O fim de ano de quem não para

Os trabalhadores de turno são os profissionais petroleiros que precisam estar de plantão independente da data ou hora, por isso, muitas vezes acabam trocando datas especiais ao lado da família pelo trabalho

Foto: Reprodução/Fatos e Dados (Petrobrás)

Entra ano, sai ano e a tradição é certeira em quase todas as casas brasileiras: reunir a família para fechar os 365 dias que se encerram, mas para os trabalhadores que precisam ficar de plantão, a realidade é diferente. Muitos operadores, enfermeiros, técnicos e mecânicos precisam abrir mão desse momento porque a produção não pode parar.

Com a nova tabela de 12 horas, tornou- se  quase inevitável trabalhar em pelo menos um dos feriados de fim de ano e, em alguns casos, há quem tenha de trabalhar nos dois, como é o caso de Renato Manocchi, funcionário do hidrotratamento (HDT) e que está na Replan há 18 anos.

“Com a nova tabela não tem como escapar, quem estiver lá dentro vai ficar as duas passagens [de Natal ou ano novo], mas como sempre trabalhei de plantão, eu e minha família estamos acostumados”, relatou. 

Para Manocchi, passar essas datas longe da família nunca foi um problema, pois, mesmo antes de ingressar na carreira de petroleiro, ele já estava habituado com a jornada de turno por conta de outras profissões. “Se der pra passarmos juntos, a gente passa, mas nunca foi nenhum drama”. 

Em situação semelhante, o petroleiro Auro Mata, da destilação, diz ter se acostumado com a ideia de ter de trabalhar nestas datas e, consequentemente, passar longe da esposa e dos filhos. “Costumo ligar pra minha família quando o relógio bate à meia-noite pra mandar um abraço pelo telefone”, explicou, acrescentando que é necessário ter uma cabeça boa pra não se deixar abalar por situações como esta.

Neste ano vou sentir muito mais por dois motivos: porque agora tenho uma filha de um ano e ficar longe dela nessas datas vai ser muito ruim e, com o turno de 12 horas, o tempo que terei em casa será menor.

André Almeida

Já André Almeida, do craqueamento e funcionário da Replan há 12 anos, conta que o nascimento da filha mudou a relação dele com essas datas e lembra que no antigo turno, mesmo quando precisavam trabalhar no Natal ou réveillon, era possível participar, junto de sua família, do processo de preparação da ceia ou no dia anterior a ela.

Ceia na refinaria

A Refinaria de Paulínia costumava servir aos petroleiros de turno que trabalhavam nestas datas uma alimentação diferente daquela servida nos dias usuais. Porém, com a troca de restaurante dentro da empresa, os trabalhadores relatam que nos últimos anos a qualidade das comidas vem decaindo bastante

“A Replan sempre forneceu comida, e nessas datas costumava mandar alimentos típicos, como uma forma de confraternizar com quem estava trabalhando, mas até isso acabou”, lamentou o petroleiro Gilmar Xavier, que está prestes a aposentar e, apesar de estar de folga neste ano, já precisou fazer muito plantão em Natal e réveillon. 

Antes do atual restaurante, pelo menos nestas datas, sabíamos que a comida que seria servida na refinaria era igual a que comeríamos em casa.

Renato Manocchi

Assim como Xavier e Renato, o petroleiro Fernando Martin, da destilação, também está decepcionado com a baixa qualidade dos alimentos servidos na refinaria e admite não ter nenhuma expectativa sobre uma possível alimentação especial na data comemorativa. “Com a pandemia, o self-service foi substituído por quentinhas e já aconteceu, inclusive, de a gente trabalhar 12 horas, por conta da nova tabela, com só uma marmita e um pão de queijo no estômago. Então acho que não dá pra ficar pior [na ceia]”. 

Antes da pandemia, os petroleiros também podiam entrar na refinaria com alimentos trazidos de fora, o que agora é fiscalizado para evitar contaminação e disseminação da covid-19. 

O companheirismo permanece

Entretanto, mesmo passando uma data tipicamente familiar longe de casa e dos familiares, os operadores continuam unidos dentro da refinaria. “Os nossos colegas petroleiros acabam tornando-se nossa família ali, o que acaba sendo até reconfortante”, desabafou Xavier. 

Outra prática comum entre os petroleiros é cumprimentar-se na virada das datas e, quando possível, fazer uma pequena pausa para assistir aos fogos de artifício no céu. “Costumamos subir numa torre ou plataforma para ver os fogos. A maioria do pessoal faz isso”, disse Manocchi. 

O companheirismo também costumava ser presente no momento de troca de turno, o que foi dificultado por conta da tabela de 12 horas. “Tínhamos um acordo entre nós para trocar o plantão meia hora antes do estipulado, para dar tempo do petroleiro que estivesse saindo da empresa ir para casa e passar a virada com a família”, concluiu Auro, explicando que os trabalhadores faziam isso para preservar algo que não tem preço: a união da categoria petroleira.

 

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