Para fugir de pagamento, Petrobrás pressiona petroleiros a compensarem banco de horas

Companhia tem disparado e-mails cobrando que trabalhadores se virem para marcar folgas

Trabalhadores receberam e-mails para acelerar redução de banco de horas (Foto: Agência Brasil)

A pedido da Petrobrás, um técnico de manutenção da Refinaria Paulínina (Replan) trocou o descanso com a família para trabalhar sábados e domingos, inclusive durante a madrugada, em turnos que resultaram no acúmulo de mais de 80 horas de banco.

Conforme acordado em audiência no Tribunal Superior do Trabalho (TST), em novembro de 2019, as duas primeiras horas extras vão para o banco de horas e o excedente é divido em metade para o banco e a outra metade é paga. Prioritariamente, o período acumulado será utilizado para suprir horas negativas, inclusive, referentes ao período de greves, como a paralisação realizada pelos petroleiros no início deste ano.

Porém, caso o tempo além do horário normal de trabalho não tenha sido compensado até dezembro, em janeiro, a Petrobrás terá de efetuar o pagamento de todas as horas-extras dos últimos 12 meses.

Com a aproximação do final do ano, muitos trabalhadores têm recebido e-mail de ajuste de frequência para que procurem um gerente e combinem uma data em que compensem o período pendente. Situação considera injusta e que gera descontentamento.

“Nunca me neguei a fazer hora-extra, mas acho injusto ter sacrificado meus finais de semana para agora ter de pegar uma folga na semana. Não tenho interesse em vender essas horas, até porque, não foi esse o combinado”, aponta o petroleiro retratado no início desta reportagem.

Todos os nomes serão mantidos em sigilo, a pedido das fontes, para evitar represálias e perseguições.

Outro técnico de manutenção da Replan, com mais de 50 horas a ver, teme que o próximo passo seja a pressão por parte dos gerentes para acelerar o processo de resgate.

“Ainda não vieram cobrar, mas acredito que virão, vários colegas têm recebido esses e-mails. Isso não é justo com quem se dedicou em um tempo que seria de folga para a produção”, avalia.

Com o mesmo perfil, um técnico de operação da refinaria destaca que, para piorar, o diálogo com os gerentes têm sido algo raro.

“Não vem orientação nenhuma da chefia, a gente vê pouco eles por aqui, tem dias que tem gerente, outro engenheiro de acompanhamento, noutros CTO. Só conversam sobre manutenção, manobra que terá”, critica.

O coordenador da regional Campinas do Sindicato Unificado dos Petroleiros de São Paulo (Unificado-SP), Gustavo Marsaioli, não vê problema em a Petrobrás buscar oferecer uma folga para compensar o banco, mas critica a pressão para que o trabalhador aceite isso ao invés de receber.

“O banco de horas já é uma perda de direitos, porque antes havia uma consulta ao petroleiro sobre receber em banco ou em valor financeiro, no mês seguinte. Com o banco, atualmente, só receberá o valor no início do ano e a empresa ainda está querendo fugir do pagamento mesmo nessa situação. Se o não houver acordo, a Petrobrás está errada ao força-lo a tirar uma folga”, afirma o dirigente.

Marsaioli aponta ainda aos trabalhadores sem interesse em folgar, que formalizem isso junto à gerência e reafirmem o desejo de receber em janeiro próximo, conforme prevê o Acordo Coletivo. Qualquer intenção por parte da direção de alterar esse modelo deve ser informada ao sindicato.

“Caso a Petrobrás insista nessa pressão, irá gerar um movimento dos trabalhadores para enfrentar e acabar com essa postura”, alerta.

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