O gostinho amargo e falsificado da vitória

Por Rôney Rodrigues | Ilustração: Vitor Teixeira

Confira aqui o início da saga do Erval.

Erval comprou um gato angorá. Amarelinho e blasé. Deve ter pensado: se dinheiro compra cão, canil e até o abanar de rabo, como disse Millôr Fernandes, nada melhor do que recompensar minha fidelidade canina aos patrões com um bichano – adquirido no melhor pet shop da cidade. Desfrutaria de fugaz superioridade, finda disputas de cães, gatos – e ratos.

Batizou-o de Roberto. Por vezes, lapsos acontecem e o animal é, respeitosamente, tratado por doutor. Indiferente, talvez como o homônimo da Petrobrás, o gatinho nem ao menos ronrona. De pijama puído, agora sua roupa do dia a dia, Erval toma seu Roberto no colo e mostra o arsenal para enfrentar a quarentena: álcool gel suficiente para desinfetar mãos do bairro todo; máscaras que supriria uma UBS; enlatados para um batalhão; litros de alvejantes. No congelador de sua frost free, quilos de picanha, contrafilés e sorvetes – e uma esquecida garrafa de vodca. Também se munira com várias Green Label, compradas de um conhecido a precinho camarada – na verdade, contrabandeadas de Cidade do Leste. Serve-se uma dose.

“Isso que é vida, Betão! O dinheirinho extra serviu…” – e o gatinho arqueia o bigode com a intimidade forçada.

A pandemia não o abate. Já está acostumado a forçada quarentena moral. Seu casamento – que resistira à redemocratização, Plano Cruzado, Collor, privatarias tucanas e arrochos – sucumbiu a sua virulência em 2016, época do golpe. Os filhos, “comunistinhas das Humanas”, romperam com Erval. Os netos já nem sabem se o nome do avô é grafado com ou sem H. Diaristas são afugentadas por sua intempestividade. Com protestos frente a seu prédio, porteiros e vizinhos o evitam. No bar do Luizão, onde antes se encontrava com outros petroleiros aposentados, não é bem quisto. Embora não confesse, sente-se mais desvalorizado pela Petrobras que latinha de Brahma, a qual bebemos, amassamos e descartamos – só que não há ninguém para reciclar o pobre Erval.

Mas, ainda sim, regozija-se com as últimas notícias: turnos de 12 horas impostos aos petroleiros para “prevenir o coronavírus”; perseguição aos grevistas com advertências e suspensões. “Vencemos, Betim”, suspira ao agora assustado gato. O sabor da suposta vitória parece estranho – e promete mais dores de cabeça que o uísque falsificado que beberica.

O marasmo da sala, então, é rompido: sons confusos da rua. Erval sai à janela: panelaços e gritos de “Fora Bolsonaro”. Parecem trombetas da catástrofe que se avizinha – ou de iminente mudança. Sente friozinho na espinha, similar ao de quem apostou no cavalo errado. O uísque já acabou. O dinheiro também. Melhor deixar aquela garrafa de vodca pra amanhã, pensa. “Vamos dormir na minha cama, Ro”, propõe, manhoso.

Roberto olha para a sacada: não há rede de proteção.

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