram afetadas. “O sanduíche é muito fraco, feito com pão industrializado e vem recheado com um queijo que parece plástico. Antes, as frutas disponibilizadas para a sobremesa eram mais variadas. Hoje, são sempre as mesmas, maçã ou banana”, comentou Júlio. 

Sanduíche servido aos petroleiros da Replan

Entretanto, as maiores reclamações são relacionadas às proteínas servidas. Geralmente, as carnes e ovos enviados aos trabalhadores possuem aparência estranha. “Tem dia que é impossível comer a carne de tão ruim que está e, quando aparenta ser melhor, está fria e sem tempero”, informou um petroleiro que preferiu não ser identificado. 

Saúde em jogo

Com a justificativa de buscar uma economia no contrato com a empresa que serve refeições, a Replan abre mão da preocupação com a alimentação dos petroleiros e, consequentemente, com o bom funcionamento da unidade. “Essa situação está afetando o funcionamento da empresa, porque as pessoas vão para trabalhar e além de não conseguirem se alimentar adequadamente, acabam jogando fora a comida, o que resulta também num desperdício de dinheiro para a Petrobrás”, informou o petroleiro que preferiu não ser identificado. 

O médico do trabalho que assessora o Unificado, Adilson Campos, explicou a  importância em se ter uma alimentação balanceada, pensada principalmente para as diferentes funções que são exercidas dentro da empresa. “Os trabalhadores que exercem atividades mais pesadas necessitam de uma alimentação com maior teor de carboidratos, diferente dos que trabalham majoritariamente com computadores, que precisam de comidas mais leves”, informou o profissional da saúde, que julga o acompanhamento de um nutricionista como fundamental para definir os cardápios da empresa. 

Medidas adotadas pela Petrobrás após as reclamações

Por meio de abaixo-assinados, trabalhadores da Replan exigem uma qualidade melhor na alimentação disponibilizada pela Petrobrás, já que para os funcionários em home office foi disponibilizado um vale-refeição de aproximadamente R$45 por dia (valor estabelecido em Acordo Coletivo com base em levantamentos do Dieese), contrastando com a situação dos trabalhadores de turno, que dependem exclusivamente do restaurante que cobra menos de R$ 20 da empresa para a produção do prato principal.

O Sindicato informou à Replan sobre as constantes reclamações relacionadas às refeições servidas pelo restaurante, mas até o fechamento desta matéria a empresa não se pronunciou. 

Após quatro meses desde a implantação da marmita como embalagem para os alimentos, a Recap retomou, após inúmeras reclamações por conta da má preparação das refeições, o sistema de autosserviço para seus funcionários. “Mesmo com o retorno do auto-serviço, a comida continua sem gosto e as condições de preparação permanecem iguais”, disse o petroleiro Rafael Malatesta. 

Já nos terminais da Transpetro em São Paulo, também com a piora dos alimentos servidos após o início da pandemia, os trabalhadores conseguiram recentemente a implantação do vale-alimentação, assim como ocorreu com os funcionários em home office, e a suspensão do contrato da empresa com o restaurante. 

 

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