Oito filmes sobre greves

A reportagem selecionou produções que têm como tema central a tática mais elementar utilizada no conflito entre trabalho e capital

Cena do filme “Eles não usam black-tie” (Foto: Reprodução)

Por Guilherme Weimann

Muitas vezes, a memória dos trabalhadores se entrelaça e se confunde com a das greves. Estas, por sinal, acabam servindo como importantes marcas para definir períodos históricos da luta de classe ao redor do mundo.

Apesar do capitalismo avançar como modo de produção e exploração, essa é uma tática que esteve presente desde os primórdios da conflituosa relação entre capital e trabalho e, provavelmente, nunca desaparecerá.

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Mesmo com essa importância, a imagem do trabalhador e da sua obra mais elementar sempre foi marginal dentro da biografia cinematográfica. O historiador Michel Cadé, por exemplo, verificou que o operário esteve presente em apenas 1,5% de um conjunto de oito mil longas-metragens franceses lançados entre os séculos XIX e XX.

No Brasil, essa sub-representação também pode ser verificada em um exercício empírico, e por isso nostálgico, em relação às temáticas abordadas pelas principais escolas e obras que marcaram a cinematografia nacional.

Mesmo assim, houve um período de apogeu da figura do operário nas produções locais, que se iniciou no final dos anos 1970 e se estendeu por meados da década de 1980. Coincidência ou não, ocorreu justamente com a erupção de um dos maiores movimentos grevistas já registrados no país.

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Dessa época, destacam-se filmes que mostram sob diferentes perspectivas a ascensão do movimento grevista na região do ABCD (Santo André, São Bernardo, São Caetano e Diadema), na Grande São Paulo, e a consolidação da sua principal liderança – o metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva –, que em uma das obras selecionadas definiu a greve como um “estágio de consciência”.

Para jogar luz a algumas dessas narrativas, e como forma de celebrar o aniversário de um ano de uma das maiores greves da categoria petroleira, a reportagem listou oito filmes nacionais e internacionais que estão disponíveis gratuitamente na internet.

Confira:

A GREVE

[União Soviética, 1925, 95 minutos]

A Greve é o primeiro longa-metragem dirigido pelo soviético Sergei Eisenstein, considerado um dos maiores cineastas de todos os tempos. Ainda nos primórdios da sétima arte, o filme é considerado uma obra-prima por repensar a própria forma de representação simbólica das personagens nas artes de uma maneira geral. Além disso, é considerado inovador até os dias atuais pelas tomadas e montagem extremamente refinadas.

Com apenas 26 anos e recém saído do Exército Vermelho, Eisenstein conduziu o filme com dinheiro estatal e a partir de uma equipe de cinema, ou seja, um coletivo de trabalhadores que atuam conjuntamente para realizar a obra – refutando a ideia do cinema ocidental à idealização de alguns poucos profissionais como “estrelas”. Entretanto, na prática, Eisenstein acabou se tornando uma.

Mais do que isso, o diretor assumiu personagens coletivos, arquétipos de um sistema de produção anterior à Revolução Russa de 1917, da qual Eisenstein participou de forma ativa. Por isso, a sinopse básica do filme – uma greve durante o regime de opressão czarista – é recheada de personagens sem nomes, mas que representam o “operário”, o “fura-greve”, o “líder”, o “gerente”, o “burguês”, a “polícia” e o “espião”. Desse último exemplo, a metáfora se transforma em zoomorfismo, ou seja, o diretor chega a caracterizar os espiões do filme como animais: raposa, coruja, macaco e buldogue.

Clássico da cinematografia mundial, o filme e o próprio legado de Eisenstein negam os preconceitos burgueses disseminados atualmente contra o cinema engajado. Sobre isso, o cineasta soviético opinou, em entrevista à revista alemã Berliner Tageblatt, logo após o lançamento de A Greve: “Eu penso que evitar a parcialidade, a dissipação das energias, é o grande crime de nossa época. Além disso, em si mesma a parcialidade me parece proporcionar uma grande oportunidade artística: não precisa de forma alguma de ser tão política, tão conscientemente política, quanto em Potemkin. Mas se for completamente ausente, se pensarem no cinema como um brinquedo para passar o tempo, como um meio de embalar e colocar para dormir, então esta falta de parcialidade me parece ser meramente para reforçar a visão tendenciosa de que as pessoas estão levando uma existência gloriosa e contente. Como se a ‘congregação’ do cinema, da mesma forma que a da igreja, devesse ser criada para os cidadãos serem bons, quietos e nada exigentes. Esta não é a soma total da filosofia do ‘final feliz’ americano?”, questiona.

O filme está disponível no Youtube.  

A CLASSE OPERÁRIA VAI AO PARAÍSO

[Itália, 1971, 125 minutos]

A Classe Operária Vai ao Paraíso é considerada uma das maiores obras do “cinema político italiano”, um paradigma não apenas para essa escola como para a cinematografia mundial. Dirigido por Elio Petri, o filme é protagonizado por Gian Maria Volonté, que também atuou no longa O Caso Mattei – outro clássico citado pela reportagem na matéria “Oito filmes para entender a indústria do petróleo”.

Na narrativa, Lulu Massa (Volonté) é um operário de uma indústria metalúrgica que apresenta os melhores resultados em termos de produtividade. Não questiona, apenas trabalha. Seus movimentos e pensamentos começam a imitar o ritmo das máquinas. Em casa, sofre com a falta de energia para manter a vida sexual ativa com a sua esposa.

Entretanto, ao seu redor começa a se desenrolar um conflito entre representantes do sindicato, que apresentam um tom mais conciliatório no filme, e estudantes mais exaltados que tentam insuflar os trabalhadores a uma greve imediata e por tempo indeterminado.

No meio desse fogo cruzado, um acontecimento modifica o receio de Massa participar de qualquer mobilização. Após perder o dedo em uma máquina, o operário se desloca do papel de pelego para força ativa do movimento grevista. Isso, entretanto, não ocorre sem uma tortuosa passagem entre os limiares da sanidade mental. Um, de tantos diálogos icônicos do filme, ocorre entre Massa e um ex-operário que acabou sendo internado em um manicômio: “Que merda nós fabricamos? Isso eu sei. Para que servem tantas peças? Fazemos milhões. Eu sei, eu sei, fazemos peças, que depois servem para um motor… Uma vez encontrei o engenheiro, o peguei pelo pescoço e disse: ‘você vai me dizer que merda se fabrica nesta fábrica e para que merda servem estas peças?”.

O filme está disponível no Youtube.

BRAÇOS CRUZADOS, MÁQUINAS PARADAS

[Brasil, 1979, 79 minutos]

Este é o primeiro de uma série de filmes desta lista que retrata as icônicas greves ocorridas na Grande São Paulo na virada entre os anos de 1970 e 1980.  Dirigido por Roberto Gervitz e Sérgio Toledo, Braços Cruzados, Máquinas Paradas registra a eleição para a diretoria do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, que na época era comandada há 14 anos por Joaquim dos Santos Andrade – uma das máximas representações da figura do “pelego” no cinema brasileiro.

A disputa confrontava integrantes da “Chapa 1”, que era a situação; da “Chapa 2”, que acreditava que o modelo sindical apresentava problemas estruturais, mas que poderiam ser resolvidos com uma diretoria bem intencionada; e a “Chapa 3”, que era composta por trabalhadores ligados ao que ficou conhecido como “novo sindicalismo”.

Esse movimento questionava toda a legislação e estrutura sindical, que foi instaurada por Getúlio Vargas a partir de uma inspiração do fascismo italiano. Defendiam que a tutela e interferência do Estado nos sindicatos, agravadas durante a ditadura militar, impediam qualquer movimento emancipatório dos trabalhadores.

Como alternativa, defendiam a autonomia fabril a partir da instauração de comissões de fábricas e a unidade da classe trabalhadora para além das categorias clássicas (metalúrgicos, petroleiros, bancários, etc.). Existem trechos muito simbólicos da vivacidade desse debate entre os trabalhadores nesse período histórico.

O filme está disponível no Youtube.

ELES NÃO USAM BLACK-TIE

[Brasil, 1981, 125 minutos]

O ano de 1953 marcou a fundação, em São Paulo, do que viria a revolucionar a dramaturgia brasileira. O Teatro de Arena surgiu com a intenção de se opor ao Teatro Brasileiro de Comédia e dar vazão a textos autorais, que se debruçassem principalmente sobre questões políticas e sociais brasileiras.

Em 1958, quando o Teatro de Arena sofria crises econômicas, o ator e dramaturgo Gianfrancesco Guarnieri escreveu Eles não usam black-tie, uma das peças mais marcantes do teatro brasileiro. Lançada no mesmo ano, ficou um ano em cartaz e depois iniciou uma caravana pelo país.

Em uma dessas exibições, na Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, o jovem cineasta Leon Hirszman esteve presente na plateia. Desde então, iniciou uma verdadeira epopeia na tentativa de adaptar a obra ao cinema. Entretanto, descobriu que a os direitos já haviam sido comprados pelo cineasta argentino Hugo Christensen.

Com isso, Hirszman conquistou os direitos para iniciar a produção do filme apenas em 1979, justamente quando eclodia as greves na região do ABC. Com um elenco recheado de grandes atores, como o próprio Gianfrancesco Guarnieri, Bete Mendes, Fernanda Montenegro, Carlos Riccelli e Milton Gonçalves, o filme talvez seja o maior sucesso que a figura do operário conquistou em termos de projeção no cinema nacional.

A trama se passa em torno de uma família moradora de um bairro periférico, que tem a mãe como trabalhadora doméstica, o pai como operário e líder sindical, um filho também operário e outro, mais novo, também trabalhador braçal. O conflito principal se dá justamente no embate entre o pai militante e o filho “pelego”, que vive os dilemas de garantir o futuro da sua família após descobrir que sua namorada está grávida.

O filme está disponível no Youtube.

LINHA DE MONTAGEM

[Brasil, 1982, 90 minutos]

Dirigido por Renato Tapajós, Linha de Montagem filma o movimento sindical do ABC entre março de 1979 e julho de 1981. A narrativa abarca desde o ápice das greves metalúrgicas de 1979, quando chegaram a reunir mais de 100 mil trabalhadores no estádio da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo (SP), passando pela intervenção no sindicato pela ditadura militar, até chegar na criação do Partido dos Trabalhadores (PT). E, obviamente, a ascensão da maior liderança popular da história recente do país, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Além do conteúdo, entretanto, o que talvez mais se destaque dessa produção é a relação intrínseca com os próprios trabalhadores retratados. Da concepção à distribuição, essa obra é pensada com e para as personagens principais, que são os metalúrgicos.

O filme foi financiado em parte pelo próprio sindicato, no período anterior à intervenção que durou diversos meses, como também pelo Fundo de Greve dos Metalúrgicos. Esse era um recurso arrecadado pelos próprios trabalhadores para manter o sindicato em caso de intervenção, assim como garantir o sustento de grevistas que fossem demitidos.

A pré-estreia ocorreu na sede do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, com a presença de Chico Buarque, que também assina a música tema do filme, e de milhares de operários que se viam retratados pela primeira vez no “cinema”.

O filme está disponível no Youtube.

ABC DA GREVE

[Brasil, 1990, 75 minutos]

ABC da Greve se debruça sobre parte dos mesmos acontecimentos retratados em Linha de Montagem, mas focalizado em um período mais curto de filmagens, entre 19 de março a 19 de maio de 1979. O filme é dirigido por Leon Hirszman, que estava em São Paulo para iniciar a produção de Eles não usam black-tie, e filmou o documentário como uma espécie de pesquisa e laboratório para longa-metragem de ficção.

Tanto é que não chegou a lançar em vida ABC da Greve, falecido em 1987. A obra foi finalizada e lançada apenas em 1990, pelo diretor de fotografia Adrian Cooper, já com um longo distanciamento temporal dos acontecimentos retratados.

É interessante verificar os diferentes pontos de vista de ABC da Greve e Linha de Montagem sobre os mesmos acontecimentos históricos. Apesar de origem burguesa, Hirszman e Tapajós criaram relações muito diferentes em relação às personagens retratadas – o primeiro como um objetivo de estudo, o segundo a partir de uma atuação mais orgânica.

O filme está disponível no Youtube.

PÃO E ROSAS

[Reino Unido/França/Alemanha/Suécia, 2000, 110 minutos]

Pão e Rosas é dirigido pelo britânico Ken Loach, que também assina as obras-primas Eu, Daniel Black e Você não estava aqui, citadas pela reportagem na matéria “Oito filmes sobre questões trabalhistas para ver na quarentena”.

A personagem principal, Maya (Pilar Padilha), acaba de chegar em Los Angeles, nos Estados Unidos, para encontrar sua irmã que já vivia há muitos anos no país com o objetivo de enviar dinheiro à família, originária de Tijuana, no México.

Como temática central, o filme conta a história da exploração de imigrantes por empresas do setor de limpeza. Além disso, mostra a relação – por vezes contraditória – dos sindicatos com a organização dos trabalhadores para conquistar seus direitos.

O filme está disponível no Youtube.

PEÕES

[Brasil, 2004, 85 minutos]

Peões, de Eduardo Coutinho, é um mergulho não apenas nas greves que marcaram a região do ABC entre o final dos anos de 1970 e começo da década de 1980, como também é uma revisitação aos modelos de documentários que eram realizados no período.

A partir dos documentários ABC da Greve e Linha de Montagem, Coutinho revisita histórias pessoais de personagens que marcaram essas lutas dos metalúrgicos. Em uma das cenas, por exemplo, Zelinha, antiga faxineira do Sindicato dos Metalúrgicos, recorda como salvou os negativos de Linha de Montagem da Polícia Federal, durante a pré-estreia.

O filme foi rodado durante a campanha presidencial de 2002, com o último dia de filmagem coincidindo com a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva – o maior expoente das greves metalúrgicas – ao Palácio do Planalto.

Como todos os filmes do cineasta, é uma obra que não apenas reflete apenas sobre o tema selecionado, mas realiza um mergulho metalinguístico do próprio “fazer” documentário.

O filme está disponível no Youtube.

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